Por Dentro do Roteiro: Conflito

Por Bruna Horta

14 de setembro de 2016

E eis que chegamos a um dos elementos mais importantes do universo da escrita e roteiro, quiçá o mais importante deles: o conflito. Tudo bem que o personagem é o elemento imprescindível, mas se ele não evolui, a história não anda. E o conflito serve exatamente para que o personagem tome decisões e a história se mova. 

Em linguagem mais fácil, o conflito é quando ficamos em dúvida entre duas opções em alguma situação limite... é o velho dilema “caso ou compro uma bicicleta?”. Brincadeiras à parte, o conflito se dá quando uma escolha difícil para se fazer. Entrar ou não na Matrix, quando Morpheus pede para Neo escolher uma das pílulas seria o exemplo mais clássico e simples. E as histórias ricas e bem elaboradas têm em sua maioria, três níveis de conflito: o interno (o personagem com ele mesmo), o local (entre personagens) e o global (no ambiente daquela história). 

INTERNO 
O tipo mais difícil do espectador perceber. Muitas vezes não está nos diálogos, pois o personagem costuma guardar tudo para si, até o ponto em que resolve internamente. Logo, é mais fácil perceber a indecisão, inquietude, dúvidas e contradições através dos olhares, gestos, ações, enfim, na mise-en-scène. 

Os super-heróis têm muito conflito da identidade secreta perante a vida normal: Bruce Wayne ou Batman? Oliver Queen ou Arqueiro Verde? Peter Parker ou Homem-Aranha? E quando priorizam um dos dois lados, a história sempre avança. Já em outros casos, como nos anti-heróis que são protagonistas bem mais complexos, o conflito sempre será pender para um dos lados (bem ou mal). Em Dexter, por exemplo, é ele deixar se envolver com as pessoas em níveis mais profundos e se socializar ou manter o lado frio e solitário, deixando seu “dark passenger” tomar conta. Outro grande exemplo de personagem com imensos conflitos internos é Elliot, protagonista de Mr. Robot que além das dificuldades de sociabilidade, sofre para deixar aflorar ou não sua múltipla personalidade. 

LOCAL
Brigar com o outro é muito mais fácil do que com si mesmo, por isso é mais comum ver tantos exemplos de conflitos locais nas narrativas fílmicas e televisivas. Pode ser desde algo pontual, em um diálogo/ação em um episódio ou uma rixa eterna, como arqui-inimigos por anos em trilogias do cinema. Exemplos disso podem ser desde as lutas dos inúmeros Aliens com a Supergirl ou até Harry e Voldmort com a rixa vitalícia da saga Harry Potter. É importante ressaltar que conflito não significa só violência física ou discussão verbal. O silêncio entre personagens, a fuga do olhar e outras ações/subtextos dramáticos também são expressões de que há conflito local. Na série Sherlock, o protagonista e seu eterno braço direito, Dr. Watson vivem às turras e seus olhares, “dar as costas” ao outro ou mesmo ignorar o parceiro durante uma conversa representa algum conflito em desenvolvimento entre eles. 

GLOBAL
Não há nada ruim que não possa piorar, não é mesmo? Game of Thrones que o diga, com a espera do tal inverno (e os caminhantes brancos) que não chegam há seis temporadas. Bem, pode ser que o personagem esteja em um momento péssimo consigo mesmo, em conflito com alguém e ainda apareça algo maior para complicar a situação/vida do protagonista e demais personagens da história. A natureza pode trazer algum fenômeno que prejudique tudo (calor/frio extremo, vulcão, furacão, maremoto); ou o contexto de um país pode afetar todos (queda de presidente, quebra de bolsa, apagões, onda de violência, desemprego em massa, entre outros). É claro que existem séries e filmes com apenas dois desses tipos de conflito, mas quanto maior variedade, mais complexa será a narrativa. 

Caso ainda haja dúvida de os três tipos evoluem dentro da história, segue um exemplo de todos juntos. Em Game of Thrones mesmo, a personagem Arya Stark tinha o conflito interno entre ser uma aprendiz dos Homens sem Rosto e se tornar Ninguém ou abraçar o sobrenome, continuando uma Stark. Seu conflito local é com todos que traíram ou prejudicaram sua família; e o conflito global é a ameaça dos outros que chegarão trazendo o inverno; podendo comprometer os planos dela e de outros na série. 

É isso, gente! Espero que tenha ficado claro, mas fiquem à vontade para enviar dúvidas e citar exemplos de conflitos nos comentários. Até o próximo tema!
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