Literatura em Foco: Pedro Páramo

Por Janaína Guaraná

28 de dezembro de 2018


Pedro Páramo, do escritor mexicano Juan Rulfo é o romance que foi considerado o pontapé inicial ao aclamado “realismo mágico” na literatura latino-americana. Nas palavras de Gabriel García Márquez, é “a mais bela novela já escrita em língua castelhana”. 

Rulfo costura múltiplas narrativas para construir a história do homem estampado no título do livro. A cada capítulo, um novo personagem, uma nova voz e um novo tempo. Aos leitores, uma dica: é preciso persistir e não se deixar vencer pela confusão inicial causada pela intensa troca de narradores, pois isso é justamente o que distingue a escrita do autor mexicano. Quando todos os pontos começam a se ligar e fazer sentido, o esforço para superar as primeiras páginas é recompensado. 

A princípio vamos conhecer o personagem Juan Preciado, que faz um juramento à sua mãe no leito de morte. A promessa é a de que ele deve ir a uma vila do interior do México chamada: Comala, procurar seu pai biológico e exigir tudo que lhe é de direito. Com o proposito de cumprir tal promessa, Juan chega à vila e se depara com um lugar abandonado e deserto, no entanto, aos poucos os cidadãos vão aparecendo e contando sua história. O autor alterna narrativas em meio todo o livro, às vezes é em primeira pessoa, outras em terceira pessoa e em muitas delas é difícil identificar que está narrando. Com alternância dos personagens na voz da primeira pessoa o romance vai se delineando a partir desses discursos múltiplos, fragmentados, desordenados e muitas vezes contraditórios. 

A alusão ao Inferno não é um exagero demasiado. À medida que a história avança, Comala revela-se uma cidade cheia de mistérios e as vozes que conduzem Juan Preciado em sua busca não são vozes comuns. Todos os personagens que assumem a narrativa para revelar a história de Pedro Páramo , entoam as vozes de almas que vagam pelo povoado por não terem conseguido a absolvição de seus pecados antes da morte. Aparentemente, Comala é uma espécie de purgatório e não são todos os seus habitantes que têm consciência dessa condição. 

Como disse no início do texto, Juan Rulfo é considerado um dos precursores do “realismo mágico”. Muitos escritores como Gabriel Garcia Marquez e Mario Vargas Llosa, que trabalham esta característica em suas obras, encontraram inspiração em Pedro Páramo e em contos de Rulfo. Eu já tinha entrado em contato com duas obras que trabalham este gênero que foram: Cem Anos de Solidão do Gabriel Garcia Márquez e A Guerra do Fim do Mundo do Mario Vargas Llosa. O ingrediente mais intrigante é justamente onde Rulfo coloca o realismo mágico em sua obra e como ele sempre deixa a dúvida presente no leitor. O enredo de Pedro Páramo se dá pelos sussurros fantasmagóricos dos habitantes de Comala que tiveram suas vidas arruinadas de alguma forma.
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