Literatura em Foco – Enterre Seus Mortos – Ana Paula Maia

Por Ana Silvia Soeiro

21 de julho de 2018


É um velho clichê dizer que “nos menores frascos, estão os melhores perfumes”. Mas com o livro de Ana Paula Maia, Enterre Seus Mortos, o clichê cai por terra e entra a realidade nua e muito crua. Á primeira vista o leitor pode pensar tratar-se de uma história absolutamente comum, sobre o cotidiano de um homem em uma terra desolada, isolada e marcada por tudo, menos pelo “perfume” da vida. Engana-se.

Demorei a “destrinchar” a obra de Ana Paula Maia, pequena em número de páginas (133), mas grandiosa em quantidade de metáforas, em detalhes, em cotidiano e em vida. Apesar de abordar o dia a dia de um homem que trabalha justamente com a morte – Edgar Wilson – encontramos no livro um personagem que não se acomoda com seu papel na vida. Edgar Wilson, está sempre a contemplar os detalhes à sua volta, e é através dele que enxergamos muito além de um lugar desolado, tomado pela morte, personagens tomados pela culpa, pela indiferença e de maneira impressionante pela insistência no renascimento.

O herói da trama – Edgar Wilson – é um personagem retraído, acostumado e admirador do silêncio, por isso, espanta e deixa maravilhado o leitor ao externar em seus pensamentos e falas uma eloquência simples e interessante e porque não dizer, muitas vezes inquietante. Acostumado a recolher animais mortos da beira da estrada, a “fazer seu trabalho” e nada mais. Nos intriga quando descobre um corpo apodrecendo na floresta, e ao contrário do que pensávamos, ele não se permite ignorar a tragédia. Contempla a morte e resolve, com a ajuda de Tomás – um padre excomungado – outro personagem interessante, “costurado” maravilhosamente na trama, dar um fim digno aquela figura.

Então entra a burocracia, que persegue das primeiras às últimas páginas os passos dos “justiceiros” Edgar Wilson e Tomás. Um livro que rasga e põe para fora os monstros que devoram o nosso país. Esta é a obra de Ana Paula Maia. De tirar o fôlego.

Em uma metáfora “escarnecedora”, vemos que os animais mortos na estrada têm um fim “digno”, enquanto as pessoas encontradas mortas na trama: um homem e uma mulher, bem como uma criança à beira da morte devem esperar. Esperar por uma ambulância de outra cidade que não vem, por um carro do IML (Instituto Médico Legal) que está quebrado e NÃO virá. Esperar, esperar e esperar. E isso revolta Edgar, pois para ele: “... aquela mulher valia tanto quanto um abutre e tinha o direito de ser recolhida como o resto dos animais mortos”.

Na luta por encontrar um fim para tanta indiferença, burocracia, descaso, corrupção e maldade, Edgar Wilson e Tomás ainda precisam enfrentar vários monstros para poder dar um fim digno às pessoas que estão sob sua guarda. Mas são vencidos pelo cansaço e o máximo que conseguem é encontrar um lugar onde podem “apodrecer em paz”.

Uma obra instigante, inquietante, crua e que com certeza vale a pena ser lida.
Comentário(s)
0 Comentário(s)