Netflix and Chill - "Eu, Eu Murilo"

Por Alvaro Luiz Matos

2 de julho de 2017

Início de mês, tudo o que a Netflix quer é munir seu catálogo com o maior número possível de atrações, o que é difícil para nós aficionados por séries, filmes e afins. Acontece que deveria haver um feriadão uma vez por mês chamado de “estreias Netflix”, um direito humanitário de ficarmos em casa para conferir, se não todos, muitos dos lançamentos.

Não garanto muito, mas pode ser que nessa semana a coluna venha a ser dupla, com mais de uma postagem para poder comentar as atrações que me chamaram a atenção. Primeiro o bom Stand Up de Murilo Couto, depois a série Gypsy e por fim o filme Okja. 

Dessas três interessantes estreias, a nossa amiga Rozany já vem fazendo as reviews da série Gypsy, portanto deixaremos com ela a visão crítica e episódica desse lançamento; sobrando então para mim o enfoque nas outras duas atrações. Hoje, por questão de tempo, irei falar do Stand Up do Murilo, mas volto aqui o quanto antes para comentar Okja. Combinado?

Posso abrir um parêntese? Se você tem lido a coluna com frequência vai virar e dizer que nunca viu tanta introdução e tão pouca argumentação sobre a atração em si. Só quero deixar bem claro que não venho aqui apenas falar do show, venho falar da motivação ou da desmotivação atrelada ao “play”. Não sei sua mente, mas a minha antes de escolher algo para assistir, pondera mais do que deveria, por exemplo, nesse momento estou cansado e tive de decidir entre assistir Okja ou esse Stand up. Adivinha só, se eu estivesse pronto para fazer uma análise mais profunda sobre ideologias haveria optado pelo filme, mas a minha motivação era apenas de relaxar a cabeça.

Enfim, Murilo Couto não é só um comediante vindo de Belém para o sudeste do país, ele também tem visões críticas sobre política e é ideologicamente formado. Não, eu não divido das visões do também ator Murilo Couto, na verdade divirjo bastante, no entanto, admiro profissionais que se posicionam e se interessam por esse cenário (bastante caótico) da política brasileira. Sua carreira na televisão é bastante curta, mas marcada por atrações significativas, primeiro fez malhação com Fiuk (protagonista da temporada em questão), depois integrou a “bancada” de comediantes do Agora É Tarde, programa idealizado por Danilo Gentili nos moldes de um Talk Show (formato já bem reconhecido no mundo), e por fim juntamente a todo o elenco do programa, se mudou para o SBT dando vida ao The Noite.

Nada mais normal que, em seu DVD, ele comece o Show se apresentando e dizendo de onde vêm, aqui críticas moderadas sobre a visão do sudeste brasileiro que imagina que norte e nordeste são a mesma coisa e geograficamente próximo. É interessante dizer que nunca fui muito fã do estilo de comédia do Murilo (de novo? Você já disse isso sobre o Marco Luque, não foi?), mas que recentemente tenho achado interessante a evolução que ele tem apresentado na comédia, com textos mais maduros e mais bem formulados (já é um dos grandes no país).
Sabe aquelas piadas preconceituosas que se você tivesse ouvido sair da boca do Rafinha Bastos já estaria chamando-o de babaca? Pois bem, “eu, eu Murilo” é cheio disso, mas de um jeito fofo, de alguém que parece dizer aquilo tudo, mas que deixa a clara impressão de que não compartilha daquilo. Durante o espetáculo ele se vira para a plateia e amarra sua piada com um “A pessoa ri com culpa, né?”, dividindo a responsabilidade com o público e indicando que não tem porque não rir.

Se eu aprendi uma coisa sobre comédia, e se lermos todas as obras clássicas entenderemos que se trata de um artifício para se rir da vida, dos problemas da vida, das desigualdades por ela imposta, rir é uma forma de alertar para o imponderável. Em resumo, não rimos das situações das quais alguns vivem, rimos do quanto é triste que alguns passem por aquilo e outros não. Você pode não concordar, mas muito da visão filosófica sobre a comédia transcende séculos com base nesse pensamento.

Deficiência, xenofobia, religião e outros são assuntos proibidos, mas que se você abrir seu coração vai entender o real motivo daquelas piadas. Por exemplo, a proliferação dos milagres na rede Record de televisão, a necessidade de ir bem vestido a uma igreja ou a um templo como se Deus se importasse com a vestimenta. 

Mas não pense que é só disso que se trata, tem muita piada familiar (não que as anteriores não sejam), mas é um show leve e você possivelmente não perceberá o número de criticas sociais feitas, talvez não se incomode com nenhum desses temas “sensíveis”.

Só para finalizar a melhor parte do texto se dá quando falamos de ciúmes. Geralmente é comigo, eu adoro quando escuto textos falando de ciúmes, mas o Murilo Couto consegue fazer algo diferente, dá um tom dele, meio desleixado, meio irônico, sem ser ofensivo. Dali para frente o show só melhorou, ainda mais quando o “mestre” Danilo GentilI sobe no palco, junto às participações de Marcos Mion e Roger.

Um bom show, dos melhores de comédia que a Netflix colocou em seu catálogo nos últimos tempos, e que você não pode perder a oportunidade de ver.
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