Literatura Em Foco: Deuses Americanos

Por Jaqueline Buss

14 de setembro de 2016

Em 2014 deparei-me com uma obra que, salvo exageros ou “puxa-saquismos”, mudaria minha vida como leitora. Há algo sobre o livro do qual vos falo que não deixou de habitar meus pensamentos desde então, a forte crítica aos modelos de interação social atuais e ao grande valor que se coloca nos objetos de adoração, sejam eles redes de fast-food, smartphones ou a própria internet. Em Deuses Americanos, no entanto, meus caros, a personificação da adoração em forma de entidades poderosas que marginalizam o que se conhece tradicionalmente por “deuses” é a grande cereja do bolo, mas falemos antes do autor. 

Neil Gaiman, nascido na Inglaterra em 1960, é um dos grandes nomes das histórias em quadrinhos da década de 1980. Seu estilo particular mescla fantasia, horror e referências culturais clássicas, destacando-se em 1989, pelo selo DC Comics, com as histórias do Senhor dos Sonhos Sandman. Adentrando na literatura, firma seu prestígio ao alavancar nas páginas sem imagens as mesmas características que o definem como quadrinista. 

Em Deuses Americanos, Gaiman apresenta uma narrativa ficcional, mesclando fantasia e elementos de mitologias antigas, focando nas figuras divinas especificamente, onde se assume que tais entidades existem e sobrevivem porque os humanos nelas crêem. As populações migrantes de outros continentes que chegaram à América, em ilustração da ideia, trouxeram consigo, em seu imaginário, seres que perderam a influência nessas comunidades com a emergência de novos cultos, que assumem o posto que um dia fora dos Orixás e deuses nórdicos. 

Em sua personificação para o andar do livro, os marginalizados precisam recorrer à prostituição, ao trabalho ordinário ou à criminalidade para se manterem. Eles não deixarão que os novos queridinhos da América ditem sua extinção do Panteão popular utilizando-se do apreço por acumulação de capital ou a lotação das salas de cinema, então espere um contra-ataque nas beiradas da história central que foca-se na figura de Shadow. 

E digo mais, a transferência de crenças, em uma crítica cristalina aos modos de vida modernos são ainda intensificados com os anos decorrentes da publicação da obra. Chegando ao Brasil em 2001, se escrito 10 anos depois, novos deuses assumiriam a frente da cultuação, como a obsessão por deixar-se ver para o mundo na rede aberta de comunicação numa caçada frenética por “likes” e “matches”, ou a obsessão por personagens fictícios e seus maravilhosos enredos.

A adaptação da obra chega no início 2017 numa série desenvolvida por Bryan Fuller (de Hannibal) e Michal Green (de Heroes), então aconselho, assim, a adentrar nesse universo antes que a ilustração da personificação tire de sua imaginação o privilégio da liberdade criativa. E lembre-se: Você é o que você idolatra.

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