Mais Cinema - Precisamos falar sobre Kevin (2011) de Lynne Ramsay

Por Ana Carolina Teles

18 de setembro de 2016


A loucura de um ser incompreendido visto pelas lentes de uma mãe eloquente e desesperada 

O best seller de Lionel Shriver, o qual foi inspiração para essa adaptação dirigida pela cineasta escocesa Lynne Ramsay, apresenta, pela a narração de Eva, mãe de Kevin, uma história intrigante, dolorosa e inesquecível, daquelas que você lê com lágrimas nos olhos de espanto e angústia ao mesmo tempo. E digo por experiência própria. 

Quando, meses após terminar a leitura do livro, me informei do lançamento do filme, rapidamente procurei o cinema mais próximo para conferir o que me aguardava... E, as mesmas lágrimas me brindaram ao final do filme. 

Kevin (Ezra Miller), um ser humano um tanto quanto indescritível, nasce de uma relação entre Eva (Tilda Swinton) e Franklin (John C. Reilly), um desejo incessante deste último que sempre almejou ser pai em algum momento, o oposto de sua companheira, uma vez que esta, apaixonada por seu emprego, sua vida e liberdade ao lado de seu grande amor, nunca teve grandes planos maternos, nem mesmo estrutura para o que vem após tais acontecimentos.
Desde seu nascimento, a dificuldade de lidar com Kevin era persistente e notável. Quando ainda um bebê, o choro incontrolável e constante de seu filho, era, de acordo com Eva, uma maneira de irritá-la, de puni-la, de mostrar a ela que agora não havia, nunca mais, um só “eu”, e que a sua cria a acompanharia pelo resto de sua vida. A complexidade dessa relação é mostrada perfeitamente pela diretora que, sem muitos diálogos, enquadra as expressões de Tilda de forma em que o espectador compartilhe de seu incômodo e sua inexperiência constantemente. A verdade é nua e crua: Eva não nasceu para ser mãe. Aquele momento de sua vida, esse divisor de águas instantâneo, fora causado diretamente pelo anseio de seu esposo em se tornar um pai – tal que, desconfiada, Eva chega a pensar que o amado teria “causado” o fato em uma das inúmeras noites de amor do casal.

O longa, com uma direção e roteiro por Ramsay e trilha sonora de Jonny Greenwood, nos capta rapidamente em seu ritmo lento e, ao mesmo tempo, revelador em cada tomada. É concebido por meio de flashbacks e flashfowards, em um tempo desnivelado. 

Logo no início, nos deparamos com Eva limpando a frente de sua casa, a qual foi atacada por ovos de seus vizinhos ou apenas pessoas que a julgam responsável por todo mal que seu primogênito causou. De cara, o filme nos entrega a profunda depressão eterna que nossa protagonista vivencia. Ficamos absortos naquele emaranhado de sua feição triste e indiferente e, para quem já não está familiarizado com a história, a ansiedade para a descoberta do fato causador é incontrolável. 

Por motivos que nem mesmo Kevin, meses depois do acontecimento, consegue explicar para sua mãe, ele, a pouco de completar 16 anos, aprisiona colegas e um professor de sua escola no ginásio da mesma e, com seu arco e flecha, os mata friamente.

É preciso ressaltar o quanto o filme é seco e perturbador a ponto de nos deixar inquietos e profundamente tristes do início ao fim. Histórias parecidas como “Tiros em Columbine” nos remetem a mesma profundidade de emoção negativa, no entanto, com essa direção aqui, sentimos quase na pele o quão ser Eva, naquele momento de sua vida, melhor seria estar morto.
Kevin foi uma bomba relógio na vida daquela mulher desde a sua primeira respiração, e o desconforto que os envolve nos faz imaginar que ela sempre soube que algum dia a bomba explodiria. A questão era quando.

O filme é reflexivo e não nos conta tudo por meio de palavras, pelo contrário, a linguagem corporal e visual é extremamente explorada e alcança o êxito esperado. Em uma das cenas chaves, quando Eva, no dia do atentado, chega em sua casa à procura de seu amado e sua filha caçula, vemos a sua roupa branca se manchar de vermelho de maneira brutal e ali, em seu ponto máximo de dor, choramos com ela.

Não se pode deixar de salientar, por fim, a incrível performance do nosso querido Ezra Miller, o qual basicamente foi apresentado ao estrelato neste longa. Ezra absorve a personalidade absurda e consistente de Kevin e nos faz temer seu olhar a cada frame. É, de longe, o grande achado do filme, ao lado de Tilda, então, a química é fervorosa e faz com que esse suspense dolorido seja tão impecável na sua sutileza mestre. O que nos fica de ensinamento é o fato de que psicopatas – ou sociopatas, como preferirem – não se tornam, apenas são. E a pureza eterna de nossas crianças nem sempre pode ser inquestionável.
 Você não parece feliz."
– Algum dia eu estive?" 


Esse texto foi escrito por: Ana Carolina Teles
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