Cinema Em Foco: O Dualismo Ferrenho - Marvel/DC

Por Jaqueline Buss

8 de maio de 2016

Que época incrível para se viver, querido leitor! Só em 2016 as salas de cinema já apresentaram um incrível Deadpool, um quase satisfatório Batman vs Superman e uma excelente Guerra Civil, nos prometendo ainda algo de bom na sequência de X-Men, algo grandioso de World of Warcraft, algo insano de Esquadrão Suicida, algo mágico de Doutor Estranho e algo R2-D2 de Rogue One (o melhor personagem da saga merece virar um adjetivo sinônimo de magnífico). Mas... o sucesso de um precisa depender do fracasso de outro?

A internet é inegavelmente alimentada pela necessidade de discordância e dualismo, se for fã da DC Comics, que ultraje elogiar um filme da Marvel, e vice-versa, sendo quase utópico um compartilhamento de ideias e gostos que não envolva rudes palavras de desavença. O que me motivou a escrever esse texto é a atual conjuntura, deixando de lado os filmes das décadas anteriores, da intriga entre Capitão América - Guerra Civil e Batman vs Superman, que destaco aqui ser levada adiante por espectadores que aparentemente não tem maturidade para reconhecer propostas distintas e abordagens diferenciadas.

Por que a comparação direta e de mesmo peso é infundada? Permita-me construir meu argumento...
A Marvel vem desde 2008, com o primeiro filme solo do Homem de Ferro, e até mesmo antes, com a aparição de Tony na cena pós-crédito de Hulk, moldando seu universo com longas e profundas tomadas de fôlego. Não há pressa nenhuma no estúdio que parece ter entendido como o cinema de adaptações funciona. Obviamente tropeçou algumas vezes, como no filme solo do Thor, apresentando um roteiro digno de sessão da tarde, porém acertando em cheio no primeiro filme dos Vingadores.

O ponto em comum alcançado pela jornada que perdura por praticamente uma década, além das maravilhosas participações de Stan Lee, é o desenvolvimento dos personagens. Com holofotes a todo vapor, seja nos filmes solos de Homem de Ferro, Thor e Capitão América, seja nas sutis introduções de Viúva Negra e Gavião Arqueiro, que crescem ao avançar da cronologia, mesmo quem nunca se entregou ao prazer absoluto de ler uma história em quadrinhos é capaz de dizer quem são esses seres e de onde eles vieram. E digo mais: são capazes de se importar com eles e de formar filas horas antes das portas das sessões se abrirem quando um novo capítulo chega aos cinemas.

Com a coesão vem a fidelidade. Acreditamos em Guardiões da Galáxia porque estávamos familiarizados com as peripécias da Marvel e sabíamos o que esperar. O estúdio sabe conectar tramas distintas em universos compartilhados entregando, para o fã, as referências que lhe trazem um sorriso no rosto, e para o leigo, duas horas de puro entretenimento. Chegamos num ponto em que o público em geral espera ver Thanos no terceiro filme dos Vingadores e sabe o que os levou até ali, ele viu as jóias nas obras anteriores, ele sabe corretamente citar a Manopla do Infinito, e ele estará novamente na fila.
Li muito mais DC, e aqui incluo Vertigo, do que Marvel na minha vida. Fui para o universo dos quadrinhos pelo Morcego de Gotham e fiquei por obras como A Piada Mortal, Watchmen e Sandman. A Marvel me conquistou no cinema pelo humor certeiro, como em Homem de Ferro, pela construção política do enredo, como no primeiro Capitão América, e pela magnificência de uma equipe em Vingadores, me levando então aos quadrinhos pela curiosidade. A DC, por outro lado, sempre teve minha atenção pela profundidade dos arcos com os quais estive em contato, e pelo Coringa, pra mim um dos maiores personagens já construídos desde que a tinta tocou o papel pela primeira vez.

Onde eu quero chegar com isso é o mais próximo possível da imparcialidade. Espero ter sido clara enquanto minha neutralidade em decidir qual deve ser elencada como a “melhor editora” ou o “melhor estúdio”, pois acabam se misturando. A construção do Batman na trilogia do Nolan é digna de ser colocada na linha de frente como uma das melhores adaptações de quadrinhos já feitas, e sabe por qual motivo, amigo leitor? Pela calma. Bruce Wayne e seus coadjuvantes, que ora tornam-se protagonistas, tem tempo de tela para se desenvolver e fazer com que nos importemos com eles, principalmente no segundo filme da trilogia.

Em Batman vs Superman, e aqui eu preciso evocar um pequeno SPOILER, a maior equipe de super-seres de todos os tempos, A Liga da Justiça, é introduzida em um e-mail de Bruce para Diana, o que acho imperdoável. AH! Que saudade das cenas pós-crédito da Marvel, da sutileza e impacto com os quais novos heróis aparecem. Pantera Negra e Homem Aranha fizeram em poucos minutos o que BvS não fez nas suas mais de duas horas: conquistaram empatia e carinho.
Por outro lado, para elencar o grande trunfo do mais recente filme da DC, Mulher Maravilha e Batman estão dignos de respeito em sua imponência. Revisitamos Bruce Wayne e nos é apresentado o necessário de Diana, certeiramente trazidos à cena, enquanto Superman, que dispensa apresentação por seu filme solo anterior, é envolto em novos dilemas que fazem sua história avançar enquanto conecta-se com os outros dois componentes da maior trindade da ficção. Não odeio BvS ou o universo cinematográfico da DC, odeio o atropelamento com o qual foram trazidos Flash, Ciborgue e Aquaman numa trama que deveria focar no confronto dos dois gladiadores e suas consequências e que acabou por deixar um amargo ao evocar a memória de como os vimos pela primeira vez. Por mais que Thor tenha um primeiro filme ridículo, a cena pós-crédito de Homem de Ferro 2 que mostra seu martelo localizado pela S.H.I.E.L.D. traz boas memórias ao relembrarmos sua origem no UCM. A DC ainda precisa trilhar a passos curtos o caminho cinematográfico que a Marvel já transita correndo. 

Para não lhe alugar mais neste ranzinza desabafo, deixo a mensagem de que no fim do dia o que realmente importa é ser sugado para um mundo novo, com enredos e personagens para todos os gostos, e saber apreciar sem fechar-se para novidades ou argumentar sem faltar com respeito. Num ano em que até os super-vilões estão salvando o dia nas telonas, não sejamos exceção. 

E lembrem-se: coração de fã é como o de mãe, sempre cabe mais um.

Esse texto foi escrito por: Jaqueline Buss
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