Cinema Em Foco: Fahrenheit 451

Por Jaqueline Buss

15 de outubro de 2016



Entender o peso que um filme da década de 1960 pode ter nos dias de hoje é simples, bastando refletir sobre quanto a tecnologia tem facilitado nossas vidas e nos presenteado com o acesso instantâneo à informação. Retrocedamos ainda algumas décadas, onde corpulentas enciclopédias traziam uma coleção de conhecimentos em diversas áreas e os livros, hoje em parte digitais, ocupavam lugar nas prateleiras empoeiradas que davam ao ambiente um cheiro característico de sabedoria pairando no ar. Parece difícil de conceber uma vida sem leituras, interpretações ou conclusões próprias, mas esse é o mundo de Fahrenheit 451.

As experiências ditatoriais em algumas sociedades, como o caso do Brasil no século passado, restringiam o que adentrava as casas e mentes da população, conversando com consagradas obras como 1984, de George Orwell, onde as teletelas deixavam o Partido do Grande Irmão ciente de cada conversa suspeita. Em Fahrenheit 451, de forma semelhante, a televisão tem a função de adestrar os cidadãos, implantando neles a vontade de consumir e a satisfação em fazer parte do sistema. A ignorância os faz felizes e satisfeitos.
A obra de François Truffaut, adaptada de um livro homônimo de 1953, tem ainda uma singularidade no mínimo interessante: a função do corpo de bombeiros. Em uma realidade em que as casas são à prova de fogo, os profissionais são acionados para queimar obras literárias encontradas nas residências. A lei é clara na proibição de qualquer tipo de literatura, pois até mesmo a mais aparentemente inofensiva delas pode implantar idéias perigosas à soberania do governo. Com isso em mente, é fácil deduzir que as redes de delações são estruturadas, motivadas pelo dever de cumprir a lei, pelo medo de se ver envolvido ou mesmo por desavenças entre vizinhos.

Após as considerações técnicas feitas até aqui o leitor está apto a avançar pela história propriamente dita. Guy Montag (Oskar Werner) é um bombeiro exemplar, almejando uma promoção em breve. Após ser questionado se não havia nele a curiosidade em ler pelo menos um dos livros que queimava, e presenciar um ato de verdadeiro amor por esses objetos subversivos, sua perspectiva muda, tornando-o um apaixonado por literatura. Começando aos poucos, longe dos olhos da lei e da esposa, Montag logo se vê completamente imerso num universo que não o permite voltar. Está mudado.
Inicia-se assim uma jornada de libertação do personagem, tendo como plano de fundo situações igualmente interessantes. Linda (Julie Christie), sua esposa, é colocada em cena com a intenção, muito bem sucedida inclusive, de contrariar o desespero de Montag, pois interage obedientemente com a televisão e reúne-se para um despretensioso lanche com as amiga, sendo o exemplo social a ser seguido. Somando-se à Linda, as autoridades, ilustradas inclusive por seus colegas de trabalho, representam o principal antagonista em cena, afinal quem sai dos trilhos nesse futuro hipotético não pode acabar bem.

Uma terceira figura merece ser mencionada, Clarisse, pois é ela que apresenta Montag ao incrível desfecho, que combina perfeitamente com a mensagem que a obra se propõe a passar. Ela rega a semente plantada no atormentado bombeiro, sendo desleal de minha parte mostrar a planta desabrochada. Asseguro, entretanto, que o final é digno de elogios e tem uma mensagem importante. Guy “morre”, porém continua vivo, e esse mistério, juntamente ao porque do nome Fahrenheit 451, deixo ao leitor o fardo de desvendar.


Assista ao trailer do filme:
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