Feminismo em Foco: Nosso Sangue, Nosso Corpo

Por Ellen Joyce Delgado

25 de agosto de 2018


Preciso te contar uma memória sobre o que disseram quando eu ainda era uma pequena garotinha. Disseram que, em um certo dia, um sangue jorraria do meu corpo... Alguns dias dos meses eu seria insuportável, em outros momentos eu estaria muito sensível. Eu choraria muito e seria sempre uma garota fraca. Precisaria me cuidar e tomar cuidado para jamais engordar... Mas, cadê essa menininha

O sangue vermelho acabou surrando uma calça clara. Começou, então, um estardalhaço da garota que se deixou sujar. 

O sangue continua vermelho. O período continua se mantendo. Mas a menininha cresceu

Eis aqui o principal tabu que vive uma mulher: Vamos falar de ciclo menstrual. Segue o Documentário Nosso Sangue, Nosso Corpo, promovido pela Sempre Livre e transmitido pela Fox.

Fale baixo, não comente, esconda o absorvente, cuidado com a cama... Essas são as frases mais comuns pronunciadas há tempos. Quando crianças, pensamos tanto no dia em que nos tornaremos mulheres que, quando esse dia chega, nem sabemos ao certo o que pensar sobre isso. 



De pequenas meninas para jovens mulheres. O que muda agora? Devo contar isso para alguém ou preciso manter o sigilo total? Não nasci sabendo e, ao certo, não fui ensinada qual a função desse ciclo. 

Somos tão jovens e acabamos sempre pegas de surpresa. Vergonha e medo são os primeiros sentimentos que nos prendem quando isso acontece. 

Era muito orgulhoso olhar para grandes mulheres que sempre tinha vontade de ser uma um dia. Quando descobri que me tornara uma delas, não sabia que teria aquela dor insuportável – cólica – e que seria tão obscuro falar sobre isso com alguém. 

Com o tempo descobri que ser mulher é sim sentir dor e ter desconfortos. Mas ser mulher também é algo tão maior que isso me privilegia em estar nesse grupo árduo. Ter o dom de poder ou não criar uma vida está submetido em nossas mãos. E o poder de escolha também é, inicialmente, nosso. 



Por que temos tanta vergonha se isso é um mero processo natural? É uma função de nosso corpo e não deveríamos escandalizar algo tão autêntico. Sou o que sou, e não me envergonho disso. Se não mantivermos uma identidade própria, fica mais difícil sermos nós mesmas. 

"Peitos precisam de sutiã. As pernas precisam estar cobertas. Decotes não foram feitos para uma jovem garota." Desde sempre ensinadas a sermos as “belas, recatas e do lar”. Mas não é isso que quero. E não é bem assim que farei. 

Como mostrado no documentário, o mais difícil é a nossa permanência independente no meio de algumas culturas tão conservadores. Na Índia, por exemplo, as mulheres não podem cruzar os mesmos caminhos que os outros quando estão menstruadas. É como ter que colocar um anúncio na testa: “Oi, hoje estou sangrando.” 

Ser mulher é sangrar, sofrer com aquela dor uma vez por mês, ter mais forças para o desafio de cada dia... Ser mulher é lutar. 

Não esperava uma produção tão autêntica sobre um assunto como esse. É algo pouco discutido e escandalizado, em aluns momentos. Saber sobre você mesma é o dom da descoberta e, se o mundo não lhe propõe isso de forma simples, mostremos à ele que a ignorância já não nos cabe mais.

Lute como uma MENINA... Cresça sendo uma MULHER.

(PS: o documentário já está disponível no youtube. Aproveite!)



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