Feminismo Em Série: Unbreakable!

Por Marcela Virães

30 de maio de 2016

Inicialmente, o texto dessa semana não seria sobre essa série (ia ser sobre Agent Carter, que foi cancelada, mas não se preocupem, VAI TER TEXTINHO PRA PEGGY SIM), mas devido à acontecimentos recentes durante os últimos dias, acabei mudando de ideia. Unbreakable Kimmy Schmidt é uma série de comédia do netflix que trata sobre a vida de uma jovem que havia sido sequestrada e mantida num abrigo por 15 anos por um homem que, na série, é chamado de “reverendo”. Kimmy é uma menina bem diferente e bem fora dos padrões, forte e determinada, sempre atrás de superar e viver sua vida para além dos problemas e em correr atrás do seu tempo perdido, muitas vezes demonstra, também, comportamentos considerados infantis o que pode, ou não, evidenciar um de seus muitos traumas devido ao longo período em que esteve presa e sofrendo abusos. 

Por ser uma série de comédia, suas críticas vêm camufladas no humor que Unbreakable Kimmy Schmidt usa para tratar sobre um assunto de grande atualidade e importância na sociedade em que vivemos. A história de Kimmy parece ser baseada em diversas outras que já vimos na mídia, isso porque a banalização do abuso contra crianças e mulheres já se tornou algo tão comum que chegou ao ponto de existirem tantos casos que nem se quer mais conseguimos diferenciá-los ou nos chocarmos com eles, violência contra mulher e crianças se tornou algo normal e uma rotina na nossa realidade. 

Recentemente foi lançada a segunda temporada da série, que não me agradou muito e, por isso, demorei algumas semanas pra conseguir terminar, mas aqui estou eu, enfim finalizada, uma salva de palmas pra mim por favor (HAHA). Cheguei no final da série nesse último sábado, coincidentemente, poucos dias depois da divulgação do caso do estupro coletivo de uma jovem de 16 anos do Rio de Janeiro que gerou toda uma mobilização e campanha pesada nas redes sociais. O que me fez usar a palavra “coincidentemente” foi o fato de que, no último episódio, há uma cena em que a Lisa Kudrow (YAY), que interpreta a mãe da Kimmy, tem uma fala que me remeteu diretamente os acontecimentos da semana. Na cena estão Kimmy e Lori-Ann (a mãe, ok?) numa montanha russa, onde Kimmy finalmente cria coragem pra enfrentar seus problemas e as duas acabam entrando numa DR bem intensa, onde Lori-Ann ao se defender fala sobre as acusações machistas que teve que ouvir quando sua filha tinha desaparecido, sendo culpada por ser uma mãe ruim pela maneira que se vestia e por seu comportamento não típico de uma “mãe aceitável” para a sociedade, quando o único a ser culpado deveria ter sido o agressor. Ela fala “um homem te sequestrou e te prendeu. Homens continuam fazendo isso todos os dias, de todos os jeitos, quando é que vamos falar sobre isso, mundo? Eu não machuco crianças e mulheres não estupram” e logo após esse quote ela é respondida (sim, por um homem) com o famoso “not all men” que tanto ouvimos durante essa semana e que já estamos cansadas, e foi isso que basicamente me fez escrever sobre essa série nessa semana.
Mulheres são generalizadas de maneira pejorativa todos os dias, “mulher é louca”, “mulher não sabe dirigir”, “loira é burra”, “lésbica não encontrou o homem certo”, por que homens não podem ser? Por que sempre que homens são generalizados de alguma maneira ruim alguém sempre corre em defesa e quando somos nós, mulheres, ninguém aparece? TRINTA E TRÊS homens estupraram uma menina e nenhum deles questionou o que estava acontecendo. TRINTA E TRÊS. Isso é extremamente preocupante, revoltante e entristecedor ao mesmo tempo. São diversos sentimentos que surgem no coração de meninas ao redor do mundo após lerem notícias como essas e perceberem a grande opressão que sofremos, o medo que sentimos todos os dias, crianças, adolescentes, adultas, todas vivemos num medo constante. Por esse, e outros motivos que dizemos que todo homem é sim um abusador em potencial, é como dar um role na floresta com um urso, todo urso ataca seres humanos? Não, mas a maioria sim, então todo urso é uma ameaça em potencial até que os conheçamos e aí se prove o contrário. Vi essa tentativa “suave” de explicação no facebook sim e achei bem ilustrativa, inclusive. Mas, voltando. Em situações de opressão, a generalização é permitida sim.

Outro tópico que a série também aborda é a culpabilização da vítima, não só pelo lado da Kimmy (durante a primeira temporada) mas também com a mãe dela, quando é acusada por repórteres e pela mídia. Mais uma vez insistem em culpar qualquer coisa, menos o homem, o agressor: algo que, pra variar, aconteceu bastante também com o caso do RJ. “Ah, ela facilitou”; “Ah, ela pediu”; “Ah, mas ela já participou de orgias?”: tudo sobre a vítima, nada sobre os agressores, os estupradores, os homens. Sempre a mulher. Não é a roupa que usamos, a maneira que nos comportamos, com quem nos relacionamos, o que comemos, o que dançamos, como falamos, por onde andamos ou se quer quem somos: NENHUMA MULHER MERECE SER ESTUPRADA OU SOFRER QUALQUER TIPO DE ABUSO. Homens estão sempre tentando demonstrar poder e dominância através da violência contra a mulher, seja física ou emocional, seja com atitudes pequenas e cotidianas ou com situações mais violentas e chocantes. Estupro não é sobre sexo, não é excesso de libido, é sobre poder, é sobre estabelecer dominância, fazer simplesmente por achar que PODE. Chegamos ao ponto de que para merecermos algum respeito precisamos ser parentes de alguém? Será que não merecemos respeito pelo simples fato de sermos seres humanos? Acho que a nossa sociedade anda precisando urgentemente repensar a sua postura patriarcal, machista, misógina e opressora. 

Enfim, o texto terminou não sendo tanto sobre a série em si, me perdoem, mas serviu pra mostrar que, às vezes, algumas séries, mesmo que a gente não perceba, podem acabar sendo mais atuais do que imaginávamos, seja por coincidência ou não. Digo isso porque, talvez, se eu tivesse assistido essa cena em outra semana, não tivesse mexido tanto comigo à ponto de me fazer escrever um texto sobre ela, né? Mas enfim, o intuito é sempre trazer um pouco de reflexão para aqueles que querem, claro, e mostrar que mais uma vez a TV, e a mídia em si, são sim um reflexo da nossa sociedade. Infelizmente existem milhares de Kimmys e Lori-Anns espalhadas pelo mundo, infelizmente todas podemos nos tornar elas um dia, infelizmente vivemos nesse constante medo e angústia, infelizmente não somos livres. Mas juntas podemos nos tornar Unbreakable! Ok, fui bem infeliz no trocadilho, foi bem ruim mesmo (às vezes acontece quando tento ser engraçadinha), mas espero que tenha valido a intenção, né? 

Por fim, faço a única coisa que posso fazer no momento: deixo aqui o meu carinho, o meu coração e todo o meu apoio com todas vocês que já passaram por algum tipo de violência, algum tipo de abuso. Sei que não vai fazer melhorar, sei que não vai apagar, mas você não tá sozinha. Que ecoe: A culpa não é da vítima! ELES NÃO PASSARÃO! #PeloFimDaCulturaDoEstupro
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