Feminismo Em Série: (B)eing (I)n (T)otal (C)ontrol of (H)erself

Por Marcela Virães

4 de abril de 2016

Quem já assistiu Don’t Trust The B in Apartment 23 (ou só Apartment 23, como eu prefiro chamar) e não gosta da Chloe? Ninguém, certo? Quer dizer, sempre tem alguém do contra então aqui vai o recadinho: se você é essa pessoa, se retire, pois, você está louco ou louca! Ok gente, eu estou só brincando, calma, mas como não gostar da Chloe? Ela é divertida, autêntica, decidida, confiante, bem resolvida consigo mesma, sabe o que quer e vai atrás disso. Diversas qualidades que muita gente pode confundir com defeitos quando são aplicadas à mulheres, o que me lembrou um episódio recente de Supergirl onde a Kara é envenenada e incorpora uma personalidade de mean girl e uma de suas características é que ela se tornou confiante, coisa que a personagem normalmente não é, e isso foi mostrado como um efeito ruim do envenenamento, mas, como já diria a Demi Lovato, “what’s wrong with being confident”?

O problema em relação a personagens como a Chloe é que elas são vistas de maneira ruim pelas pessoas por não seguirem os padrões instituídos socialmente às garotas, personagens femininas como a Chloe, que exercem sua sexualidade sem medo, tem confiança em si mesma e sabem o quanto e onde podem chegar, são constantemente antagonizadas por roteiristas e fãs, sempre tendo que ter a outra personagem que é considerada a influência certa para os jovens que estão assistindo, aquela que é sempre a certinha e segue os padrões impostos, se comportando da maneira que, supostamente, todas as personagens femininas e mulheres da sociedade devem se comportar. No caso de Apartment 23, para contrapor com a Chloe, temos a June. Enquanto a Chloe é festeira, sai com vários homens, bebe, usa roupas curtas e justas, faz sexo com pessoas diferentes e sem pudor nenhum, é confiante em si mesma, não é nem um pouco tímida ou recatada, é bem resolvida e determinada a June é o completo oposto disso tudo.

June é uma menina do interior que vai para Nova York por conta de um trabalho, que acaba perdendo ao chegar na cidade, e termina indo dividir apartamento com a Chloe e aí sua vida vira de cabeça pra baixo. June passa a ter experiências de vida que nunca tinha tido antes e vai se transformando numa garota completamente diferente daquela que chegou no apartamento 23. Sua amizade, um pouco conturbada, com a Chloe faz ela quebrar com vários preconceitos encrustados nela durante toda sua vida, como, por exemplo, a questão de todo o tabu em relação ao sexo que existe para garotas na nossa sociedade, aquela famosa ideia errônea de que só homens gostam de sexo e meninas são proibidas de falar sobre o assunto e, caso falem, são taxadas como “vadias”, bem como a personagem da Chloe é vista na série pelos seus vizinhos e pela própria June antes de ser desconstruída pela convivência com a amiga.
A personagem ainda é tida como a “certinha” na série porque, apesar de quebrar com muitos de seus estereótipos, não abandona todas suas crenças e a educação que teve ainda se faz muito forte, o que é muito interessante e mostra o quanto é difícil uma desconstrução completa de uma pessoa ao mesmo tempo que reforça que não existe “um tipo certo de comportamento” a ser adotado por meninas, ao não destruir completamente com a personalidade inicial da June e não transformá-la num clone da Chloe e ir desconstruindo certos aspecto aos poucos e ainda assim manter uma amizade forte entre elas passa, pelo menos para mim, uma mensagem meio que “tudo bem ser certinha, tudo bem ser festeira, não precisa de rivalidade, não tem certo ou errado, você pode ser o que quiser ser”, algo que eu gostei muito de sentir como parte do público feminino da série, conforta os diversos tipos de meninas que assistem e que possam se identificar com a Chloe e, ao já serem julgadas constantemente pela sociedade, podem encontrar um leve conforto com essa ideia que o seriado parece transmitir.

Agora, não posso deixar de falar de um ponto muito importante que essa série nos dá a oportunidade de abordar: O tabu do sexo e o Slut Shaming. A Chloe é  uma personagem extremamente problemática de acordo com os valores sociais que são estimados atualmente e por isso se tornou uma clara vítima do famoso slut shaming, onde meninas, ao exercerem sua sexualidade, passam a ser inferiorizadas e desrespeitadas pelas pessoas que veem esses comportamentos como “errados”, sendo esses ligados, na maioria das vezes, à questão do sexo, como por exemplo, ao fato de que por ser uma mulher ela, supostamente, não deveria ter relações com diversos homens, mesmo que ela realmente queira e se sinta bem com isso, isso é socialmente inaceitável para uma mulher no nosso mundo, uma mulher que passa a ideia de que também gosta de sexo e que se sente livre para fazê-lo é extremamente julgada na nossa sociedade. Isso é tratado e criticado na série em um dos episódios onde, por viver com a Chloe, a June passa a ser chamada de “vadia” por seus vizinhos que não consideram a Chloe “digna” de socializar com eles e passam a classificar a June da mesma maneira apenas por associação. O interessante disso é que mostra o quanto as pessoas julgam e estigmatizam mulheres que exercem suas sexualidades sem medo e sem pudor, e a força dessa opressão se torna evidente quando amigos dessas pessoas passam a ser julgados da mesma maneira apenas por serem amigos, é como se essas mulheres não pudessem se quer fazer parte de um ciclo social e devessem viver à margem da sociedade. Personagens como a Chloe servem para mostrar que não existe apenas um tipo de garota e que garotas que não se encaixam nesse “tipo” previamente estipulado também não estão erradas. Meninas são livres para serem da maneira que quiserem e não devem ser julgadas por isso.

Como foi dito pela nossa queridíssima Krysten Ritter em uma entrevista, “Bitch”, o famoso xingamento usado diversas vezes para se referir a Chloe, “stands for Being In Total Control of Herself”. Então meninas, se vocês ouviram ou ouvirem isso algum dia em suas vidas, lembrem dessas sábias palavras, afinal, mulheres também gostam de sexo, mulheres também fazem sexo e não devem se sentir ou serem intimidadas por falarem ou agirem de acordo com esse pensamento, deve-se respeitar a liberdade sexual de uma mulher da mesma maneira que é respeitada a de um homem. Não importa se você faz o tipo “certinha” ou o tipo “festeira”, não importa se você é a June ou a Chloe, todas merecem o mesmo respeito!

Esse texto foi escrito por: Marcela Virães
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