Por Dentro do Roteiro - Flashforward

Por Bruna Horta

19 de maio de 2016

Como disse no primeiro texto da coluna, o objetivo aqui é apresentar conceitos e elementos técnicos de roteiro e narrativa, de forma mais leve e contextualizada com filmes e séries. No texto anterior, expliquei o que é Flashback e algumas funções ao inserí-lo em uma história. E como são conceitos opostos, mas com muita confusão entre si, hoje o tema é Flashforward.

Comum na literatura e chamado por lá de prolepse, o flashforward é a antecipação de um acontecimento posterior na narrativa. Depois, a história continua e em algum momento é retomada a mesma cena, mas agora completa. Nessa hora, compreende-se que a primeira aparição era um flashforward. Ao contrário do Flashback, ele tem menos formas de utilização, na verdade duas: instigar ou confundir o espectador (se lembrarem de mais alguma, me contem please). 

PARA INSTIGAR
É o mais comum e pode ser usado de duas formas. Na primeira, são dadas pistas vagas sobre algum acontecimento que só será mostrado posteriormente. Por exemplo, os 4 episódios da 2ª temporada de Breaking Bad, nos quais vemos o ursinho rosa boiando na água, depois Walt retirando-o da piscina, peritos recolhendo objetos na casa do Mr. White e só no último descobrimos que foi a queda do avião o motivo de tudo isso. Se analisarmos mais profundamente, a mensagem que Vince Gilligan quer passar é a de que suas ações voltarão de alguma forma contra você. Walt deixou Jane engasgar e morrer com o próprio vômito. Sua morte afetou o pai da jovem, que era controlador de avião e provocou o choque das aeronaves. Os destroços caindo na vizinhança e no quintal do protagonista são o reflexo disso. Ao contrário dos flashforwards instigantes e misteriosos, os roteiristas tentaram nos contar explicitamente mas de outra maneira, qual seria o grande evento. Se juntarmos os nomes dos 4 episódios, lemos: "737", "down", "over" "ABQ" (Albuquerque é o nome da cidade) (Tradução: 737 para baixo sobre Albuquerque). Incrível, não? Agora comparem o ursinho com a morte de Gus Fring... Não é exatamente um flashfoward, mas sim uma pista do que aconteceria.


Na segunda forma, revela-se qual é o acontecimento, mas suas circunstâncias são omitidas. Um exemplo claro foi no início da 4ª temporada de Arrow, na qual vemos que um personagem está morto, há um velório, uma conversa e pedido de desculpas entre Oliver e Barry. Sabemos o fato: alguém morre, mas não sabemos nada além disso: quem, como, por que, por quem, etc. A revelação só veio no episódio 19, mas até chegar nele todas as teorias já tinham sido criadas. Particularmente, acho o primeiro caso mais forte e potente, é uma revelação maior e mais bem construída do que a segunda forma.

PARA CONFUNDIR
Muito usado em filmes com narrativas não lineares, como "Amnésia" e "Efeito Borboleta", mas não tão comum em séries televisivas. Não há indicações temporais nas transições de corte justamente para esconder, confundir e não entregar de cara o que virá. E então voltamos a falar de Lost. A série costumava apresentar somente flashbacks, mas no episódio duplo finale da 3ª temporada, o espectador ficou confuso. Parecia ser uma lembrança, mas na verdade estavam introduzindo a linha narrativa pós-ilha. Jack encontra Kate, relata o bilhete dourado, as viagens que faz toda semana só para ver se cairia novamente e por fim, pede para retornarem à ilha. Neste momento a confusão na cabeça do espectador é desfeita e descobrimos que os dois conseguiram voltar para a civilização. Esse foi um marco da série, que a partir daí fez isso mais 14 vezes e introduziu também o flashsideways (não sei de outros exemplos, por isso não farei um texto só dele). Esse conceito seria uma narrativa paralela aos acontecimentos cronológicos, um universo alternativo dos personagens, que em Lost é o "mundo espiritual" dos mesmos, após suas mortes.

AS EXCEÇÕES
Expliquei acima as formas do flashforward instigando e confundindo o espectador, mas encontrei essas duas exceções que não se encaixam em nenhum dos casos.

Better Call Saul é o spin-off de Breaking Bad, mas se passa 5 anos antes da história na série de origem. Em sua última temporada, Saul e Walt se encontram quando vão trocar suas identidades, e o advogado vislumbra que nessa nova vida o máximo que irá conseguir é a gerência de uma rede de fast food. No primeiro episódio do spin-off, vemos (em preto e branco) a cena de Saul no futuro, trabalhando nesse exato lugar. O tratamento sem cor pode até parecer flashback, mas sabemos se tratar de um evento pós Breaking Bad. O significado da cor seria então o sentimento que o personagem está levando sua vida. Ela é sem graça, sem cor e o uso do flashforward não é para instigar nem confundir, é para confirmar algo e também comparar o personagem. A tensão dramática proporcionada por esse recurso, nos provoca tristeza, ao vislumbrarmos que esse é realmente o fim do nosso advogado preferido.
A outra exceção está na dificuldade de se colocar em sequência um flashforward seguido de flashback. A cena inicial de Cidade de Deus é um acontecimento do fim do filme, no qual Buscapé fica entre a polícia e o bando do Zé Pequeno. E corta, para ficarmos na expectativa do que ele decidiu fazer, mas ao invés de ir para o presente, em outro momento qualquer, a narrativa regressa (na clássica girada 360º) e vemos o Buscapé criança. Magnífica emenda de dois recursos narrativos... tão diferente que não me recordei de outra assim.
É isso, pessoal. Espero que não tenha confundido muito a cabeça de vocês. Qualquer dúvida ou sugestão de tema, comentem por favor! Até o próximo texto!

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