The Romanoffs - 1x01 e 1x02 - The Violet Hour e The Royal We (Series Premiere)

Por Roberta Brum

20 de outubro de 2018


A antologia da Amazon parte de uma premissa básica: acompanhar o cotidiano daqueles que supostamente - ênfase no supostamente - são descendentes dos Romanovs. Implícito a premissa encontra-se o fato de que apesar do acontecido em 1918, a família Romanov não se limita a então czares russos e muitos sobreviveram à Revolução.

Mas antes de qualquer coisa é necessário ter em mente o fascínio exercido no público pela família que dá nome à série: os Romanovs.


A Casa Romanov é uma família real russa, a última dinastia imperial. Com eles cai o Império Russo. Quando falamos em Romanov geralmente nos referimos a família do último czar: Nicolau e Alexandra e os filhos Olga, Tatiana, Maria, Anastasia e Alexei. A família foi executada por bolcheviques em 18 de julho de 1918. Seus corpos foram encontrados apenas em 1979. A morte dos Romanov sempre foi cercada de mistério, mistério alimentado pelas mais diversas teorias da conspiração. Atualmente a Igreja Ortodoxa Russa questiona a identidade de Alexei e Maria, cujos restos mortais foram localizados apenas em 2007, porque, como o restante da família - identificada através de DNA a pedidos inclusive da própria igreja - foi santificada, sendo considerados neo mártires, eles exigem uma confirmação por parte de um grupo de cientistas russos. Uma equipe norte-americana já confirmou a identidade de ambos. Para saber mais sobre a família, indico os livros de Helen Rappaport, em especial "As Irmãs Romanov" e "Os Últimos Dias dos Romanov", cuja densa pesquisa se desdobra em um belíssimo e bem fundamentado trabalho. Curiosamente 2018 marca o centenário do assassinato da família Romanov. Se há ou não coincidências neste fato, ainda não me aprofundei.

Dito isto, voltemos à antologia em si.
São oito histórias independentes, uma por episódio. Como antologia, cada episódio é história nova, elenco novo, locação nova.

A primeira história - The Violet Hour - passa-se em Paris e nos apresenta Anushka Romanov. Anushka menciona sua "tia-avó Irina", que em uma busca rápida mostra ser sobrinha do czar Nicolau, filha de sua irmã mais nova. Então, teoricamente, ela seria sobrinha-bisneta de Nicolau. Mas isto é irrelevante, afinal, o mote da série não é a busca dos possíveis herdeiros do trono russo a possíveis heranças ou direitos. Longe disso. A relação não é aprofundada ou mesmo trabalhada, ela simplesmente existe.

Anushka ostenta ainda lapsos da grandeza Romanov, afinal é dona de um gigantesco, antigo e riquíssimo - com direito a Fabergé e quadros nas paredes - prédio em Paris. Acima disto, contudo, ela materializa uma faceta do estereótipo real: arrogância, soberba e superioridade. Também materializa uma imagem relativamente comum da realeza: elitizada e intocável. Mas Anushka é mais: xenófoba, racista e machista, capaz de comentários odiosos com a maior naturalidade do mundo - bem na verdade não muito diferentes do que temos acompanhado nas redes sociais nos últimos dias. 


Pois bem, devido a sua posição - e à sua "linhagem real" - Anushka se vê acima de todos, como se seu sobrenome permitisse tudo, digna de adoração e devoção. Na verdade, não é que ela fosse digna, adoração e devoção são obrigações alheias. Bem no estilo autocrático característico dos czares russos que basicamente se achavam deuses. Contudo, Anushka não tem uma corte aos seus pés, eternamente disponível para bajulá-la. Ela é uma viúva, sem filhos, cujo único parente é um sobrinho que junto com a namorada, apenas esperam sua morte para se apoderar do apartamento. Desta forma, seus cuidados ficam a cargo de estranhas, no caso cuidadoras. Ênfase no plural porque como Anushka é basicamente intratável - e ninguém é suficientemente bom para seu gosto -, trocas são praticamente diárias e nenhuma cuidadora fica. Até Hajar. Que não se curva ou se rebaixa com os comentários preconceituosos e ofensivos de Anushka, enfrentando-a. Anushka se humaniza no convívio com Hajar. Ou melhor, ela deixa-se ver humana - com seus sofrimentos. Mais como pessoa e menos como ídolo.

Dito isto, a trama se desenrola - com direitos a algumas reviradas de olhos porque clichés estão presentes e bem mais presentes do que deveriam - e culmina em um final no mínimo curioso. Uma volta às origens Romanov, digamos assim. 

Já o segundo episódio - The Royal We - nos revela o bem menos glamouroso Estados Unidos, onde reside nosso outro descendente. Michael. Romanoff. Ao contrário de Anushka não há nada que remeta a grandeza da então família real. Nem cachorros nomeados Alexei ou ovos Fabergé.


