Feminismo Em Série: Será que nem o apocalipse pode com o machismo?

Por Marcela Virães

16 de novembro de 2016

Olá, sumida rs. Então gente, depois de uma longa pausa eu voltei pra vocês, não precisam mais chorar de saudades, viu? Haha. Pro nosso comeback (me achando mesmo, com direito até a comeback) decidi escolher uma série que tá em alta e virou uma febre mundial já tem um tempo, considerando isso, acho importante pararmos um pouquinho pra refletir sobre. E a escolhida foi sim, ela mesma: The Walking Dead. 

“Mas Marcela, The Walking Dead? Essa série de homem, branco, cis e hétero?” Pois é né pessoal, por isso mesmo. Pensando nessa fama que a série tem dentro de alguns grupos socais, juntamente ao grande sucesso que a mesma continua fazendo de maneira geral pelo mundo, é válida e bem possível uma problematização da mesma. Então, por mais que seja conhecida, nunca é demais uma leve sinopse, né? Bom, a série se passa durante um apocalipse zumbi e foca na vida do Rick, um ex sheriff de uma pequena cidade, que após alguns meses em coma acorda e descobre, desnorteado, o que andou acontecendo durante seu tempo desacordado. Ele vai em busca de sua família, que ele acredita ter fugido no início da epidemia, a fim de reuni-los. A série está atualmente na sua sétima temporada e segue contando a história de Rick e seus amigos na luta pela sobrevivência em um mundo apocalíptico. 

Não vamos começar apontando o fato de que o protagonista da série é um homem, branco, cis e hétero, como a maioria das séries de TV americana, por que já uma problemática bem óbvia, mas vamos começar falando sobre algumas primeiras impressões sobre os homens e mulheres da série. Bom, assim que comecei achei a série bacana, porém paradinha, mas ainda bacana, vamo lá, vamo continuar, né? Então, acabei chegando em um episódio (não lembro qual) mas que me fez refletir sobre uma coisa muito interessante na dinâmica do grupo de personagens na série. No episódio, o grupo é dividido entre homens e mulheres e cada um desses subgrupos são encarregados de certas tarefas pra o funcionamento do acampamento, e adivinhem só? Enquanto os homens eram os encarregados de manter a segurança, de caçar, iam pras cidades em busca de comida, se distanciavam do acampamento etc, as mulheres eram encarregadas dos trabalhos domésticos. Sim, isso mesmo, lavar roupa, fazer a comida e cuidar das crianças. Pois é gente, isso em pleno apocalipse zumbi, viu? 

Isso me refez refletir mais uma vez sobre o quão forte é o sistema patriarcal, sobre a força com a qual o machismo se faz presente na nossa sociedade. Na verdade, não só na sociedade como a conhecemos hoje, mas em qualquer tipo que tenha como base e surja a partir do patriarcado, como vemos na série: uma forma de sociedade que vem pós a que conhecemos hoje. Claro que sim, é ficção, e sim, é escrito por roteiristas que vivem no mundo como o conhecemos, mas se pararmos para pensar: seria realmente tão chocante? Digo, seria chocante se, num universo pós apocalíptico recente, mulheres ainda fossem tratadas como seres inferiores aos homens? Tendo em vista que a sociedade posterior à esta seria a nossa? Pois é, talvez não tão chocante, mas triste e decepcionante demais sim. Pensar que as pessoas estão tão moldadas à um sistema opressor que, até depois de destruída a própria civilização, se mantêm presas a ele.
O interessante é que, apesar do progresso que vem se tendo quando o assunto é mulher e feminismo, no sentido de que hoje mulheres estão começando a ocupar quase tantos espaços quanto os homens, em situações como a do plot da série, onde o instinto de sobrevivência prevalece, esse progresso todo é anulado e mulheres voltam a ocupar os mesmos papéis que antes ocupavam, de submissão e inferiorização. Além disso, acompanhada de toda a glorificação masculina, há a manutenção da ideia de fragilidade feminina, onde mulheres precisam sempre de homens para protege-las em todos os momentos, que é reforçada na série pelo simples fato de que as mulheres não eram permitidas a carregarem armas como todos os homens faziam. Enfim, né? Complicado. 

Com o andar da carruagem, a série vai desconstruindo esses papéis e as mulheres do grupo passam a ser personagens mais fortes e ocuparem lugares significativos dentro da organização do acampamento deles. Hoje, grande parte do elenco feminino de The Walking Dead, se não todo ele, é composto por personagens fortes, independentes e bem construídas. Várias delas tiveram sua evolução durante as temporadas, saindo do espaço de dependentes e se empoderando cada vez mais, temos, por exemplo, a Carol como o maior símbolo dessa trajetória. 

Como eu disse, a minha escolha se deu por conta de um momento de reflexão bem pessoal e que não sei se todos tiveram ou se foi até o objetivo da série, buscar causar esse pensamento e ir desconstruindo a ideia aos poucos. Só sei que decidi compartilhar por achar importante e relevante de certa forma: é realmente triste dar de cara com uma realidade como essa e, ao ser obrigada a refletir sobre, acabar chegando à conclusões tão decepcionantes.
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