Feminismo Em Série: She is the Crazy Ex-Girlfriend?

Por Marcela Virães

14 de setembro de 2016


Passei um bom tempo pensando sobre o que falar nessa postagem, não por uma questão de falta, mas sim por excesso mesmo. Existem tantas séries na minha grade que merecem uma atenção para as suas personagens femininas que as vezes me bate aquela famosa indecisão sobre qual falar. É difícil para uma mãe ter que escolher entre seus filhos (risos). 
Bom, finalmente consegui decidir e a escolhida da vez foi meu mais novo bebê: Crazy Ex-Girlfriend. Quem não conhece, uma dica: conheça. 

Crazy Ex-Girlfriend é uma série de comédia musical, criada e estrelada pela Rachel Bloom. O seriado fala sobre a vida da advogada nova iorquina Rebecca Bunch, que não vive uma vida feliz na cidade grande e ao reencontrar um namorado do passado decide mudar-se para mesma cidade em que ele vai viver, e a partir daí desenvolve-se a história da série. Ela se muda para West Covina, começa a trabalhar numa firma que, pela Recebba ser bastante reconhecida no seu ramo de trabalho, parece não estar muito ao seu nível, compra uma casa na cidade e inicia sua empreitada a fim de reconquistar Josh, o qual ela acredita ser seu grande amor e a solução para todos os seus problemas. Rebecca sofre de ansiedade e depressão, além de outros problemas emocionais que afligem sua vida desde jovem e como parte de sua mudança em West Covina, Rebecca decide parar seu tratamento acreditando que a única coisa que a poderia tirar da apatia em que vivia em Nova York seria Josh, uma decisão que acaba se mostrando não muito sábia, tendo em vista que termina metendo-a em diversos outros problemas ao longo da série. 

A personagem da Rebecca Bunch, e a própria série em si, aborda diversos pontos importantes que são ignorados e reforçados de maneira errônea constantemente em nossa sociedade patriarcal. Assuntos como e reafirmação da mulher que sempre é vista como “a ex namorada louca”; a ideia de que um homem pode solucionar todos os problemas de nossas vidas, de que um homem é tudo aquilo que precisamos (por mais idiota que ele se mostre ser); a dependência emocional ligada a relacionamentos românticos introjetada em meninas durante a vida toda pela sociedade em geral; a rivalidade feminina que ainda é tão reforçada pela mídia; o famoso daddy issues que é incrivelmente real na vida de garotas por todo o mundo e que, pela força que a figura masculina ainda representa na vida de uma mulher no sistema do patriarcado, essa acaba se tornando uma situação perigosa que pode influenciar toda vida de uma menina de uma maneira extremamente negativa e problemática, como podemos ver claramente com a Rebecca, onde todos os seus problemas são tratados como originários primeiramente pela péssima relação vivenciada entre seus pais e entre ela própria e sua família. 

O interessante é que podemos tomar o próprio nome da série como uma crítica, a sua abertura como uma crítica e diversas das músicas performadas na série SÃO críticas explícitas à sociedade patriarcal e ao machismo embutido nela. Dentro dessa trilha sonora incrível que a série possui, com músicas que não abordam só questões feministas, mas também questões de sexualidade (dentre outras coisas, claro), existem aquelas que, na minha humilde opinião, trazem mais claramente a realidade na qual garotas são imersas desde jovens, como: The Sexy Getting Ready Song (incrível essa, minha preferida, é sério) e Put Yourself First, dentre milhares de outras que eu não vou jogar aqui para não perder a graça pra quem se interessar, né?! Enfim: essa série é incrível! Claro que, por ser uma comédia, todas essas críticas vêm acompanhadas de um humor que, ao mesmo tempo que faz você refletir sobre essas situações presentes no nosso cotidiano e aquelas coisas que parecem não ser muito importantes, mas que na verdade são, fará você rir bastante. 

Por fim, queria só ressaltar mais uma vez o quanto essa série e o quanto a Rachel Bloom são maravilhosas. São poucos os seriados que podemos ver tratando de assuntos tão importantes e ignorados em seu arco principal, com uma protagonista mostrando, de certa forma, os erros da socialização feminina e algumas das milhares consequências da mesma. Algo que deve ser ressaltado também é que, já que tradicionalmente só consideramos personagens fortes aquelas que mostram traços de masculinidade, a Rebecca Bunch pode ser vista pelas pessoas como uma personagem patética, fraca, considerando o fato de estar dentro/cumprir/tentar cumprir com todos os padrões de feminilidade impostos, contudo, achar sua força dentro desse sistema de padrões enquanto tenta segui-los não a faz uma figura de fraqueza ou algo do tipo. Esse é um pensamento que rodeia diversas personagens femininas que, por terem sido ensinadas por toda a vida apenas isso, permanecem obedecendo o padrão instituído e portanto, pelo fato de que o que é feminino estar ligado à uma imagem de inferioridade, essas personagens passam a ser, de certa forma, menosprezadas e ridicularizadas perante às outras (muito do que acontece com a Sansa Stark, de Game Of Thrones, mas vamos chegar lá numa próxima postagem, não se preocupem). Isso é um fato interessante pois funciona de maneira completamente contrária na realidade: meninas que mostram traços de masculinidade são rechaçadas enquanto aquelas que seguem os padrões são aclamadas. 

 A representação que a Rebecca traz para as mulheres, a ideia de que “tudo bem ter problemas, você pode lidar com eles”, a ideia de que ser feminina não é ser fraca, ter problemas não é ser fraca, tudo isso ligado ao tema principal da série, algo que tão comum e que faz meninas por aí afora se identificarem com a personagem, tudo isso faz com que a série tenha uma força muito grande na questão da representação da mulher na TV, na questão dos problemas femininos na mídia passarem a ser tratados como importantes, como tópicos a serem discutidos. É por isso que amo Crazy Ex-Girlfriend, por jogar na cara das pessoas os nossos problemas e dizer “olha só, isso existe e é importante”, por mostrar que o machismo também está presente em situações “pequenas” e comuns, além de fazer refletir sobre os perigos da socialização feminina o quão não saudável ela acaba sendo para as mulheres. 

Então, é isso aí pessoal, a dica do dia foi: Assistam Crazy Ex-Girlfriend.
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