Literatura em Foco: Juliette Society

Por Roberta Brum

17 de setembro de 2016


Poderia começar a resenha com um argumento fortíssimo, quase magnético e irresistível: este livro foi escrito pela ex-atriz pornô, Sasha Grey. Porém, comecemos um pouco diferente.


Sexo fascina a humanidade. É dono de um poder de atração e um magnetismo que são dificeis de resistir. E Juliette Society é um verdadeiro banquete sexual. Em Juliette Society, a notória Sasha Grey narra a história de Catherine, uma estudante de cinema que tem um tesão do caralho por seu professor de Cinema, mas que ao mesmo tempo é apaixonada por seu namorado e se encontra na vida quando conhece Anna, que é para ela aquela melhor amiga que entende tudo que se passa dentro dela, quase uma consciência compartilhada. 



Catherine não é puritana, como ela mesmo diz, mas foi criada presa às amarras da religião e ainda tem resquícios dessa criação em sua personalidade. Ao conhecer Anna, ela embarca em uma jornada de descoberta da sua sexualidade, em uma busca pessoal do prazer. Tudo é possível e nada é julgado. 

É um enredo simples e cliché, mas funciona. Existem sociedades secretas, mistérios, assassinatos e sexo. Muito sexo. A protagonista é simpática e carismática, bem "the girl next door". Grey escreve como se o leitor fosse um amigo e eles estivessem conversando, em um diálogo super informal e recheado de sexo. Sabe quando tu sais, tem a noite mais poha lôca ever e no dia seguinte conta tudo para suas amigas? Pois bem, isto é Juliette Society. Mas ao invés de uma única noite alucinante e intensa, são várias noites. E Cate conta nos tudo nos mínimos e mais íntimos detalhes. 

A partir da narração em primeiro pessoa, a obra brinca constantemente com a quebra da quarta parede. Catherine conversa com nós o tempo inteiro. Não apenas nota nossa presença, mas interage. É uma forma de engajar o leitor e funciona, em especial pela linguagem coloquial (não tem nada vértice, tipo 50 Tons) e empatia de Catherine, uma garota super normal, como qualquer uma de nós. Emerge uma cumplicidade e empatia da personagem com o público, agregando experiência um sentimento de compartilhamento de sensações e situações. 

Sendo uma história despretensiosa, descomplicada e simples, repleta de referências à cultura pop, principalmente cinematográficas, indo de Bela da Tarde, de Luíz Burñuel, Último Tango em Paris, Cidadão Kane, O Corpo que Cai, Nove Semanas e Meia de Amor a McDonald’s, passando pelo tesão que ela sente por Norman Bates (afinal nada mais apaixonante e delicioso do que aquele cabelo preto brilhante, milimetricamente aparado e esculpido, ou ainda aqueles olhos escuros, aquele sorriso misterioso, tudo isso tendo como cereja do bolo o fato de existir um perturbado psicopata sob tudo aquilo), Juliette Society é uma leitura fácil. 

Mas (talvez não seja necessariamente negativo), há uma forte sensação de déjà vu ao ler a obra. Enquanto lia, pensava constantemente em De Olhos Bem Fechados, do Stanley Kubrick. 

A escrita de Grey é extremamente descritiva. São descrições extensas e muitas vezes desnecessárias e exageradas, abusando dos adjetivos (ela deve ter escrito a trama com um dicionário de sinônimos ao lado, como melhor amigo). E às vezes isto não apenas cansa como atrapalha, pois o preciosismo e detalhismo confundem na hora que se cria a imagem na sua cabeça. Ela também apresenta personagens bizarros que não possuem função nenhuma na narrativa além de agregar bizarrice e excentricidade à história, como se preenchessem a cota de representatividade, como Bundy, o pornógrafo e Kubrick, o fetichista. 

Ela também introduz questões ~pertinentes~, como por que gozo se chama gozo e qual seria o termo ideal para caracterizar um pênis (que não é nada evocativo e muito menos excitante): pau, pinto, caralho, tico, etc. Também existem algumas questões filosóficas (é sério!), às quais ela não tem nenhuma pretensão de respondê-las, como a relação que faz entre a Bíblia e o sexo. Aparecem mais como um toque de ironia e para mostrar a intelectualidade da autora com referências de autores que vão de Freud à Foucault e ao recorrente Dr. Kinsley, do que realmente problematizar e adensar um debate acerca do assunto. São apenas passagens superficiais e extremamente sucintas e sintéticas. 

Ao mesmo tempo, a escrita da autora entrevê uma pessoa confiante e segura não apenas em relação ao próprio corpo, mas principalmente, em relação à sua sexualidade. Uma pessoa à vontade com a sexualidade, que encara o sexo como algo biológico, sem tabus. Como ela mesmo diz: encara sexo como algo natural, assim como é respirar. É sexo por sexo, naturalizado, sem tabus. Sexo onde ninguém é julgado ou condenado ou olhado de forma estranha. É sexo de todos os tipos, convicções e perversões, livre regras, da moral ou da condenação do homem. Sexo não mistificado e muito menos demonizado. 

Mas vamos à parte que fez grande parte dos leitores me acompanharem até aqui: o sexo. Quanto ao sexo, é forte, intenso, animalesco, instintivo. Sério. Não é erotismo ou literatura erótica. Não romantiza nem idealiza. Não é uma história de amor com pitadas eróticas. É putaria hardcore mesmo. É porn. Dos bons. Tem plugue anal, grampo elétrico, drilldo (queria nunca ter visto, porque agora nunca mais poderei esquecer aquela imagens) à inúmeras orgias. Temos também uma cena de margarina (não manteiga). É gráfico, explícito, constante e sem eufemismo nenhum. Um “sexo orgiástico”. Quantitativamente, é uma cena de sexo a cada 15 páginas, que variam entre 3 a 7 páginas. Não é exatamente um combo extático de tesão e orgasmos, mas dá uma animadinha e é válido como “material masturbatório”. 

Importante salientar também as referências a Marquês de Sade: além do Juliette do título, de Infortúnios da Virtude, são perceptíveis a influência de Filosofia de Alcova e 120 de Sodoma. Por falar em Sade, ícone da literatura erótica, outra interessante associação possível é o Grey de Sasha Grey. Este vem de Dorian Gray, o jovem atraente, narcisista, hedonista, que se entrega a cada prazer, sejam morais ou imorais, de Oliver Wilde. E convenhamos, a Juliette de Marquês de Sade e Dorian Gray de Oliver Wilde formariam um casal sensacional. 

Resumindo o livro, usarei uma frase do próprio: é um laboratório pansexual do prazer carnal, onde toda e qualquer coisa pode. 

Assim, quando a curiosidade é mais forte que o bom senso, conclui-se que E.L. James é nadinha perto de Sasha Grey. Moça Sasha sabe das coisas. E como sabe. Li Sasha Grey.  E curti. Gosto tanto da autora como gosto da atriz.


Esse texto foi escrito por: Roberta Brum
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