Mulheres: Vanessa Ives, e tridimensionalidade (ou pluri) da mulher

Por Roberta Brum

21 de fevereiro de 2017

Penny Dreadful é uma série que conjuga no mesmo universo personagens icônicos da literatura fantástica como Drácula, Frankenstein, Dorian Gray, Mr. Hyde juntamente a criaturas como lobisomens, bruxas e vampiros, e também elementos do cristianismo e da mitologia egípcia. Aparentemente uma salada aleatória e desconexa, não? Até pode ser uma salada, porém é uma diversa, muito bem montada e apresentada. Penny Dreadful, mantendo as características essenciais de cada um, é um belo mosaico de universos belamente costurados. Articulando fantasia, horror e drama, é uma narrativa incomum, inteligente, intelectual, inquietante e provocante. E no centro desta narrativa encontra-se uma personagem ainda mais intrigante: Vanessa Ives.

Vanessa Ives é interpretada por ninguém menos que Eva Green, uma artista discreta e reservada, cuja escolha de papéis gritam por ela, especialmente em filmes alternativos e distantes da mídia mainstream e revelam uma atriz ousada, visceral e camaleão (ou camaleoa). Talvez ela seja conhecida pelo grande público pela Artemisia em 300: Ascensão do Império ou Ava em Sin City, mas eu indicaria produções talvez não tão divulgadas, como Os Sonhadores e Sedução.

A primeira impressão que se tem de Vanessa Ives é de uma mulher indiferente, até insensível, estoica e distante, características complementadas por um visual austero, que a priori reflete a personalidade de Ives. Ives veste-se com cores escuras, principalmente o preto, em modelos de vestidos fechados, sem decote nenhum, que transmitem certa rigidez e soturnez, extremamente requintados e detalhados, além de alinhados. Eu que não curto moda olho para ela e minha única reação é “uau”. Literalmente não há um fio de cabelo fora do lugar. É simplesmente esteticamente e visualmente irrepreensível. Tudo isto complementado por uma postura sóbria que revela uma mulher segura de si, forte, que sabe o que faz.
Entretanto, conforme fragmentos do seu passado são revelados, esta imagem é desconstruída e ressignificada. Ives é soturna e misteriosa, e existem porquês para isso. Atitudes não apenas ambíguas, como questionáveis. E não foram poucas. Atitudes pelas quais ela sofre até então. Tudo isto é intensificado pela sua moral e ética cristã, constantemente conflitante com seus atos, que muitas vezes contradizem e são opostos não somente aos preceitos católicos que ela tanto valoriza, mas também a tensão da sua vida. Ives é consumida pela culpa e por batalhas internas que muitas vezes se exteriorizam em crises angustiantes e extenuantes que são inclusive pesadas e difíceis de assistir, posto que a atuação de Green é fenomenal, digno de todos Emmys, Globos de Ouro e até Grammy e Tonys, e cujo talento auxilia a tornar Vanessa Ives a melhor personagem da série.

Neste sentido, talvez esta introspecção e frieza sejam não uma fachada, mas sim uma camada da sua personalidade, podendo ser vista inclusive como defesa. E a preferência por preto talvez simbolize seu sofrimento, todo seu fardo emocional e psíquico, ou ainda uma punição a si mesmo pelos próprios atos, tirando, com o perdão da metáfora, “a cor da sua vida”. Acredito, porém, que acima de tudo, além de ser consonante com a Londres perigosa e lúgubre da época, mas uma mente sombria, nebulosa, perturbada e traumatizada. E isso coaduna com a narrativa da série: Penny Dreadful tem como pano de fundo (às vezes sutil e implícito, às vezes duro e explicito) um inteligente discurso sobre a complexidade da moralidade.

