Vikings - S04E05 - Promised

Por Roberta Brum

21 de março de 2016

SPOILERS ABAIXO

WHO RUN THE WORLD?

No episódio que marca a metade da temporada, Vikings apresenta mais um episódio sólido, "transitório", no qual são dados seguimentos a histórias já em movimento. E que seguimentos. Em uma construção já padronizada, o episódio perpassa todos seus lócus: Paris, Wessex, Kattegat e Hedeby, novamente concentrando-se por mais tempo que deveria nos elementos menos interessantes da série (Odo, Roland, Aethelwulf, Juliet, entre outros). São momentos morosos, que não apenas desaceleram o episódio, como também dão a sensação de desconexão. Mas tudo foi compensado pelos nórdicos em Kattegat e Hedeby.

Em todos os lócus, preparações estavam em voga. Em Wessex havia a preparação para a invasão e retomada do trono da rainha Kwenthrith; em Paris, Rollo e Odo finalizavam a construção e preparação das medidas defensivas contra a invasão viking; e por fim, os vikings se preparam para a próxima invasão, agora "apoiados" por Harald e seu irmão. Deste modo, as batalhas são iminentes e as tramas encaminham-se para seus respectivos cruzamentos e seus clímax.

Em Kattegat, Ragnar, pelo segundo episódio consecutivo aparece em uma espécie de sessão psicológica com Yidu, desnudando sua alma, ao mesmo tempo que também ouve algumas revelações, em uma troca cujo simbolismo é confiança. O que a revelação de que Yidu é uma das filhas ilegítimas do Imperador da China altera na trama ainda não consigo visualizar, de modo que até então é irrelevante. Especialmente estando Ragnar em um estado claro de apatia e abandono (uma das frases mais emblemáticas do episódio foi ele, ao revelar o peso que carrega, afirmar que perdeu a paixão que tinha em desbravar de quando era jovem). A culpa o cansou. E ele perdeu o tesão. Mesmo assim, ele ainda é o rei da Noruega. E como tal, deve agir como um e conforme suas responsabilidades. Uma delas é a iminente invasão a Paris, empreitada esta que o fez aliar-se com o pouco confiável Harald, que basicamente declamou sua intenção de tomar tudo o que Ragnar tem para quem quisesse ouvir. E sinceramente, Ragnar não parece exatamente preocupado: he's not giving a lot of fucks. Ou simplesmente pode ser apenas o que ele pretende transmitir com aquele olhar inteligível. Algo certo é que ele confia em Yidu, em especial nos medicamentos misteriosos dela, adentrando em uma relação (que pode se tornar perigosa) com o ópio. 

Mas na parte de Kattegat, o protagonista não foi Ragnar, nem Yidu, nem mesmo Bjorn confrontando Harald ou descobrindo a relação de Erlandur com seu ataque. Foi Ivar. Em uma cena que não negarei, foi chocante. Totalmente inesperado. Se era um tanto quanto previsível a parte de Lagertha (mesmo eles tornando o que era esperado em um WTF! espetacular), a reação de Ivar foi extrema, indo de 8 para 80 em segundos.

Lembram dos momentos morosos que comentei no início? Esta "paz" e tranquilidade momentâneas são uma ilusão, ao serem intercalados por dois atos de violência brutal (a montagem de Vikings merece menção neste episódio), que jogam a série para seu inevitável caminho sangrento.

Antes de adentrar no primeiro dos dois momentos do episódio, um adendo - e devaneio - sobre Ragnar. Harald e seu irmão provavelmente planejam matar Ragnar uma vez que a invasão se concretizar. Ou mesmo durante a invasão. O que chega a ser irônico, já que Ragnar não está nem aí com suas estratégias, táticas ou mesmo riquezas. Ele está muito mais interessado na sua obsessão pela morte, ópio e Yidu, para se preocupar com outras conquistas.

Mas voltemos a Ivar. Aparentemente o corpo de Ivar não é a única coisa quebrada nele. O garoto vai de "MDS NÃO FAÇAM ISSO COM O GURI/COITADINHO/QUE MALDADE" para "CARAAAAAAAAAAAAALHO" em segundos. A cena toda foi horrível de assistir. Primeiro pela exclusão e humilhação sofrida por Ivar que tentava brincar com outras crianças. Ele era provocado e afrontado devido sua deficiência, que o impossibilitava de brincar e as crianças o "ofendiam" por isso ao não deixá-lo brincar. Porém, ao contrário do que se esperava, como lágrimas e gritos, afinal são crianças, ele arrebata um machado de dentro de seu carrinho e mata uma das crianças com um único golpe na cabeça. As crianças (e inclusive Ivar) gritam, e até mesmo Floki congela em choque e terror, antes de Aslaug correr, pegá-lo no colo e calmamente dizer "não tenha medo. Não é sua culpa. Está tudo bem. Tudo ficará bem". Suponho que Aslaug levá-lo para longe e afirmar que não foi culpa dele só piorará a situação, a partir daquela visão cega num feat de mãe-coruja com mãe-leoa.

Quando Aslaug transfere para Floki (cujos sinais de loucura retornam, como aquela risadinha inquietante quando ele diz para Harald que matou "o animalzinho de estimação cristão de Ragnar") a responsabilidade de criar Ivar conforme as verdadeiras crenças e práticas vikings, ela vê em Ivar o futuro da Noruega, vê nele o novo rei, o substituto de Ragnar. Claramente pode não ter sido a melhor ideia, afinal Ivar mata uma criança com um machado que simplesmente estava no seu carrinho (sério, mesmo para os vikings o ato pareceu surreal; um machado de verdade e afiado em um apetrecho de criança?) Em todo caso, com a defesa de Aslaug, o temido Ivar Sem-Ossos das famosas Crônicas Anglo-Saxônicas finalmente nasce.


