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Por Roberta Brum

30 de julho de 2016

“Controle é tão real quanto um unicórnio perneta mijando no fim de um arco-íris duplo” - Ray

A frase do episódio. Pura e simples.

Mr. Robot mantém o nível da estreia em mais um episódio. Novamente a noção de controle assume o protagonismo, na tensão constante entre as personalidades de Elliot, desta vez com medidas drásticas. Elliot atingiu um ponto sem retorno. O fato de não saber o que aconteceu naquela noite o atormenta, suprimir Mr. Robot está deixando-o exaurido e insano, saber que seu "controle" é uma ilusão o castiga, e a própria falta deste controle o deixa perdido.


No ápice do episódio, não vejo como derrota ou mesmo resignação, mas sim uma real compreensão do mundo. Uma que ele aceita e vê como possível de conviver. Ele aceita Mr. Robot.

Eis onde Mr. Robot difere de muitas outras séries: no desenrolar da trama, há sempre algo acontecendo, há sempre muito acontecendo, há sempre desdobramentos insanos. Se algumas séries podem ser caracterizadas como morosas, talvez nem dinâmica caiba em Mr. Robot. É um dinamismo surreal, mas ao mesmo tempo digerível, nada parece apressado ou mal explorado ou ainda trabalhado. É uma trama ágil, que definitivamente não perde tempo. Porque, sejamos honestos, muitas séries permaneceriam neste conflito, nesta tensão entre Elliot e Mr. Robot por bem mais que dois episódios. E tudo encaixou-se: o entendimento dele de que a falta de controle humana explica-se na analogia de um erro fatal de um computador (que dá título ao episódio), fora que ele vê a vida como uma sucessão de tropeços. Só um adendo: como a direção do episódio tensiona entre confronto sempre colocando ambos frente a frente, se encarando, e focando seus rostos. E a própria escolha por cores escuras, sombrias, criando um clima de constante tensão.


Ainda neste sentido de agilidade, tivemos um pseudo-turbilhão: "retorno" de Wellick, retorno da F.Society com todos seus membros, Angela basicamente se tornando aquilo que ela mais abominava, o FBI encontrando pistas sobre o hack do milênio e revelações sobre o Ray. Vamos por partes:

1. Wellick: o fato da ligação ter sido "arranjada" por Mr. Robot incide ainda mais dúvidas sobre sua veracidade. Ainda não sei se Wellick está vivo ou não. E muito menos onde ele está.


2. F.Society: o grupo de Elliot insere-se novamente à trama com o assassinato de um dos seus - Rome. Mobley, como não poderia ser diferente, cria cenários em que alguém sabe o que eles fizeram e estão sumindo com as pontas soltas. Pode ser FBI, E Corp, Dark Side, ou o próprio Elliot. Uma nova - totalmente justificável, diga-se de passagem - "teoria da conspiração" toma conta. 

3: Angela: eu gosto de quase tudo na série. Quase. Até da E Corp e seus CEOs, que cumprem belissimamente suas funções de vilão. Mas se tem algo que não me desce é a Angela. Não gosto dela. Não adianta. Ela foi posta em uma encruzilhada por seu CEO e tenho quase certeza que estragará tudo.

4: Dominique DiPierro: talvez ela se revele um dos melhores elementos de Mr. Robot desta temporada. Não tão distinta de Elliot, pelo seu isolamento, ansiedade social e desencanto com mundo, mas em lados opostos do jogo. Ao menos momentaneamente, ela depara-se com a F. Society de uma das formas mais insólitas possíveis, de modo que nem ela acredita. E por falar, em DiPierro, adorei a Alexa.

5: Ray: o Ray, quem diria... Não é tão bonzinho quanto pareceu. Mas continua fofo.
Sigamos. Falar que Mr. Robot critica constantemente a sociedade é chover no molhado, mas em determinadas ocasiões a crítica é tão fantástica que merece ecoar nos quatro cantos, além de ser memorável. Ao menos para mim. Lembram do piloto? Vocês não lembram? Pois eu lembro muito bem.

Terapeuta: o que sobre a que é sobre a sociedade que decepciona tanto?

Elliot: Não sei... Talvez que pensamos que o Steve Jobs era um grande homem, quando ele sabia que ganhava bilhões nas costas de crianças? Ou talvez porque parece que todos nossos heróis são falsificados. O mundo inteiro é só um grande boato. Assediando uns aos outros com comentários imbecis disfarçados de opiniões, e as mídias sociais que fingem promover intimidade. Ou será porque votamos nisso? Não através de eleições fraudadas, mas com nossas coisas, propriedades, nosso dinheiro. Isso não é novidade. Sabemos por que fazemos isso. Não porque "Jogos Vorazes" nos fazem felizes, mas porque queremos ficar sedados. Porque é doloroso não fingir, porque somos covardes. Foda-se a sociedade.

E neste episódio tivemos outro destes casos.

MINHA NOSSA SENHORA DOS HACKERS, o que foi aquele discurso sobre religião? BERROS E MAIS BERROS! Eu estava urrando. Sério, comemorei tanto quanto comemoro gol do Grêmio em Grenal. Cada frase era um verdadeiro soco. 

"Estou falando de todas as religiões organizadas. Grupos exclusivos criados para controlar. Um traficante fazendo as pessoas se drogarem na esperança. Seus seguidores são viciados que querem sua dose de mentira para manterem sua dopamina de ignorância. Viciados com medo de acreditarem na verdade, de que não há ordem."

Era a realidade crua e esfregada, em todas suas contradições e hipocrisias. 

"É isso que Deus faz? Ele ajuda? E as inúmeras guerras declaradas em nome Dele?"

PAH! PAH! PAH!

"Que tal a sopa de fobia racista e sexista em que estamos nos afogando por causa Dele?"

Sem trocadilhos, ele vomitou verdades que ninguém, especialmente em um encontro de igreja, gostaria de ouvir. E é bacana que em Mr. Robot é a não-existência do meio termo: ele critica religião em plena igreja.

No mais, tivemos cenas fortes, como a do vômito que retrata claramente a que ponto Elliot estava disposto a chegar e o quanto ele repele e detesta Mr. Robot. Apenas uma observação aleatória: quando ele fala que não será propriedade de ninguém ("I will not be owned"), só lembrava daquela música do Clube das Desquitas, "You Don't Own Me", que inclusive é parte da trilha do Esquadrão Suicida. Além disto, acho que foi a primeira vez que vejo Elliot sorrindo e realmente conversando, não fazendo disto um sacrifício. O que foi bem creepy. E ilusório, como não poderia deixar de ser.

Por fim, falar "não viaja" não se aplica a Mr. Robot. Todas as "viagens" são possíveis. Nada é exagero.

Sei que foi atrasado, mas foi com amor =*


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