Michael é o estereótipo de homem suburbano, com direito a checklist completo: casa, carro, trabalho, esposa. Não há de extraordinário em sua vida. Michael primeiramente é mostrado ao lado de sua esposa em uma sessão de terapia de casal. E este fato dá o tom do episódio. Michael não está necessariamente em crise, mas está acomodado. Estagnado. Assim como milhões de pessoas em algum momento da vida. Dentro deste comodismo, diariamente busca se convencer de que está feliz. Simplesmente se conformou à rotina, que tem se mostrado tediosa. Diante disso, ele busca uma fuga do ordinário, da mesmice cotidiana e nesse sentido emerge o júri. E desta forma que o episódio se desenrola, uma espécie de jornada de auto-descobrimento ou redescobrimento, tanto para ele quanto para sua esposa - e isso forçando bastante.

Se tomar como referência o número de linhas, o primeiro episódio foi bem mais interessante que o segundo, o que não deixa de ser verdade. Como também é verdade que curiosamente passei mais raivas no segundo.

Enfim, continuando... 
Nestes dois primeiros episódios, de certo modo criei um jogo, por assim dizer: buscar indícios que me permitissem identificar o grau de parentesco dos personagens com a famosa família. Em Anushka foi mais fácil, afinal ela constantemente mencionava seus antepassados. Em momentos distintos menciona além da já citada Irina, o "grão-duque Alexei", ninguém menos que Alexei Romanov. O que é curioso porque isto revela que ela vive a mitologia que cerca os Romanov: são diversos os rumores - que se transformaram praticamente em lendas - dentre os quais o mais famoso é da sobrevivência de Anastasia (que inclusive foi o enredo da famosa animação homônima). Outro tratava da sobrevivência de Alexei. O que me leva a questionar se tudo não passa de um mundo, mundo ficcional criado por Anushka, que alimenta sua ilusão de grandeza.

Já Michael ao mesmo tempo em que é óbvio é mais implícito. Aparentemente paradoxal, mas explico. No seu episódio uma das linhas narrativas é o evento da Sociedade da Família Romanov (que realmente existe) enquanto uma da outras é a linha do julgamento (que ele prefere em detrimento deste evento), onde ele menciona que "sua família foi assassinada".

Em todo caso, o confronto entre Romanovs históricos e Romanovs mitológicos não passa nem perto de uma linha narrativa, mas é um daqueles elementos sutis que compõem a narrativa e que dão mais charme à mesma, além de aos poucos revelar a família àqueles que ainda não a conhecem.

Veredito? As expectativas eram imensas. A realidade se mostrou dura e esmagou miseravelmente as expectativas.

A sensação ao final dos episódios não foi nem de indignação, sentimento que geralmente marca um episódio ruim, foi de perplexidade, simplesmente um: "não era nada disso que esperava". Seguida de decepção, claro. Algo como "perdi 90 minutos da minha vida que nunca mais recuperarei". The Romanoffs trata de pessoas comuns - tais como eu e você - com seus diversos problemas cotidianos cuja particularidade é terem o sobrenome de uma famosa família russa. Humor, se há, não é um humor escrachado e óbvio: é um humor refinado e sutil. Um humor do absurdo. É uma piada mordaz cujo mote é a decadência da nobreza ou mesmo sua banalização.

Contudo, nem tudo está perdido.

O elenco não é o Real Madrid, mas é galáctico: dentre as estrelas estão Diane Lane, Aaron Eckhart, Corey Stoll, Amanda Peet, Clea DuVall, Michael O'Neill, John Slattery, Christina Hendricks, dentre muitos, mas muitos outros. O roteiro - o que particularmente primeiramente me atraiu à série - é de ninguém menos que Matthew Weiner, roteirista das antológicas The Sopranos e Mad Men. Não tinha como dar errado. Mas deu.

A fotografia é belíssima, detalhista. A abertura da antologia é marcante e sem dúvidas um dos pontos altos da mesma: desvela os últimos segundos dos Romanov e a brutalidade da execução (com divergências do ponto de vista histórico, ressalva-se) de forma visceral, ao mesmo tempo que fotos em preto e branco mostram imagens reais da família, tudo acentuado por um claro constante entre branco, vermelho e preto. O simbolismo destas cores talvez abordarei futuramente.

Finalizando, Romanovs - no caso Romanoffs - é isca. Tal qual Versace foi em American Crime Story. Um nome "místico" para narrar histórias alheias. Contudo, em American Crime Story, a história de Andrew Cunanan era inquietante e intrigante. Em Romanoffs não são. Talvez justamente pela banalidade. E talvez seja justamente perspicácia da série.
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