Mais Cinema - She’s Beautiful When She’s Angry (2014)

Por Ana Carolina Teles

12 de julho de 2016



Esse belo documentário que está disponível na Netflix (já ajuda bastante, né?) é uma representação de um movimento essencial que tem seus primórdios no século 20, na Inglaterra. Mas aqui, o feminismo é enquadrado em seu auge, nas décadas de 60 e 70, nos EUA. Enfocando as premissas básicas: a liberdade da mulher (seja mental ou física) e a igualdade de gênero em uma sociedade completamente machista, a produção demonstra a crescente de uma organização revolucionária liderada por mulheres questionadoras e exaustas de tanto abuso psicológico e físico exercido desde seus antros familiares quando pequenas, bem como quando, enfim, crescem e se comprometem com maridos e filhos.


O doc. é bastante extenso em suas análises. Percebe-se logo de início a segregação que ocorre dentro do movimento – algo que ainda prevalece nos dias de hoje –, “negras x brancas”; “lésbicas x heterossexuais”, por exemplo. Nessa tentativa incessante de construir uma revolução política contra o governo – bem como contra os homens que o controlam, e, com freqüência, contra os próprios pais, irmãos e maridos – muitas vezes, as peças internas também se atritavam seriamente, o que é recorrente quando há aglomeração de mentes humanas em prol de uma só causa, pois sempre irão surgir meios distintos para se alcançar determinado fim.

A liberdade sexual feminina também se encontra como ponto principal – até hoje, afinal. A verdade é que, quando se vivenciava gravidezes indesejadas em 1960, o que fazer além de ter um filho e exercer o tal instinto materno que tanto pregam que todas as mulheres possuem? Como se demonstra, a busca pelo aborto ilegal – pois naquele momento ainda não era legalizado no país em questão– era constante e, mulheres ajudaram mulheres a se ajudarem, repetidamente. “A união faz a força”, diz o apelo popular. Infelizmente, em um Brasil cercado por religiosos fundamentalistas nas bancadas políticas em pleno séc. XXI, as mulheres ainda sofrem para serem tratadas com o devido respeito.
A compilação de imagens absurdamente polêmicas e essenciais para o feminismo permitiu a diretora, Mary Dore, estancar as divergências do mesmo, demonstrando a sua construção naquele momento da história, onde a luta é/era diária e dolorosa. Percebe-se, logo, que o principal instrumento de embate é a concepção que se um de nós não tem os mesmos direitos, nenhum de nós tem direitos, enfim. 

Mas, é evidente como há um receio tremendo dos homens em se fazerem entender da essencialidade deste fato. Inúmeras vezes mostra-se, em tela, a resistência que muitos apresentam às mulheres ao seu redor e, ajudam, proporcionalmente na imposição do sexismo/machismo com palavras e atitudes. Também é bem claro que outras mulheres, por medo ou falta de esclarecimento e desconstrução mental/social, acabam reproduzindo o machismo por medo da não aceitação ou até mesmo da rejeição que se prega quando uma mulher se impõe e não se submete a nada se não for de sua própria vontade.

Esse documentário cru e realista te faz emergir em uma história que ainda está sendo contada, dia a dia, nas ruas, nos trabalhos, nas casas de cada família espalhada pelo mundo. A luta pela equidade de gêneros é arcaica e se percebe cada vez mais latente no coração de cada mulher que não suporta a maneira injusta de como são vistas, objetificadas e subestimadas. Nestes 92 minutos, com destreza, podemos entender um pouco do que se trata todo esse movimento que se desdobra tanto na atualidade, e, também, a questioná-lo para chegar a conclusões próprias sobre a grandeza de sua importância.


Esse texto foi escrito por: Ana Carolina Teles
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