Por Dentro do Roteiro - Cliffhanger

Por Bruna Horta

30 de maio de 2016

Já que falamos de dois recursos narrativos muito comuns, o Flashback e o Flashforward, vamos a um outra ferramenta encontrada nas histórias literárias e audiovisuais: o Cliffhanger

Com a tradução literal de "à beira do abismo", o cliffhanger é quando o personagem está em uma situação limite, um grande conflito e há a omissão do desfecho. Este lapso temporal, causa um suspense narrativo que pode variar entre dias, meses ou até anos, e só é revelado posteriormente. Recurso iniciado na literatura, temos o grande exemplo Sherazade das As Mil e Uma Noites, na qual ela enrola o final da história por todo esse tempo, contando um pouquinho de cada vez. As histórias em quadrinhos (e seus derivados desenhos de animação) também utilizam-no, ao deixar a frase (já bem conhecida): "to be continued", ao final da história ou dos episódios. 

FIDELIZAR 
O cliffhanger nas novelas é o clássico: cenas dos próximos capítulos. Quando este acaba num corte no meio de alguma cena, deixa o espectador se perguntando "já acabou?", com aquele gostinho de quero mais. Não são grandes suspenses e sim uma forma de reforçar o vício das pessoas, como pequenas curiosidades para que elas retornem diariamente. Muitas novelas até congelam o frame da cena para aumentar a carga dramática. Ao contrário do que muitos pensam, o conflito de "quem matou fulano" iniciado em algum ponto da história e postergado por outros capítulos é um recurso diferente, chamado de Quem matou?, Whodunnit ou Who Done It. 

AGUÇAR A CURIOSIDADE 
Muito usado nos filmes, quando se tratam de continuações ou sagas. Sua função é gerar uma expectativa para o próximo, gerando curiosidade em assistí-lo, nos fazendo pensar "mas e agora?". Normalmente, são suspenses intermediários, aqueles que te deixam com uma pulga atrás da orelha maior que nas novelas, mas você consegue levar sua vida normalmente sem ficar remoendo o assunto. 

ENLOUQUECER OS FÃS 
  
Ao contrário dos dois tipos anteriores, o cliffhanger nas séries é feito para torturar as pessoas. São cortes temporais cruéis, no clímax dos conflitos… seja no meio de uma cena muito importante ou antes de alguma revelação. Pode ser de um capítulo para o outro ou de uma temporada para a outra, e aí ficamos noites sem dormir, curiosos para o que virá a seguir ou sofrendo por meses até descobrir o que realmente aconteceu. O recurso deve ser usado com inteligência e parcimônia, para não desgastar a revelação a partir das teorias que os fãs criarão... mas posso afirmar que o cliffhanger é uma estratégia que angaria mais fãs. 

Alguns exemplos de cliffhangers entre temporadas foram: 
- A morte de Jon Snow na última cena do último episódio da 5ª temporada de Game of Thrones. Tido como um dos protagonistas, o choque foi muito grande e as teorias se ele morreu ou não, se iria ressuscitar ou não, inundaram a internet por quase um ano. 
- A omissão de quem Neegan matou no último episódio da 6ª temporada de The Walking Dead ainda está no ar, e os fãs estão enlouquecendo imaginando qual dos seis será o escolhido do uni-du-ni-tê. 
- A descoberta que seu irmão é um serial killer, ao vê-lo matando um cara dentro da igreja no último episódio da 6ª temporada de Dexter. Imaginar o que aconteceria na relação entre irmãos, principalmente porque Debra é tenente da polícia, foi uma espera angustiante.

ESTRATÉGIA NARRATIVA 
Não poderia deixar de citar How I Met Your Mother, a série de comédia que teve sua premissa pautada no cliffhanger, talvez o maior já visto em toda televisão. Por NOVE temporadas ou seja, nove anos, o pai foi desenvolvendo sua prosa com os filhos sentados ao sofá para finalmente revelar quem era a mãe deles. É uma escolha arriscadíssima, que deve ser cheia de viradas, enganando sempre o espectador para que o suspense perdure até o final… e HIMYM fez isso com maestria! 

Quando forem assistir suas séries favoritas, reparem em como o cliffhanger é um recurso muito usado e pouco compreendido como estratégia de roteiro. Alguém lembra de algum exemplo além dos que citei? Comentem e até o próximo texto!
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