Literatura em Foco: Cem Anos de Solidão

Por Ellen Joyce Delgado

23 de junho de 2017

Mais um livro que entra na lista “Obras para ler antes de morrer”. Estou falando de um clássico da literatura: Cem Anos de Solidão, do escritor colombiano Gabriel García Márquez

Esse é mais um livro marco da cultura latina. Foi ganhador do Prêmio Nobel da Literatura em 1982. O escritor, também conhecido por seus conterrâneos como Gabo, deixou sua marca perpétua no século XX. Suas obras literárias sempre foram muito bem recebidas e marcadas com diversas outras premiações literárias. 

Cem Anos de Solidão, inicialmente, traz uma linguística alinhada. Uma escrita cheia de poesia. A narração do autor deixou os amantes da arte exultantes. O vocabulário do livro é muito rico e expressivo. Os relatos e passagens do tempo foram sempre diretos e perspicazes. 

O livro relata uma história de cem anos. Tudo se inicia em um povoado chamado Macondo. Lá foi o lugar onde José Arcádio Buendía e sua mulher – também primaÚrsula resolveram fundar sua nova comunidade. O enredo inicial já traz a complexidade da união de duas pessoas da mesma família. Ainda assim, os dois priorizaram os sentimentos e juntos tiveram três filhos (José Arcádio, Aureliano Buendía e Amaranta) e adotaram uma garota (Rebeca). 

José Arcádio Buendía era um homem sonhador, criativo e um pouco maluco. Passava horas dentro de um quarto tentando criar coisas que ninguém jamais tivesse pensado. Úrsula era uma mulher forte, talvez toda a base da família. Tentavam, sempre juntos, criar um elo estável em todo o povoado. Buscavam ser o exemplo para todos os moradores. Mas muitas coisas inolvidáveis aconteceram. 
No livro, tive aqueles momentos irracionais, onde já não podia distinguir realidade e fantasia. Vivi tempos de guerras, noites de delírios, epidemia de insônia

O ato mais difícil no livro era a memorização. Tive uma imensa dificuldade ao reconhecer cada "novo" personagem, afinal, todos os membros que surgiam eram batizados com o mesmo nome do seu antecessor. Aureliano, por exemplo, teve 17 “Aurelianos”. Eu me diverti demais com isso, mas realmente precisava estar sempre atenta. 

Acho que a repetição do livro já era algo premeditado. Eu, vendo todos aqueles nomes sucessivos, sentia que o tempo era circular. Os nomes se repetiam, os destinos se repetiam e os amores se repetiam. Por outro lado, o livro traz uma precisão certeira nas individualidades de cada mulher. Temos nomes marcantes como Úrsula, Pilar, Rebeca, Amaranta, entre outras. Elas eram únicas e com uma forte personalidade. O autor as definia como históricas, cheias de força, o manto de toda uma civilização

A obra traz a verdade crua da América Latina. Esse cronograma nos dá a certeza de que a família Buendía continua existindo. E assim como eu, você e todo o mundo, essa família sofre, luta e vive. 
No discurso do Prêmio Nobel da Literatura de 1982, Gabriel García fez um apelo ao mundo pelo povo latino. O mesmo é titulado como “La Soledad de América Latina”. Partes do seu discurso relatavam o esquecimento do mundo diante da América Latina, e todo um passado grotesco e explorador que alguns outros povos insistem em elevar:

"[...] Apesar disso, à opressão, ao saque e abandono, respondemos com vida. Nem enchentes nem pragas, nem fome nem cataclismos, nem mesmo as eternas guerras, séculos após séculos, foram capazes de subjugar a persistente vantagem que a vida tem sobre a morte. Uma vantagem que cresce e acelera: todo ano, há 74 milhões de nascimentos a mais do que mortes, número o suficiente de novas vidas para multiplicar, a cada ano, a população de Nova York sete vezes. Eu me recuso a aceitar o fim da humanidade. Cara a cara com esta realidade horrenda que pode ter parecido uma mera utopia em toda a existência humana, nós, os inventores das fábulas, que acreditamos em qualquer coisa, nos sentimos inclinados a acreditar que ainda não é tarde demais para nos engajarmos na criação da utopia oposta. Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra."
Gabriel García Márquez, 1982.

E mesmo tantos anos depois, eu ainda posso sentir seu pedido de socorro. Obrigada, Gabo, por compartilhar sua singularidade à um mundo tão inexperiente.
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