Literatura em Foco – O Exorcista – William Peter Blatty

Por Ana Silvia Soeiro

27 de abril de 2018

Quem tem o hábito de combinar leitura e cinema já está cansado de ouvir um “mantra”: “O livro é melhor que o filme”. Verdade seja dita que geralmente se está certo, ou quando temos sorte de encontrar um Adrian Brody (O Pianista) ou Liam Neeson (A Lista de Schindler) fica difícil escolher entre o livro e o filme. Na dúvida eu não hesito: prefiro os dois. É sem dúvida alguma o caso de O Exorcista, obra do escritor William Peter Blatty. O livro e o filme fazem sucesso há décadas e logo viraram um clássico dos cinemas, literatura e mais recentemente uma série. Vou falar sobre o livro.
Desde o primeiro instante é incrível como Blatty conseguiu transformar uma notícia de um jornal local em uma história cativante, mística e absolutamente aterrorizante. Ainda lembro da primeira vez que vi o filme estrelado por Linda Blair e totalmente avessa aos meus costumes, demorei anos para procurar pelo livro - arrependimento dói sim. É claro que depois de ver e rever o filme, essa busca tão tardia de minha parte se deveu ao fato de achar que o livro pouco teria a acrescentar à minha lista de pesadelos. Tem sim. Aquela cena que você viu e que me fez ter pavor de escadas por um tempo (mais ou menos até o presente instante), não é nem de perto tão aterrorizante quanto a do livro. Sério.
O livro e o filme são bastante fiéis ao iniciar a narrativa pela escavação histórica onde o padre Lankester Merrin encontra um dos inimigos mais antigos da humanidade, pelo menos um de seus servos: ídolos do demônio Pazuzu. Então sabemos, naquele sopro de vento absurdamente deslocado no deserto, que passa para nossa própria espinha que a batalha entre o bem e o mal vai começar. Infelizmente, não será fácil e quem faz a vez de Jó (o humano que foi testado na fé e passou por todo tipo de provação, segundo a Bíblia) na ficção é a estrela de Hollywood Chris MacNeil e sua filha Regan (especialmente esta).

O livro inova ao trazer para o palco de provações espirituais pessoas “descrentes”. Afinal na casa da senhora MacNeil não se discute religião, até que um dia levada pela assistente de Chris - Sharon, que faz as vezes de professora, Regan começa a procurar respostas no campo da religião. Ressalto esse começo, pois depois de várias leituras, creio que aí é que o “problema” de Regan começa. Diferente do filme, que trás um viés absolutamente místico para o mais famoso caso de possessão demoníaca da história do cinema, o livro insere com propriedade e firmeza fatores “mundanos” para analisar o transtorno de Regan: é fácil acreditar em possessão demoníaca, mas é possível ignorar o estresse da separação entre os pais em tão tenra idade? E o poder da sugestão trazido por um livro que Chris ganha de presente? A utilização de uma famigerada tábua Ouija? A personalidade do “Capitão Howdy” que misteriosamente conversa com a menina através da tábua? Teriam eles influenciado na doença de Regan?
Sinceramente, depois de tantas leituras deste e de outros livros sobre o assunto, depois de ver outros filmes, séries, documentários sobre o assunto e de ser declaradamente ateia, confesso que não sei se o que aconteceu com Regan poderia ser explicado por um viés puramente científico. Corro o risco de ser chamada de falsa ateia, entre outros termos que sinceramente não me ofendem. O que importa é ter uma opinião, e se ela não é definitiva, creio que nossa vida só fica mais interessante. Não esquecendo outro personagem importante do livro, prefiro me posicionar junto ao detetive Kinderman: de presente ele ganhou um caso não solucionado, várias mortes misteriosas e a certeza de que um caso tão incomum te leva a procurar a resposta em vários campos. O misticismo e a ciência são apenas alguns, quantos mais ignoramos?
É óbvio que eu recomendo a leitura de O Exorcista. Seja você ateu, judeu, cristão, gnóstico ou indeciso. Acima de tudo, vai te deixar com aquela “pulguinha” atrás da orelha e te fazer buscar mais e mais conhecimento. Isso não é maravilhoso? Somente um clássico te traria esse prazer. Boa Leitura e “Ego te absolvo”. Muahuahuahua.

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