Literatura em Foco - O Tribunal da Quinta-feira

Por Janaína Guaraná

18 de janeiro de 2018

imagem disponível em: http://livrariazaccara.com/clube-de-leitura-o-tribunal-da-quinta-feira/

“ Nos próximos dias, escreverei para a secretaria e o auxiliar administrativo. Responderei a todas as pessoas que fizeram comentários ou enviaram mensagens. Entrarei em vinte, duzentos posts sobre o assunto, e darei um like irônico como resposta a quem é incapaz de entender ironia. Não adiantará coisa alguma, tudo continuará onde sempre esteve no debate público dos últimos tempos, a gloria do próprio ego numa batalha inútil que ninguém é capaz de interromper, mas ao menos uma vez eles ouvirão algo distinto da própria voz de criança, as certezas de quem nunca saiu do bairro mental. ”

Publicado pela Companhia das Letras, em 2016, O TRIBUNAL DA QUINTA-FEIRA, escrito por Michel Laub, é um conto moderno sobre os julgamentos, exposições e circos midiáticos que só nossa geração sabe fazer, a internet elevou a vingança em vários níveis. 

Um publicitário em condição financeira e emocional estável, troca mensagens com seu amigo, sobre os mais diversos temas; sexo, amor, casamento, traição, peculiaridades diárias, usando de uma linguagem inapropriada para a exposição do mundo do espetáculo, e fazendo piadas que levam a entender uma longa e densa crise existencial. 

Quando enfim reúne força e coragem para terminar o próprio casamento, o protagonista, ao levar suas coisas, deixa algumas outras na casa da então ex-mulher, que faz o que se faz na atualidade, expõe o criminoso para ser julgado, no nada hipócrita e sensacionalista tribunal das redes sociais. Divulgando trechos minuciosamente recortado das conversas nada convencionais feita entre o protagonista e seu amigo. 

Esse tribunal moderno e altamente crítico (com a vida alheia), é ambientado nos reflexos de uma geração que cresceu com a epidemia da aids, servindo como condutor simbólicos das consequências culturais e morais, que ainda hoje são incômodas. Discutindo as consequências implícitas de divulgar partes da vida de alguém na internet, partes porque ninguém é só aquilo ou tudo aquilo, são trechos de contextos que não temo acesso. Na comodidade de estar entre amigos, dizemos coisas que soam mal, mas são esses mesmos amigos que entendem cada palavra que se curva à uma causa, cada piada que esconde uma dor, cada metáfora que alude ao que temos medo. 

“Todo fascista julga estar fazendo o bem. Todo linchador age em nome de princípios nobres. Toda vingança pessoal pode ser elevada a causa política, e quem está do outro lado deixa de ser um indivíduo que erra com qualquer indivíduo. ”

 A vingança de expor alguém é a reação á algum erro cometido que causou dores, desconfortos, mas, onde chegaremos se a todos que nos ferem, nos colocamos no patamar de juiz, esquecemos nossos erros e apontamos os erros dos julgados? Lógico que sofremos ao sermos atacados, mas para nos sentir bem temos que atacar alguém também? 

O tribunal da quinta-feira, somos todos nós que sentamos atrás das nossas telas de celulares, notebooks e afins, e nos sentimos os próprios juízes da vez, aqueles incapazes de sentir empatia e de entender que todos temos vozes, vidas e que esse recorte minúsculo que vemos através das telas, não é um terço da vida de alguém.
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