The Romanoffs - 1x03 - The House of Special Purpose

Por Roberta Brum

25 de outubro de 2018


Ainda em descrença com os dois primeiros episódios de The Romanoffs, certa de que na verdade eu não tinha entendido a antologia e que minha frustração era infundada, percebi que não estava sozinha: uma crítica afirma que "os dois primeiros episódios são tão ruins que é quase inacreditável" e ao comparar episódios, que o "segundo é melhor, mas só se você considerar que desmaiar de exaustão é melhor do que desmaiar por causa de um ataque cardíaco", enquanto outra fala em "teste de paciência". É, não foi apenas eu que achei os episódios sofríveis.

Mesmo após dois episódios decepcionantes, continuei esperançosa de uma melhora. Dos três episódios até então, o terceiro, The House of Special Purpose, sem dúvidas é o realmente o melhor - não que necessariamente seja um episódio bom. Mas dado o parâmetro que temos, foi bom.

O título do episódio é uma referência direta à História. The House of Special Purpose - ou A Casa do Propósito Especial, em tradução livre - nada mais é do que a Casa Ipatiev, uma mansão em Ecaterimburgo, onde os Romanovs foram aprisionados e mortos. Após o assassinato ela foi renomeada para House of Special Purpose. Sendo este "propósito especial" a execução, claro.

Neste terceiro episódio da antologia, temos novo elenco, nova locação e nova história. Temos agora um elenco com nomes como Christina Hendricks e Isabelle Huppert. Estamos em algum lugar bucólico da Áustria. E desta vez temos um enredo metalinguístico: acompanhamos atriz e diretora durante a gravação uma minissérie de seis episódios sobre os Romanovs. A diretora, descendente dos Romanovs. A atriz, interpretando a czarina Alexandra Romanov.  Meu coração, saudoso de Mad Men, se aqueceu e se animou pela presença de Hendricks, teoricamente a protagonista do episódio. Na dita minissérie, foca-se especialmente nas relações entre a Alexandra e Nicolau e Alexandra e Rasputin.


Pois bem, pensei que Hendricks, Huppert, Weiner e este enredo metalinguístico eram motivos convincentes para dar mais uma chance à antologia. O episódio realmente começou bem: Sweet Dreams do Eurythmics na trilha sonora. "Agora vai", pensei cá comigo. O episódio prometia. Aqueles dois primeiros episódios foram exceções. Certeza.

Errado.

The House of Special Purpose inicia mostrando Olivia Rogers chegando para as locações da minissérie para substituir a então atriz principal, que ora se demitiu, ora foi demitida, ora teve uma overdose e encontrando a diretora Jacqueline Gerard - uma atriz que busca reconhecimento e legitimação na direção. Gerard é uma diretora cujos métodos heterodoxos beiram o nonsense, nos deixando perplexos em alguns momentos: transforma um simples ensaio em uma única tomada; buscando mais intensidade acha válido agarrar os atores pelos testículos; aceita tomadas que beiram a irracionalidade, se tornando cômicas; reescreve cenas inteiras na madrugada mal avisando os atores em tempo hábil; e reescreve a História, literalmente, com direitos a alterações nevrálgicas: afinal, a execução dos Romanovs é apenas um mero detalhe. Licença criativa que chama, não? É a famosa "figuraça". A entrada dela para a gravação desta "releitura histórica" é simplesmente fenomenal - basicamente o estereótipo que tenho diretores franceses. Apesar de amar Hendricks, o episódio foi de Huppert.

Em linhas gerais, uma das linhas narrativas é o conflito entre Rogers e Jacqueline e a outra é a própria gravação em geral, marcada por acontecimentos estranhos, para dizer o mínimo. O enredo é uma mistura peculiar: humor e terror. O humor se aproxima da sátira enquanto o terror do sobrenatural e ambos se aproximam do absurdo. O humor não necessariamente faz rir enquanto o terror não necessariamente assusta, mas é permeado por uma incredulidade de "não pode ser real uma coisa dessas". Contudo, de certo modo a estranheza do episódio é hipnotizante no sentido do inesperado: nunca se sabe qual seria o próximo absurdo e o episódio prendia, talvez não pela atratividade, mas justamente imprevisibilidade e a constante incredulidade - não que isso seja necessariamente positivo. Ou simplesmente este terceiro episódio seja mais interessante por fugir da banalidade do cotidiano.


O final do episódio é simbólico e um tanto quanto chocante - no bom sentido. Provavelmente a melhor parte do episódio. E uma referência dupla, tanto à História dos Romanovs quanto ao título que nomeia o episódio.

The House of Special Purpose se enquadra naquela controversa categoria do "de tão ruim, é bom", nas quais eu particularmente enquadro Barbarella.

Ainda acredito que Weiner se fia exageradamente no mistério que cerca os Romanovs, como se isso fosse suficiente para a antologia. Não é. Os personagens devem ser minimamente envolventes, provocantes e estimulantes para que se justifiquem. Não precisam ser Eugenia Smith  ou mesmo Anna Henderson (as mais famosas "impostoras" dos Romanovs, para saber mais tem este artigo da Rappaport), mas é necessário personagens que sejam cativantes e valham a pena acompanhar durante 90 minutos de nossas vidas.

Não faço ideia qual o caminho que a antologia tomará, até porque as sinopses da Amazon Prime são sucintérrimas. O quarto, por exemplo - Expectation - simplesmente traz que se tratará "do dia de uma mulher em Nova Iorque que é confrontada com todas as mentiras de sua vida" (a priori deveras instigante, diga-se de passagem). De toda forma, provavelmente continuarei assistindo por causa do elenco e pelo Weiner. E porque tenho um problema em não terminar coisas (único motivo, inclusive, de eu ter finalizado 50 Tons de Cinza).


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