Mr. Robot - 2x01/x02 - eps2.0_unm4sk-pt1.tc/eps2.0_unm4sk-pt2.tc

Por Roberta Brum

18 de julho de 2016


Depois de Vikings e The Good Wife, retorno com a impecável Mr. Robot. No pensar a sociedade contemporânea, ou pós-moderna como alguns autores a designam, dentre eles um dos meus preferidos, Baumann, poucas são tão pontuais e certeiras quanto Mr. Robot. Outra que talvez tenha a mesma perspicácia e sagacidade talvez seja Black Mirror.

Tenho por decisão não assistir trailers, previews, evitar qualquer contato com a série, lendo inclusive poucas para não criar expectativa. Tornando o ato de assistir à série totalmente inédito e livre de qualquer expectativa ou julgamento prévio. Resumindo, indo "virgem". Fiz isso com Game of Thrones, Outlander, Penny Dreadful e filmes como Batman vs Superman e Capitão América e os resultados foram extremamente positivos. Então realmente não sabia o que esperar de Mr. Robot e até realmente ver Elliot não percebi o quanto eu sentia falta das conversas com ele. De ser esta espécie de amigo imaginário dele. A quebra da quarta parede continua um dos pontos fortes da série.

Mas vamos ao que interessa, a premiere da segunda temporada, "unm4sk". Mr. Robot retornou com um episódio duplo que na mesma medida em que respondeu, também criou perguntas. A série não perde tempo e já começou com tiro, porrada e bomba. Não literalmente (mas quase), mas vocês entenderam. 

Se tem uma coisa que estes dois episódios fizeram foi esclarecer um ponto nuclear da primeira temporada: existem duas personalidades, Elliot e Mr. Robot. Uma completamente distinta da outra. Uma tentando sobrepujar a outra. Elliot está ciente que ele próprio é o Mr. Robot. E o quanto ele é perigoso. Sim, as coisas estão "claras", mas temos um Elliot cada vez mais descontrolado. Ao mesmo tempo em que ele mostra-se ciente e sistemático, longe de qualquer meio digital (com a mãe dele, sério, a mãe. E lavando louça), entrando em modo analógico e automático, ele encontra-se no limite, à beira de uma explosão, atormentado pela revelação de sua outra personalidade, esta, anárquica. Revolucionária. Rebelde. E que quer assumir o controle. Lembram de Gollum e Smeagol? Algo similar. Elliot claramente teme o caos que Mr. Robot pode criar.


Assim, para o telespectador, a realidade é difusa. A insanidade faz parte de Elliot e tudo em Mr. Robot é passível de dúvida. Qual é o verdadeiro eu dele? O Mr. Robot não apenas faz parte do seu eu, como É ele. Como eu tiro uma máscara quando ela deixa de ser uma, quando ela é tão parte de mim quanto eu mesmo? Não sei vocês, mas eu me vejo em vários aspectos do Elliot, então é mais fácil criar uma ligação com a série. Assistir ao conflito interno de Elliot é angustiante e tenso, mas simultaneamente prazeroso devido a atuação primorosa de Rami Malek.

Neste episódio foram apresentados novos personagens: Ray, Leon (que problematiza Seinfeild como ninguém), Susan Jacobs (quem acompanha House of Cards se recordará dela) e Dominique DiPierro. Enquanto Ray e Leon são de certo modo próximos a Elliot e com quem ele desenvolveu uma espécie de vínculo afetivo, acredito que os destaques maiores e tramas mais densas concentrarão Jacobs, a advogada da E Corp e DiPierro, agente do FBI encarregada do infame hack.


Sobre o hack: a batalha contra o sistema, contra o capitalismo não termina, e agora é encabeçada por Darlene, que assume um papel de liderança e com uma seriedade e compromisso que não lembro ter visto na primeira temporada ("estamos em guerra e estamos no lado que está perdendo").

Apesar de tudo que havia acontecido na temporada passada, incluindo o suicídio ao vivo, nada me impactou e significou tanto quanto ver o Elliot levantando da cama com um buraco de bala no meio da testa. Eis a insanidade materializada. E mesmo parecendo paradoxal, não tem nada de surreal na cena, pelo contrário, mostra o conflito e tensão constante entre dois indivíduos distintos coexistindo e coabitando a mesma mente brilhante. Transforam cenas banais, corriqueiras, que iniciam sem expectativa nenhuma em verdadeiros plot twists. Os desfechos em Mr. Robot nunca são como esperados. Gideon no bar representa totalmente esta afirmação. Em Mr. Robot é "putaquepariu" atrás de "putaquepariucaralho", ou o famoso "that escalated quickly". No caso de Gideon, melhor para Elliot. Ou Mr. Robot. Escolham vocês.

Um dos mistérios deixados pela primeira temporada é o destino de Tyrell Wellick: a dúvida ainda permanece porque ele apenas apareceu neste episódio como no final da temporada: no fliperama durante o hack com Mr. Robot. A incógnita é tanta que esta é a barganha de Elliot com Mr. Robot: ele libera seu Mr. Hyde se este contar o que aconteceu a Wellick, afinal, Mr. Robot é o único que sabe. Nem Joanna - que continua a brincar de 50 Tons de Cinza, agora com um clone de Wellick - aparentemente sabe. O episódio indica que Wellick está vivo ("bonsoir, Elliot"), mas será que realmente é real? Ou é outra criação da mente de Elliot?

Eu simplesmente não consigo consumir Mr. Robot apenas como entretenimento, tenho além disso um interesse acadêmico e também reflexivo. Poucas séries me fazem pensar como Mr. Robot. Sou de humanas, e sim, vivo para problematizar e desconstruir. Inclusive "simples" séries de televisão. Mr. Robot é uma série que categorizo como "séria". E Mr. Robot nos confronta com a realidade, problematiza o banal, o diário, o cotidiano. Joga na cara. Despe a realidade e a sociedade realmente como são, sem máscaras. Como são. Fria. Cruel. Caótica. Ilusória. Nossos perfis em Facebooks, Instagrams, Vines da vida não são máscaras criadas por nós? Máscaras atrás das quais nos escondemos? Máscaras que são nossos eus idealizados? Nossas vidas não seriam ilusões? Não mascaramos nossa realidade?

E respondendo à questão principal do episódio e provavelmente da temporada e por que não, da nossa sociedade, sim, controle é uma ilusão. E assim como Elliot nos mostra, a rotina é uma estratégia criada por nós para nos deixar confortáveis e nos outorgar de uma (pseudo) noção de controle. Ou seja, é outra ilusão. 

Isso já deve ser cliché, mas Mr. Robot dialoga muito com filmes como Clube da Luta e Show de Truman  e até Cidade dos Sonhos do Lynch, que é mestre de realidades difusas. Então, caso quem assista a série não tenha assistido estes filmes, fica a dica. E se alguém relaciona com outros filmes, por favor, compartilhe. 

Obs.: Tentarei não deixar ninguém na mão. As reviews podem vir atrasadas, mas virão.

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