Mulheres: Lagertha, o fenômeno viking

Por Roberta Brum

9 de fevereiro de 2017

Esta semana ganhei um livro chamado “Star Wars e a Filosofia” e entre as discussões presentes no livro, um dos capítulos tratava sobre os papéis femininos em Star Wars, especialmente Padmé e Leia, a partir de uma perspectiva feminista. De forma geral, o ensaio discorria sobre os diversos papéis assumidos pelas personagens – mãe, líder, guerreira - e questionava o que significa ser uma mulher forte. 

Parto desta premissa ou desta problemática – o significado de mulher forte – para pensar personagens construídas no âmbito da cultura do entretenimento, em especial por séries de televisão. Neste primeiro texto, escrevo sobre Lagertha, personagem principal em Vikings. 

A questão de gênero reside na naturalização de predefinições e comportamentos esperados a partir de aspectos biológicos. Acima de tudo são construções socioculturais. Chimamanda Ngozi Adichie em “Sejamos todos Feministas” é pontual ao afirmar que o problema da "questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos". Neste sentido, Lagertha é uma personagem singular. 

A construção de Lagertha enquanto personagem perpassa aspectos importantes enquanto representação feminina singular. O primeiro deles é ter uma identidade separada de suas relações com membros do sexo masculino. Ela não se resume a sua relação com Ragnar, ao papel de esposa. Mesmo tendo como característica inicial a conexão com um homem, sendo descrita primeiramente como esposa de Ragnar Lothbrok (a títulos de comparação, partindo do mesmo princípio, porém aplicando o inverso, Ragnar não é descrito como marido de Lagertha). Ela rompe com esta simplificação e limitação de papéis, não se restringindo a um caráter unidimensional, mas sim tridimensional.
O segundo aspecto relevante na identidade de Lagertha enquanto indivíduo é seu papel enquanto shieldmaiden, ou em uma tradução (que está mais para adequação), guerreira. A faceta guerreira é fundamental e é nela que se baseia grande parte do poder de Lagertha. Partindo de uma abordagem histórica, existem basicamente duas perspectivas que tratam das mulheres guerreiras na cultura viking: uma que coloca as mulheres enquanto protagonistas e outra enquanto personagens secundários. A primeira (baseada em vestígios arqueológicos de mulheres que foram enterradas com armas e armadura) efetivamente guerreiras, parte das batalhas. A segunda, ocupando uma posição mais de bastidores, mas não menos fundamental, no qual fornecem/fabricam escudos, armas e alimento para os homens em batalha. A religião nórdica possui uma sala para seus guerreiros, o Einherjar (conhecidos também como "Guerreiros de Odin"), que são guerreiros mortos recolhidos pelas Valquírias e levados ao palácio de Valhala, onde serão banqueteados até o dia do Ragnarok, todos homens. Durante o Ragnarok, a batalha dos deuses, as deusas não se envolveram na batalha, apenas deuses como Thor, Vali e Heimdall. Lagertha simboliza o primeiro aspecto, assumindo centralidade enquanto guerreira em batalha. Ela é vista como igual, sendo elogiada por suas habilidades em batalha e respeitada enquanto guerreira.

No decorrer da narrativa, houveram acontecimentos cruciais que demonstram não apenas sua distinção, como também sua força e empoderamento. Dentre eles, ao assumir uma postura protetora ao defender seus filhos junto a Athelstan ("if any harm befalls my children, I will tear the lungs out of your body, priest"), a sororidade (mesmo sendo o uso deste termo anacrônico, posto que o conceito não era vigente à época), ou então, senso de irmandade e companheirismo junto a outras mulheres, em especial em momentos no qual não apenas evita estupros em incursões, como mata os estupradores. Outro momento importante é quando Aslaug surge grávida e Lagertha, sentindo-se insultada e humilhada, afinal foi traída, se divorcia de Ragnar, abandonando Kattegat. Dando seguimento a isto, ela casa-se com Sigvard, um homem violento e abusivo, ela dá um basta na situação matando-o na frente de povo de Hedeby, durante um banquete e tornando a nova Earl. Também importante salientar que ela foi a única liderança feminina nas incursões em Wessex. Por fim, destaca-se sua relação com Kalf, seu conselheiro, afirmando que iria matá-lo depois daquele traí-la e efetivamente assassinando-o. No dia do casamento dos dois. E o mais interessante é o fato de ela ter explícita e transparente quanto a suas intenções: ela aceitaria se casar com ele, porém um dia ela iria se vingar pela traição. E o fez. Muito raramente ela é retratada como subordinada ou subserviente a qualquer homem. Ela é igual a todos. Lagertha é forte, independente e desde sempre demonstrou não estar submissa a homem nenhum. Ninguém diz a Lagertha o que fazer. Nem os próprios deuses. Ela age conforme julga ser o melhor para ela e para aqueles que a rodeia.