Vanessa distancia-se de características historicamente associadas a uma noção de feminilidade em molde patriarcal (ou ao feminino) como fragilidade, submissão e docilidade. Além disso, é importante pontuar que Penny Dreadful passa-se na Inglaterra Vitoriana, um período caracterizado pelo puritanismo. Às mulheres, à época, cabiam papéis definidos e restritos. Primeiramente, ela era tutelada por um membro do sexo masculino, em primeira instância pelo pai e posteriormente, pelo marido. Assim, sua identidade estava intrinsecamente vinculada ao homem. Seu papel também refletia este domínio patriarcal: em um perfil nitidamente traçado, a mulher vitoriana deveria ser pura, delicada, passiva, submissa e bela (basicamente uma versão inglesa do “bela, recatada e do lar”). Os espaços sociais da mulher resumiam-se à vida doméstica, compromissos sociais como organização e participação em bailes e visitas à igreja. Universos científicos e do trabalho estavam fora de cogitação.
Vanessa obviamente não segue nenhum destes códigos culturais, ou desta “normatização”. Primeiro, ela não é tutelada por homem nenhum, seja pai, irmão ou marido. Neste sentido, ela também não anda acompanhada, sempre indo sozinha nos lugares, que vão desde teatros, bibliotecas e museus (espaços cuja presença feminina desacompanhada não era exatamente bem-vinda, but Vanessa doesn't give a shit) até igrejas. Lembremos que a Era Vitoriana foi a época de Jack Estripador, então Londres não era exatamente um local delicioso de se passear. Por mais que seja vinculada a homens (há a presença de mais homens do que mulheres em sua vida), ela nem de longe se define por eles. Ela recorre sim a eles, mas eles também recorrem a ela. São relações complexas, mas também altruístas e recíprocas. Longe dos preceitos em voga da época de fidelidade e menos ainda de castidade, Ives é um ser sexual, consciente da sua sexualidade (que em momento algum na série é objetificada ou posto enquanto “arma”), que busca o prazer. Além disso, ela é o vínculo de tudo. Utilizando a terminologia das redes, Vanessa Ives faz jus ao seu título de protagonista, sendo o hub da série.

Retomando a questão da representatividade, o termo “mulher forte”, ao ser usado no contexto da cultura do entretenimento, geralmente remete/associa à imagem de uma mulher assumindo papéis construídos e instituídos culturalmente como masculinos, como o arquétipo do guerreiro, no caso, da mulher guerreira. Desta forma, Vanessa Ives distancia-se do arquétipo representado por Lagertha, por exemplo. Novamente, não melhor nem pior, apenas diferente. Outra faceta de força. Outro modelo. Há uma pluralidade de modelos. Neste sentido, Ives não possui habilidade com armas, sejam espadas ou revolveres. Sua habilidade, ou sua força residem na sua inteligência, na sua intelectualidade. Ela possui um conhecimento único em herbalismo, zoologia, mitologias, religiões (especialmente a cristã) e principalmente misticismo. E é reconhecida por isso. Sua voz é tida como autoridade e seguida enquanto tal.

Por um lado, é esta intelectualidade que a permite explorar e experienciar seu lado sexual, de se libertar de certas amarras, de buscar prazeres mundanos em suas mais diferentes formas, desde a leitura de um livro até fumar maconha ou o sexo em si, de certa forma “livremente”, mesmo com todos os conflitos com sua moral cristã. São em outros aspectos que isto a atormenta e perturba. A intelectualidade lhe possibilita um ponto de equilíbrio, oferece uma racionalidade em meio à irracionalidade dos seus tormentos e crenças.
As contradições e tormentos em nenhum momento retiram sua força. Com eles, Vanessa continua sendo uma mulher segura de si, forte e claramente independente e autônoma. É uma personagem híbrida, com uma personalidade conflituosa e paradoxal. E sem dúvida nenhuma, ela claramente é complexa. Não é boa nem má. Não está certa ou errada. Não é preto nem branco. Vanessa Ives é, acima de tudo, imperfeita. É falha. É humana. Longe de qualquer imagem idealizada e clichê da mulher perfeita, o que faz com que eu seja apaixonada por ela.
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