Sobre o Kalf: sempre tive minhas ressalvas com ele, nunca confiei nele, apesar de ser um personagem intrigante justamente por este mistério, e honestamente, não via a hora da Lagertha dar um pé na bunda no rapaz. Para completar o cenário, ele era ambíguo e manipulador ao extremo. E isso era incomodativo. Neste sentido, de fatos temos que ele enviou um Berserker para matar o filho de Lagertha. Com a ajuda de Erlendur. Estaria ele apenas apaziguando Erlendur? Ou ele realmente queria Bjorn morto, para que o filho que ele teria com Lagertha fosse o único? Existiam várias camadas de Kalf que não chegaremos a conhecer plenamente.  

Promised estabelece o retorno de Lagertha ao seu lugar: o topo. E que retorno, amigos. Lagertha não anda. Não apenas desfila. Ela pisa. Depois de quatro episódios com participações pífias e superficiais (apesar da cena icônica da castração), pode-se dizer que Lagertha realmente faz sua entrada e o foco finalmente desloca-se para ela. Lagertha, aparentemente negligenciada e posta de lado até então na temporada, retorna de maneira triunfal. Apesar que o olhar ilegível de Katheryn Winnick sempre nos lembra que, como diria nosso querido e finado filósofo Boromir: one does not simply mess with Lagertha. É um momento de reviravoltas, pois Winnick finalmente recupera sua posição como um das personagens mais formidáveis da série, assim como Lagertha faz com seu reino. Lembram do Red Wedding em Game of Thrones? Vikings teve sua própria versão (bem melhor, diga-se de passagem). 

No perpétuo jogo entre traição e poder, tem-se mais uma vítima: Kalf, na cerimônia de casamento brutal de Lagertha. E sejamos sinceros, foi um antes ele do que ela. Foi antes que ele pudesse matá-la. Não era uma possibilidade muito absurda. Afinal, sabemos que ele a traiu, a destronando e ela jurou vingança. Por mais que não parecesse, Lagertha estava jogando, armando uma teia e elaborando uma jogada, que foi nada menos que um xeque-mate. Ela, tal como todo personagem na série, quer o poder total. Ela não se contenta com apenas uma parte dele. Ao mesmo tempo, foi interessante e revelador que suas ações foram brutais. Ela não recorre a subterfúgios, pretextos ou artifícios, de modo que a narrativa segue fiel e é condizente com sua personalidade. Ela age e assume. Reflexões e devaneios à parte, todo o arco do casamento da Lagertha foi magnífico. Foi algo que esperava e ao mesmo não esperava. E isto se deve em grande parte a construção não apenas da cena, mas o roteiro e a atuação de Winnick. A sequência (ou melhor, sequências) foi genial. A revelação tímida e feliz da gravidez, o receio ao pedido de casamento, a aceitação, a preparação para o casamento em si, todo em um clima que transmitia suavidade, delicadeza e leveza - e até amor -, sensação amplificada pela paleta de cores utilizada, todas claras. Sempre esperei a vingança de Lagertha, mas em um momento menos paradoxal.

A Lagertha é musa do universo, rainha da minha vida. Não apenas destronou Kalf sem subterfúgio nenhum (ela simplesmente o matou no dia do casamento dos dois), como treinou o próprio exército às vistas de Kalf. Que coisa mais foda a corte dela ser composta apenas por mulheres. Amazonismo puro. Tudo ali foi épico. Foi um momento triunfante.


Finalizando, Lady Gaga tem uma música cuja letra se encaixa perfeitamente ao momento e a série em geral:

"The Fame
We live for the Fame"

Vikings se pauta pelo triângulo ambição, poder e reconhecimento. E esta tríade é extremamente perigosa. E maravilhosa de se assistir. Promised manteve o ritmo do episódio anterior, mas o episódio em si teve altos e baixos no seu geral. Eram uns bons 10 minutos lentos, sem grandes acontecimentos, intercalados por uma cena de dois minutos que derrubava todos os forninhos possíveis. Os ápices foram simplesmente os melhores da temporada até então, encabeçados por Lagertha, seguidos por Ivar e também Bjorn. Com Promised, a série se torna ainda mais inquietante, não exatamente elétrica, porém, permeada por um intenso clima de ansiedade. Foram cliffhangers que nos deixam tensos, esperando tudo explodir.

OBS.:

1 - A gravidez da Lagertha é real ou foi apenas aquele toque de maldade e perversidade?

2 - Rollo e Ragnar... Que irmãos... Protagonizaram os momentos mais eróticos que vi na televisão este ano, sendo que nenhum pressupôs exibicionismo, sensacionalismo e espetacularização da nudez, seja ela parcial ou total. Não foram cenas gratuitas e foram belamente conduzidas.

3 - O paralelismo entre Ragnar e Ecbert se torna cada vez mais nítido, desta vez através do discurso e enfrentamento de Ecbert com seu Deus cristão.

4 - A observação mais importante que já fiz até então. Depois de pesquisar na literatura sobre o assunto, fiz uma descoberta interessante: Ivar realmente é um personagem "verídico" e teria sido um dos líderes do Grande Exército Bárbaro que invadiu a Grã-Bretanha em 865. Conforme as crônicas, o motivo da invasão seria a vingança dos irmãos Ragnarsson contra o rei Aello da Nortúmbria, suposto assassino de Ragnar (pode ser um spoiler. Ou não). E sim, não sabia disso, descobri agora e tudo se amarrou: a veemência com que Aello enfatizou que queria Ragnar morto no quarto episódio e a presença dos ingleses em si. E agora a observação da observação: já historiografia é menos sensacionalista e afirma que o motivo da invasão era a busca de terras consideradas vastas e férteis.

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