Cinema Em Foco: Capitão América - Guerra Civil

Por Jaqueline Buss

30 de abril de 2016


Não é novidade, nem de tempos recentes, que a Marvel, com total tranquilidade, explora novos aspectos de histórias já consolidadas nos quadrinhos com a finalidade de criar um universo cinematográfico coeso, o que nem sempre gera bons frutos. Em Thor (2011), temos uma superficialidade só quebrada pelo carisma do vilão; em Homem de Ferro 3 (2013), o roteiro bagunçado e as justificativas narrativas são ignoradas posteriormente e Mandarim é ridicularizado; em Era de Ultron (2015) o próprio diretor admite sua falha, apesar de eu particularmente achar menos problemático que os exemplos citados anteriormente. Mas agora, querido leitor, abro o diálogo dizendo que o tiro foi certeiro e que lhe justificarei esse posicionamento numa jornada SEM SPOILERS, mas com a devida empolgação que o longa no qual vos falo merece.


Antes de qualquer coisa, pontuo aqui que Capitão América: Guerra Civil (2016) não é um Vingadores 2.5 ou mesmo um Homem de Ferro 4, como a internet vem temendo nos últimos meses, mas um excelente Capitão América 3, como bem proposto pelo título e divulgação do filme. Engana-se quem conclui, no entanto, a partir da afirmação anterior, que a Guerra Civil, ou os arcos secundários são mal desenvolvidos. Steve Rogers protagoniza o roteiro e está, de alguma forma, influenciando ou participando da totalidade de acontecimentos, seja por sua intervenção direta ou por seu posicionamento político, sendo esta a razão para seu destaque.
Guerra Civil é um arco importante para o Universo Marvel como um todo, estendendo-se nos quadrinhos por todos os heróis da editora, e a essência política aparece muito clara na adaptação para as telonas. A luta perpassa os âmbitos político, físico e psicológico, e apesar de simplificada e resumida, por motivos óbvios, cumpre muito bem a função de mostrar a tensão e as consequências de se posicionar a favor ou contra o registro. Em síntese, o antagonismo acontece quando o governo decide impor limites à atuação de seres com habilidades especiais e parafraseando as falas do filme “decidir quem deve atuar em cada situação, tornando criminoso quem agir sem autorização direta”.

Sou declaradamente contra a Lei de Registro, ou como tratado no cinema, Acordo de Sokovia, mas tento aqui uma análise apartidária, até porque o próprio roteiro alcança isso ao limitar-se em expor os pontos de vista sem eleger vilões ou mocinhos. Há fundamento para Stark assinar da mesma forma que há motivação o bastante para Rogers recusar-se. 

Se você está a par dos trailers e do material lançado, pode parecer que Bucky é o grande estopim do conflito, onde Steve parte em defesa do amigo, mas no avançar dos minutos em tela, temos uma bola de neve crescente que balança as motivações de ambos os lados ao apresentar causalidades e personagens que complexificam a luta. Subjetividade declarada, para mim ficou claro o quão prejudicial Tony Stark se tornou para os Vingadores como um tudo e para o mundo, mas sinta-se livre para discordar, afinal os direitos dos civis estão na linha de fogo. 
Pantera Negra ganha uma introdução que explica seu contexto, origem e habilidades, mas a grande dúvida do filme é uma: PETER PARKER (a.k.a Homem Aranha). Tom Holland declarou em entrevistas tentar fugir da sombra dos intérpretes anteriores e tirar deles somente o necessário, sem ser mais do mesmo. É inegável a responsabilidade de ser o terceiro amigão da vizinhança em um intervalo tão curto de tempo, mas o jovem nos presenteia com um Peter Parker certeiro e um Homem Aranha tão excelente quanto. Tobey pode ser para alguns paspalhão demais (o que discordo, mas não entremos nesse mérito) e Andrew descolado e “Starkiado” demais (o que concordo completamente), mas Tom é um meio termo extremamente carismático e convincente, aguardo ansiosa por seu futuro filme solo.

Marvel Studios é praticamente um sinônimo de humor, muitas vezes exacerbado até, mas aqui aparece sutil e no momento certo. Uma tirada em meio ao conflito, um olhar de canto, um improvável veículo de fuga, o maravilhamento de um adolescente perante os maiores heróis da Terra ao se ver lutando em meio a eles... funciona. A legenda, em dado momento, foi um desserviço ao usar “tá tranquilo, tá favorável” para um termo simples proferido, sendo o único momento que me tirou do êxtase da excelência, mas isso é na conta de um brasileiro engraçadinho, não da Marvel. 
O grande mérito dos diretores, irmãos Russo, é, no entanto, a ação que enche os olhos. Dando continuidade ao primoroso trabalho executado no segundo filme solo do Capitão América, os heróis são levados ao limite de suas habilidades em uma coreografia feroz e violenta que torna o conflito um ballet mortal e cru, nem de longe limitado pela cena do aeroporto destacada no trailer. Considero Steve Rogers o personagem mais consistente do universo cinematográfico da Marvel, partindo de um primeiro filme quase ótimo e crescendo a cada filme solo, bem como nos Vingadores reunidos, para culminar nessa terceira obra em seu auge, e grande parte disso se deve ao trabalho dos diretores que entendem o potencial do Capitão e o que fazer com ele desde Soldado Invernal.

Há tempos não saía do cinema tão satisfeita com um filme. O mal sofrido pelo fã é esperar demais e receber de menos, mas Capitão América: Guerra Civil me manteve tensa, gritando palpites silenciosos (nunca atrapalhem a sessão com comentários em voz alta, crianças!) e com eventuais sorrisos no rosto para amenizar a agonia. Concentrei-me aqui nos aspectos positivos porque na primeira visualização não fui capaz de detectar grandes impasses que prejudiquem rudemente a trama ou o futuro da Marvel no cinema, o que não está a salvo de segundas considerações após análises com mais calma no resfriamento dos ânimos.

Como últimos conselhos, sugiro que aguardem as duas cenas pós-crédito e entreguem-se a um filme que excede expectativas, mas fuja dos excessivos vídeos e informações lançadas previamente que podem arruinar o elemento surpresa. Divirtam-se. E aos decepcionados com as falhas anteriores do estúdio, a obra é um grande “perdão pelo vacilo”.

Esse texto foi escrito por: Jaqueline Buss
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