Literatura em Foco - O Filho de Mil Homens

Por Janaína Guaraná

9 de março de 2018

Foto: @carol_cruz

Valter Hugo Mãe é um escritor português com mais destaque da atualidade, que nasceu numa cidade angolana outrora chamada Henrique de Carvalho. O Filho de Mil Homens, publicado em 2011, a minha edição (que ganhei de presente) foi publicada pela Biblioteca Azul, compõe com sensibilidade e coragem imensa um retrato poético, embora nada ingênuo, do mundo moderno. 

 “Ser o que se pode é a felicidade. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser.” 

O pescador Crisóstomo deseja se tornar pai. Aos quarenta anos e solteiro, o homem, tomado pela vontade de compartilhar seus dias com alguém, sai à procura de um filho pelo povoado. Tempos depois e casualmente, encontra Camilo, um jovem de quatorze anos que necessita desesperadamente de auxílio, proteção e orientação. Feliz, o pescador o adota. A partir daí outros personagens surgem na trama tecida por Valter Hugo Mãe, cada um com sua história, e convergem para o palco principal, cálido e iluminado: a grande, e nada convencional, família de Crisóstomo. 

"Que ridícula soava a ideia de uma triste anã querer amar se o amor era um sentimento raro já para as pessoas normais. Para as pessoas. ” 

Uma anã estuprada rotineiramente pelos homens de um vilarejo, uma mulher que entrega a virgindade antes do casamento e é rechaçada pela família, um homossexual rejeitado e apontado como aberração e uma velha que acorda e percebe que fala com sotaque estrangeiro são apenas alguns dos personagens desse ensaio. Cada um deles carrega uma dolorosa e significativa trajetória, uma história ao mesmo tempo pessoal e coletiva; uma história composta de escolhas e passos aparentemente individuais, e na qual convencionalismos e preconceitos de uma comunidade interferem ora com crueldade, ora com compaixão.  

Uma crítica social em detrimento das minorias, que usa da mágica em combinar palavras. Dos devaneios e sonhos alheios, diferenças e recompensas de ser quem somos. Das coisas que entregamos e das que deixamos partir. De como viemos e como iremos. Das verdades que nos fazem ser quem somos, e do respeito que paira a matéria.

"Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós."
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