Netflix and Chill - Hannah Gadsby - Nannette

Por Alvaro Luiz Matos

7 de julho de 2018

Não conhecia a Hannah Gadsby até ser intimado por nossa colaboradora Janaina Guaraná (cada um com o seu sobrenome, não é?) a reativar a minha coluna para falar sobre esse stand up de primeira. Então aqui com vocês, eu Alvaro Coca Cola, digo Alvaro Luiz Matos.

Vamos juntos.

Todos nós queremos que nossa história seja contada, queremos ultrapassar as barreiras do tempo com nossa lição de vida, gritar ao mundo nossas dores, sermos ouvidos. Nossa trajetória será sempre nossa assinatura no mundo, nossos triunfos e nossas derrotas.

Estou montando meu primeiro livro e recentemente fiz um texto que dei o nome de “Biografia não autorizada” (um resumo de minha história pela ótica da dor) e resolvi separar por temas os textos que hoje estão catalogados por datas. Essa biografia deverá abrir o livro junto a outros textos mais intimistas, mais voltados para mim, para dentro de mim, para a minha história que, assim como todas, é tão cheia de dores, derrotas e algumas vitórias.

Estarei, eu, contando minha história ao mundo.

Mas, sinceramente, não me sentiria capaz de contar sobre esse stand up, não me sinto honrado, não me sinto digno. Sou representante dessa maioria infeliz, sou um homem hétero, branco e de certa forma “de boa aparência”, mas sou também grande fã de uma reconstrução íntima. A desconstrução de nossas certezas é sem dúvida o caminho correto para poder construir um mundo melhor.

Na verdade a Jana poderia falar muito melhor sobre a mensagem que esse show maravilhoso carrega. Ela, além de uma mulher consciente e instruída, escreve muito melhor do que eu. Portanto, de todas as formas, muito mais qualificada para a atividade.

Entretanto se estou aqui, preciso me esforçar além dessa interminável introdução.

Hannah, além de um timming cômico incrível, sabe conduzir a tensão até o momento correto para soltar a piada. Ela também traz à tona um texto relevante, fazendo uma “crítica à histeria desse grupo majoritário de homem brancos héteros” (Doravante HBH).

Sabemos que toda forma de preconceito se advém do medo, e nesse caso é fácil perceber que se trata de poder. Nós, HBH, obtivemos todas as facilidades possíveis desde que nascemos, na escola, com as meninas, nas entrevistas de emprego, no acesso ao estudo e etc. Usamos o escudo da meritocracia para justificar muitas das distorções de oportunidades da sociedade.

Qual o medo? O de perder nossos privilégios

Vamos pensar um pouco. Porque mulheres ganham menos? Porque em seu ambiente de trabalho negros, gays e lésbicas são minoria? Contratar um deficiente é obrigado por lei, mas muitas das empresas contratam PCD’s para colocarem em um canto sem atividades relevantes e/ou inclusão social. Olha que nem falei sobre transgêneros, pois estes são reprovados logo na entrevista.
É relevante sim abrir esse debate, e Hannah mostrou em seu show que está disposta a contar a sua história para que sirva de lição.

Com histórico de abusos durante sua vida, a comediante, que vai se abrindo a cada set do show, intercala sua história a uma ou outra piada que quebram o gelo, mas nem precisavam estar ali. Hannah também conta um pouco sobre sua formação acadêmica trazendo a tona ainda mais conhecimento cultural, deixando claro que conteúdo e bagagem não faltam para essa grande pessoa.

Bem, eu realmente não sei o que dizer a não ser ASSISTAM. Eu assisti pela primeira vez esse show de uma hora em três horas. Eu parei, bati palma, parei novamente, refleti, pensei em erros, acertos, preconceito estrutural e vida pessoal.

Tenho depressão, tomo remédios, mais do que imagino ser saudável, todos receitados, mas muitos. Escrevo, sofro e ao longo de minha vida fui doutrinado a entender que os gênios sofrem e que para ser um bom autor seria necessário não ser feliz. Aprendi que “meus heróis morriam de overdose” ...Renato Russo, Cazuza, Amy Winehouse, Michael Jackson, Frida Kahlo...Mas, dentre tantas as lições que aprendi, refleti sobre conexão afetiva, sobre aquelas pessoas que acreditam em nós e que se preocupam, que ligam, mandam mensagem e que estão conosco dia a dia perguntando se hoje você está melhor.

É assim que Hannah fecha o show, mostrando o poder de uma conexão. Esse poder que pode ser mais forte do que qualquer vício, doença ou preconceito. Essa que pode salvar vidas.

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