Feminismo Em Série: Pequenos termos, grandes preocupações.

Por Marcela Virães

7 de fevereiro de 2017

Depois de uma longa pausa, tamo de volta. Pensei e pensei sobre o que trazer dessa vez e, pra combinar com o timing de ano novo e primeiro texto de 2017, decidi falar sobre o novo lançamento da Netflix e a primeira série que maratonei em 2017. Talvez nem todos tenham visto ainda One Day At A Time, então se não viram a dica é: corram pra ver. 

A série é uma sitcom que conta a história de uma família cubana. Com um caráter educativo, tem como foco a dinâmica familiar entre Penélope, sua mãe, Lydia, e seus dois filhos, Elena e Alex. Em cada episódio são tratadas problemáticas como feminismo, homofobia, xenofobia, PTSD, alcoolismo e drogas, em plots diversos. O que mais me chama atenção na séria é a maneira como são abordadas essas temáticas. Nunca de maneira agressiva, sempre leve e com um humor que nunca passa dos limites e vem sempre na hora certa, a série faz uso de situações cotidianas para realizar problematizações a cerca da nossa sociedade. 

Como o nosso foco é feminismo, vamos a ele. Como já mencionei, a série trata de vários temas polêmicos, sendo um desses o próprio feminismo, machismo e problemáticas relacionadas à padrões de gênero. Tendo 3 gerações diferentes de mulheres, temos três visões distintas do assunto, o que torna as coisas ainda mais interessantes. Bom, um episódio que me chamou atenção, que tem como temática principal o machismo e mostra um pouco a educabilidade da série é o segundo, intitulado “Machistas, maquiagens e afins”.
Nesse episódio é mostrado como o sexismo pode se manifestar em relações de trabalho entre homens e mulheres a partir do retrato que é feito sobre os problemas que a Penélope enfrenta em seu ambiente de trabalho. Com esse plot, é introduzido um termo que pode não ser muito conhecido: mansplaining. E o que seria isso? Bom, mansplaining ocorre quando um homem insiste em querer ensinar a uma mulher algo que ela já sabe e demonstra claramente saber, mas ele insiste porque, para ele, uma mulher necessariamente não teria a capacidade intelectual para compreender um determinado assunto, e como homem, é impossível ele não saber melhor do que ela. Ao enfrentar cotidianamente essa situação em seu trabalho, Penélope “se acostuma” e não faz nada em relação ao assunto até ser chamada a atenção pela sua filha. 

Elena, buscando conscientizar e empoderar a mãe, traz à discussão um fator muito importante. Vários discursos que menosprezam o peso do machismo, usam como argumento exemplos de situações onde o mesmo se expressa mais explicitamente, como “ah, isso não é machismo, machismo é quando passam a mão em você sem seu consentimento ou quando você recebe uma cantada na rua”, contudo, é válido lembrar que na sociedade atual o machismo se camufla em situações cotidianas e simples, agindo sutilmente e conquistando espaço. Mansplaining, gaslighting (forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade), diferença salarial etc, são manifestações de opressão que podem ser consideradas pequenas e simples, mas que em repetidas doses oprimem e subjugam da mesma forma. 

É importante entender que no mundo em que vivemos hoje, existe um tipo de opressão que é velada e mascarada nas ações cotidianas e que por acontecerem tão sorrateiramente, se torna ainda mais preocupante. One Day At A Time traz isso à tona de uma maneira bem leve e humorística, em um episódio completamente educativo e esclarecedor. Vale muito a pena conferir!
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