Literatura em Foco - Flores de alvenaria

Por Alvaro Luiz Matos

13 de janeiro de 2018

A poesia contemporânea não se resumiu a perfis no instagram que postam frases batidas e genéricas, por vezes até bonitinhas, mas pouco criativas. Existem grandes poetas vivos, despontando, fazendo bonito e lançando livros ótimos.

A poesia é por natureza existencial e não existe nada mais real e palpável do que os problemas da periferia. Aquela visão da vida de quem acompanha pelos becos de sua cidade as dificuldades, tirando armas das mãos da sociedade e distribuindo livros, afinal “Quem lê xaveca melhor” assim como “quem lê não aceita qualquer xaveco”, não é Sérgio Vaz?

Criador da cooperifa, um evento espetacular que une a comunidade em volta da cultura, de poesias e reflexão, Sérgio Vaz é inquieto, transformador e “agitador”. Seu trabalho ganhou notoriedade política e social, suas posições ideológicas são fortes, e a sua visão de revolução pela cultura é louvável.

Conheci o autor em um show do Teatro Mágico, onde Fernando Anitelli leu a poesia “Magia Negra”, um manifesto interessantíssimo que valoriza grandes nomes e reprime o preconceito. Nesse show, já cheio de poesia em forma de música, pude me interessar por alguém que não conhecia e ir atrás de um autor que hoje eu chamo de “maior poeta contemporâneo do país”, afinal Sérgio Vaz apresenta um trabalho de múltiplas relevâncias.

Tanto Vaz quanto Anitelli possuem posições “socialistas” fortes, e acreditam na já citada, revolução pela cultura. Bem eu particularmente sempre achei que o socialismo fosse o “ópio dos intelectuais” como apresentou o francês Raymond Aron, mas hoje vejo outra luz nesse prisma.

Só observem...

“As pessoas querem a democracia do prazer sem a ditadura do suor. Quem não vai a luta não goza, masturba as sombras”.

“Enfie o dedo na cara do seu dia e diz: Hoje vou ser feliz, quer você queira ou não”.

“Dizem que quando a gente morre, vai todo mundo para o mesmo lugar. Devia ser quando nasce”.

“Quem não fizer por merecer vai ter que se contentar com o que é oferecido. E o que é oferecido, ninguém merece”.

“Amor ao próximo é a única religião que deveria aceitar fanáticos”

“Deus que me perdoe, mas não quero ir para o céu. Porque todas as pessoas que transformam essa vida num inferno dizem que também vão para lá”.

É nessa forma passivo agressiva, às vezes agressiva mesmo, direta, sem rodeios que esse “vira-lata” da poesia contemporânea expressa realidades em suas linhas e em seus poemas. Se você não conhecia, agora já sabe que ignorou durante anos da sua vida uma poesia verdadeira, que levou o existencial para outro patamar, que tirou das ruas os seus poemas.

Flores de Alvenaria, lançado em 2016, é a obra mais recente do poeta. Talvez uma forma de conhecer e se apaixonar por Sérgio Vaz.

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