Literatura em Foco: Coraline - Neil Gaiman

Por Ana Silvia Soeiro

20 de abril de 2018



Confesso que foi um pouco difícil escrever sobre “Coraline”, obra do inglês mais maravilhoso da atualidade, Neil Gaiman. Não é nem de longe por conta do texto, obviamente não. Creio que o caso é a natureza extraordinária da obra.

Quando comecei a leitura, achei que se tratava de literatura fantástica, afinal de contas começamos a história de maneira bastante comum: Coraline é uma garotinha solitária com pais, apesar de amorosos, sempre ocupados com o trabalho. Sobra para a pobre garotinha visitar seus vizinhos: duas idosas que moram juntas e um idoso que treina ratos para uma apresentação artística. Como sempre Gaiman nos ganha na maravilha que é a narrativa pelos olhos de Coraline. Por todo o texto voltamos a ser crianças e enxergamos de maneira clara, como o mundo funciona sob a ótica delas.

Depois de visitar e conversar com seus vizinhos, Coraline como toda criança fica entediada e parte para uma exploração em seu mundo novo: o apartamento de seus pais e fica curiosa ao se deparar com uma porta tapada por uma parede de tijolos. No outro dia, como toda boa exploradora, Coraline consegue a chave e dá de cara com um mundo diferente. O mundo é uma réplica de sua casa, com os mesmos vizinhos, os pais, os animais, mas com tudo do avesso. É aqui que entendemos que não estamos em um livro de fantasia, e sim de terror.

Neil Gaiman resolveu que Coraline não deveria enfrentar fantasmas horríveis, monstros sem cabeça ou zumbis toscos. O inimigo de Coraline é um medo mais palatável e antigo, que eu deixo ao seu critério descobrir e nominar. Para vencer um ser antigo e poderoso, Coraline torna-se um Ulisses que precisa lutar contra possibilidades e impossibilidades e assim voltar ao seu mundo normal e cheio de pessoas que passam a vida sem perceber o quanto perdem ao ignorar a fantasia. Parece comum? Com Neil Gaiman jamais!

A heroína Coraline nos faz querer voltar a observar o mundo de maneira mais simples, mas jamais simplista. “Coraline” é, com suas poucas páginas, um dos livros mais maravilhosos que já li, pois ao lado de “O mundo de Sophia”, abriu meus olhos para questões mais amplas: realidade, fantasia, cotidiano, horror e mistério. E você? Quem é sua heroína da atualidade?
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