Literatura Em Foco - Todos Contra Todos

Por Alvaro Luiz Matos

31 de agosto de 2018

Leandro Karnal é um ídolo para alguns, um poço de obviedade para outros, mas ninguém nega seu nível de inteligência e conhecimento. Afinal o historiador (como se chama) e filósofo (como é chamado) tem um trabalho, a meu ver, bastante denso e relevante.

“Todos contra todos” mostra uma faceta muito latente do autor, quando este toca em assuntos sociais. Afinal, nós brasileiros nos acomodamos a dizer que vivemos em um local sem terremotos, tsunamis (o que é verdade), sem violência e campos de batalha como no oriente médio, sem grandes preconceitos e caloroso (o que já não é tão verdade). Karnal vem mostrar que não é simples assim, que somos uma sociedade de “odiadores”.

O subtítulo “O ódio nosso de cada dia” vem mostrar exatamente essa ironia, descrita e abordada no livro com dados históricos e atuais, informações concretas e irrefutáveis, que o autor usa para provar seu ponto.

Afinal, e vocês? Em algum momento acreditaram nessa asneira de que somos esse país multicolorido, de compreensão, paz e amor?

Bem, para começar somos um país onde as pessoas não se ouvem, onde apenas se preocupam com o próprio umbigo, sua própria vida. Afirmação muito bem descrita nesse exemplo que consta no livro:

“Experimentem chegar para alguém ou para algum grupo e dizer que seu signo é aquário. Ouvirão alguém informar que é de Libra, de Peixes e assim por diante. As pessoas jamais entrarão em sua conversa, mas falarão de si. Desolado, você vai completar “Meu ascendente é aquário”. Seu interlocutor dirá que seu ascendente é de touro. Se vocês chegarem esta noite em casa dizendo que estão cansados, provavelmente ouvirão um “eu também estou”, e não uma questão: “Amor, hoje seu dia foi particularmente pesado?”. Ninguém escuta, ninguém responde. Não há outro, só a si mesmo.”

O exemplo começa com uma simplicidade, um papo bobo em que você pode ter pensado: “Normal, é retórico imaginar que eu queira saber também o signo da outra pessoa”, mas ao continuar, Karnal mostra que o problema é mais real do que imaginamos, afinal, ao reclamar do nosso dia, gostaríamos de uma resposta mais assertiva, mais voltada para ouvir sobre minhas queixas, mas o que se ouve é um “o meu também” quase como alguém que diria “não venha reclamar para mim, também tenho problemas”.

Se partimos do não ouvir, como supor que somos uma sociedade sem preconceitos? Afinal, somos donos da verdade, ouvintes de si só, de sua própria arrogância e estupidez. Somos sim um dos lugares do mundo com maior intolerância religiosa, de gênero e de cor.

É isso mesmo, estou dizendo que somos um país de intolerância religiosa, apesar de laico.Pois bem, me diga se o estudo religioso na escola te ensinou cantigas africanas, a cultura do candomblé, uma meditação budista, ou se te ensinaram apenas história de cristo?

Bem, talvez o pior dos pontos que podemos tocar, e que Karnal situa como o mais antigo e forte da história: O preconceito com a mulher. Elas ganham menos, ocupam fatia menor do mercado, ingressão em menor número em universidades, ganham menos papéis na televisão, quase nunca protagonistas (a não ser que a novela chame “corpo dourado” ou indique sensualidade). A mulher que é agredida e xingada por deputados tendo que ouvir “você é tão feia que não poderia ser puta”, ou precisa sobreviver a absurdos na rua como “se não quisesse ser estuprada, não sairia vestida assim”.

Poderia passar horas estendendo os casos de preconceito da população brasileira, mas não conseguiria ser tão preciso e cirúrgico quanto o historiador Leandro Karnal. Em resumo um livro de relevância nacional, que poderia ser roteiro de estudo sobre direitos humanos, pois tem embasamento e exemplos muito palpáveis.

“O ódio, além de ser um elemento de conhecimento, convida que eu transforme aquele  grão de areia em pérola. Eu transforme aquilo que me incomoda num ponto de crescimento. E aí o ódio tem uma função boa: ele revela minha fraqueza. E, se eu desejo melhorar, a primeira missão é encarar a medusa. Se não o ódio vai me dominar.”

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