Literatura em Foco: O Tempo Desconjuntado

Por Ellen Joyce Delgado

3 de dezembro de 2018


O tempo nos faz questionar a existência de tudo. Nessa nova jornada do Literatura em Foco, o livro O Tempo Desconjuntado, de Philip K Dick, nos fará perguntar, ainda mais, a existência do real e o limite do (im)possível – com leves oscilações de lucidez. O livro segue sua primeira edição, acompanhado pela Editora Companhia das Letras.

Ragle Gumm, personagem central, traz consigo, inicialmente, uma vida bastante comum. Apenas mais um cidadão, com um pouco mais de 40 anos de idade, que habitava com sua irmã e o cunhado. 

Entre sua rotina, algo muito estranho nos é apresentado: Ragle é uma pessoa que sempre acertava as respostas numéricas de um concurso do jornal local. Inicialmente, as coisas poderiam fazer algum sentido, já que o mesmo era experiente na arte de cálculos da Segunda Guerra Mundial. Mas o estranhamento estava em sua irremovível vitória nos cálculos diários desse jogo. 

O mesmo era sempre questionado por essa proeza mas, ao certo, nem ele sabia. 


Com o tempo, percebe-se que tudo aquilo que o cerca já não faz total sentido. Ragle perde a noção exata dos objetos que os cercam e as coisas passam a se transformar em pedaços escritos. A realidade passa a ser contestada e o mesmo acaba se perdendo nos avessos da legitimidade. 

O cunhado de Ragle o questionava muito pela vida inalterada que levava. O mesmo sempre o rondava acompanhado por sua bisbilhotice. Em resposta, essa conduta o levou a sentir algumas experiências, também, confrontantes ao existencialismo. 

O livro segue uma viagem sobre as incertezas da realidade. Os personagens nos levam ao enredo de uma forma paranoica e expressiva. Creio que a intenção do autor era realmente essa, onde o leitor se expusesse ao meio termo – ou mais adiante

O real não nos traz uma verdade absoluta. Acredito que sempre teremos a metade, e a metade, e a metade...


Descobrir a realidade, para Ragle, era se desconectar da mesma. Mas, ele nem imaginava que suas verdades não seriam tão simples. O tempo – e o espaço – o deixariam desconjuntado. 

O enredo do livro segue uma temática legítima, com um desejo desassossegado para o encerramento. Com uma avaliação em cima disso, posso afirmar que o resultado foi bem satisfatório. Minha única crítica fica para os momentos da incultura do homem diante da mulher, onde, em alguns casos, a mesma é caracterizada com adjetivos desprezíveis. Ainda assim, acredito que essa tenha sido uma forma de expressão de nossa antiga visão mundana, já que o cenário é vivenciado em 1959 – estágio ainda difícil para uma revolução. 

Em suma, classifico o livro de forma fabulosa. É uma ótima opção para aqueles que procuram o desconjuntamento de todos os “porquês”.
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