Cinema em Foco - Mary Shelley

Por Janaína Guaraná

20 de junho de 2018


O clima sombrio que faz pano fundo no clássico da literatura e do cinema da criatura , deixa o filme da sua criadora no mesmo penumbre do imaginário e nas cores angelicais que a história pinta dos anjos. Ambientado em um cemitério nada sombrio, com cores retumbantes e uma Mary que ainda era Wollstonecraft Godwin, contrasta com a caricatura dos anjos, a criadora começa os versos iniciais que precederia o romance que viria antes de seu nome num futuro que nem ela própria sonhava. 

Daqueles laços mais fortes que a própria existência, quando se busca uma pequena fração do que sentíamos e não existe mais, das memórias dos que se foram e o DNA é tão forte dentro da gente que a noite sombria não acelere as batidas do coração ou coagule o sangue. Mary era filha da feminista e escritora Mary Wollstonecraft, a que perdeu dez dias após seu nascimento e do filósofo William Godwin. Teve uma educação rica e informação e foi encorajada a aderir às teorias liberais do pai. 

Após viver anos enfrentando o ostracismo, as dívidas e a morte da filha prematura, Mary e Percy Shelley com quem desenvolveu um relacionamento mesmo sendo casado, são convidados ao castelo do Lorde Byron em Genebra, acompanhados da irmã adotiva de Mary, Claire Clairmont. É no castelo de Lorde Byron que Mary concebe a ideia do romance Frankstein, em uma noite chuvosa e uma competição de contos de terror. Romance que o qual a marcaria para sempre. No mesmo ano, Mary e Percy se casam, após o suicídio da primeira esposa. 


Após Genebra, o famoso casal viajou pela Itália e em 1822 Shelley deixa Mary viúva, a qual vive seus anos devotada a educação do filho, publicar os trabalhos do marido e ao seu principal romance Frankstein. Suas obras são estudadas até hoje e novos estudos sugerem um viés político radical que desafia particularmente as teorias políticas articuladas por seu pai e marido. 

Num clima cinza, chuvoso, frio e de contos fantasmagóricos a vida de Mary Shelley vai se juntando em versos, da introspecção necessária de um autor, das dores e transgressões, taças de vinhos e noites em claro que compõe um romance, esse é marcado por um sussurro constante do além concebido em nossa imaginação, das crenças e limites que por hora foram extintos. Como quem se despede das imitações e exulta a agonia das chamas e degredo da eternidade. 

A própria luta feminista intricada na história da Mary, seu relacionamento e a batalha para publicar seu manuscrito já vale o filme. Os versos e fala da escritora povoam a mente de quem a escuta, como alguém coloca palavras juntas que vão além dos seus significados, como se existência não fosse suficiente e as flertasse promessas da eternidade para que a tinta não ficasse nas folhas de papéis e se tornaram para sempre, é a escolha da criadora e a profundeza da criatura. Imagine uma tela do século XIX perdendo-se na escuridão profunda enquanto caminha para a perdição eterna, Mary Shelley.

Com Elle Fanning captando a doçura e raiva da escritora. Com Douglas Booth dando o tom transgressor de Shelley. A direção da Haifaa Al Mansour. Roteiro da Emma Jensen. Essa cinebiografia vem contar a história de um do mais importantes nomes da literatura fantástica.

“Está em ebulição em minha alma algo que não consigo entender.” FRANKSTEIN, Mary Shelley 

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