Lagertha também tem uma postura em relação a sexo que pode ser considerada liberal. Ela tem um entendimento diferenciado de monogamia, mas acima disso, ela é um indivíduo sexual, de modo algum nega sua sexualidade e assume isso sem máscaras: ela gosta de sexo e ela escolherá o parceiro (ou parceira), onde e como será. Lagertha exerce comando e poder sobre seu corpo. O corpo é dela. E apenas dela.
Mais do que ações pontuais, é o que representam. Mesmo que os papéis de gênero tenham esboços de fronteiras, Lagertha não se define por isso, não se reduzindo a lugares-comuns do patriarcado. Ela rompe com qualquer comportamento esperado. Com Lagertha há uma ruptura. Lagertha é idiossincrática pela sua pluralidade. Ela simultaneamente atende as “expectativas de gênero” como extrapola: ao longo das temporadas, Lagertha distancia-se de dois papéis basilares no estereótipo feminino: mãe e esposa. Sim, ela é mãe e esposa, mas estas facetas, uma vez centrais e primordiais, hoje cedem lugar a faceta de líder, afinal Lagertha é uma Earl com sua própria cidade e exército. Algo único. É possível afirmar que ela assume características e papéis culturalmente construídos e designados ao sexo masculino, mas não é nesta "apropriação" ou inversão de papéis que reside sua força. Longe disso. A força dela reside no fato de ela ser "livre", no sentido de se desprender das amarras do machismo, sendo o que quer ser e o que é, independente de padrões impostos como naturais. 

Considerando os elementos anteriores, é possível confirmar a multiplicidade de facetas de Lagertha. As personagens femininas em Vikings são construídas com inúmeras facetas, verdadeiros amalgamas, agregando especificidades distintas uma da outra. Mesmo assim não abrangendo tudo. A totalidade é ilusória e inverossímil. Aslaug, por exemplo, abrange mais a questão da maternidade. São perspectivas e escolhas distinta, fortes em suas particularidades. E esta distinção não pressupõe hierarquias valores, em termos de melhor ou pior, certo ou errado, bom ou mau. Apenas diferentes. 

Betty Friedman, no livro A Mística Feminina afirma que “você pode ter tudo, só que não ao mesmo tempo”. Neste sentido, em Vikings há uma pluralidade de vozes, com especificidades e particularidades próprias de modo que o feminismo se ramifica em distintas vertentes. Por isso não é possível ter todas as pautas em uma única mulher, inclusive porque uma mulher com todas as características, seria irreal, inverossímil e não representativa, longe de qualquer concretude, não sendo atingível por apenas uma pessoa ao mesmo tempo. Como bem fala Cole Bowman no seu capítulo, Padmé grávida e Leia escrava: os papéis femininos em Star Wars, no livro mencionado no início do texto, “nenhuma mulher sozinha pode representar tudo o que significa ser mulher”. 

Apenas finalizando, de modo geral, Vikings padece do mesmo problema de outras produções, como a própria Star Wars, mencionada no início do ensaio. Este problema é resultado de um machismo sistêmico e também mecanismo de reprodução deste mesmo machismo: Vikings e SW são produtos com um número limitado de mulheres. Além de Lagertha, existem outras personagens significativas: Aslaug, Siggy, Helga, Torvi, Gisla e Astrid. Temos seis nomes. Ao tratarmos de personagens do sexo masculino a lista é significativamente mais extensa: Ragnar, Bjorn, Rollo, Ecbert, Ubbe, Aethewulf, Rollo, Floki, Hvitserk, Ivar, Sigurd. 

A semelhança de todas estas personagens é a convergência em um ponto básico: elas rompem, criam rupturas. Em níveis e intensidades distintas, afinal, há uma pluralidade de facetas. Não se limitam ao que culturalmente foi construído como papel social da mulher à época.
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