Vikings - S04E04 - Yol

Por Roberta Brum

13 de março de 2016

SPOILERS ABAIXO

Yol foi simplesmente o melhor episódio até então. Não apenas foi bom, como gostei muito. Nele tivemos o surgimento de dois personagens promissores, conectados à Ragnar com destaque especial para um deles: Yidu, a nova escrava de Auslaug e Harald, nada menos que um rei viking.

Ragnar é uma incógnita perpétua e desta vez não foi diferente. Muito da imprevisibilidade de Ragnar tem a ver com a interpretação de Travis Fimmel. Ele comunica muito com as expressões, o olhar especialmente. Fimmel possui um olhar ininteligível. Ele diz muito mais com o corpo, que revelam sutis mudanças de nuances, do que com a fala. Fimmel transmite para Ragnar a perpétua impressão de saber algo que ninguém mais sabe, que ele é ciente de algum mistério. Isto sem contar aqueles olhos indecifráveis, hipnotizantes. Não tem como não pensar que há algo de mítico nele.


Sobre meu comentário na review anterior, sobre um Ragnar "quebrado", isto se confirma e ao mesmo tempo se altera. Se altera graças à Yidu. É perceptível a mudança dele neste quarto episódio em comparação com o terceiro. Com Yidu ele está mais vivo. Deste modo, talvez ela represente uma renascimento. Yidu cativou e intrigou Ragnar de modo semelhante (guardadas as proporções, obviamente) ao que Athelstan o cativou, por representar uma nova cultura e crença. Ela simbolizaria uma nova possibilidade, um novo mundo. E nós sabemos o quanto Ragnar se sente intrigado e atraído pelo desconhecido. E o fato de ele não temer nem os deuses, sejam católicos ou nórdicos, apenas inflama a ideia. Com Yudi - e suas ervas alucinógenas que fazem pessoas engolir cobras vivas - o espírito desbravador e aventureiro de Ragnar recobra vida. Assim, teríamos um novo Ragnar?

Continuando, não há como comentar sobre a escrava sem comentar acerca de Auslaug. O ex-casal 20 agora não passam de um casal de fachada, praticamente uns Florrick da Idade Média. Cada vez mais eles se afastam e o rancor cresce. Desta vez envolve a situação Ivar. A rainha basicamente exclui Ragnar da criação do filho, nega à ele os direitos de pai, considerando-o uma má influência, em especial acerca da religião. E cede estes direitos à ninguém menos que Floki. Mas sejamos realistas, Ragnar nunca realmente foi presente e seu lado paternal não é sua melhor característica. E por um lado eu concordo. Não esqueço que ele tentou matar Ivar. É um elemento cultural? Sim, é, mas cultura não é justificativa, afinal é construída pelo homem. Por ser cultural não significa que seja correto. Ou humano.

Yidu, mesmo com o aval de Auslaug (que não foi exatamente gratuito, mas ainda não identifiquei o motivo por trás; a princípio apenas um afastamento oportuno), será mais do que apenas amante de Ragnar (aspecto que ainda considero desnecessário). Não será apenas uma muleta, ou formará o novo triângulo amoroso. Vikings não perde tempo com esses clichés. Ela possui um papel importante neste novo arco. A princípio suponho que além de confidente e em alguém em quem Ragnar confia ("vaga" ainda em aberto de Athelstan), ela influenciará e muito os novos movimentos do rei nórdico.

Já em Paris tivemos uma pequena reviravolta. Considero a primeira vez de Gisla e Rollo um dos momentos mais significativos do episódio, não pelo sexo em si, mas pelo que representa. Representa aceitação e legitimação. Ao aceitar Rollo, Gisla aceita a pessoa, aceita o casamento, consolidando assim uma aliança nevrálgica para Paris e para a trama da série em si. E ele rompe de vez com seu povo e sua crença. Ele se desfaz do elemento que o identificava como Viking: o bracelete.

Se confirma, assim, a minha leitura sobre a atração de Gisla por Rollo. Ela não desprezava exatamente a pessoa Rollo. E sim o estereótipo do viking. Ele não era simplesmente uma pessoa, mas sim apenas o invasor bárbaro. Rollo era a representação concreta de tudo o que ela odiava. Resumindo, estereótipo e preconceito. Coerentes contextualmente. E ela o odiava ainda mais por, paradoxalmente e ilogicamente, se sentir atraída por tudo que mais detesta. Uma vez removida esta camada, ela sente-se livre. Livre para experienciar esta atração no seu máximo. E ela aproveita. Como aproveita...

Já da sequência, só tenho a parabenizar e agradecer ao diretor pela beleza da construção. Foi como deveria ser: apaixonada, passional, mas ao mesmo tempo vagarosa e sutil. E o modo com a sequência foi construída refletiu isto. A montagem dos cortes, intercalando closes em elementos que paradoxalmente não são diretamente associados ao sexo, como olhos, mãos e boca. Gente, sexo não é apenas peito, bunda e pau. A importância dada ao toque é erótica pra caramba. Aquele entrelaçamento de mãos é de arrepiar. Aquele arrepio maravilhoso. Foi de um intimismo totalmente condizente com o momento e os personagens, um momento de aceitação, descobertas e encantamento entre duas pessoas totalmente diferentes, mas que encontraram naquele momento um denominador comum, que naquele momentos são iguais. Foi daquele tipo de cena que nos posiciona como voyeur. Esta cena me lembrou da maestria de cenas de De Olhos Bem Fechados, Encontro Marcado, Segundas Intenções e Nove Semanas e Meia de Amor.

Nisto percebo o quão robusta é a linha entre erotismo e pornografia. Existe uma abismo entre ambos. Aprecio ambos, do mesmo modo que ambos detém qualidades próprias, mas acredito em momentos. Existe sensualidade e sexualidade. E esta cena demandava sensualidade. E exalou isto. Uma pegada mais porn não cabia para o momento. Uma cena de sexo não postula como mandatório nudez, closes escatológicos ou sexo explícito para ser hot e sensual, para dar tesão mesmo. Para ser hot não precisa ser explícito e explorado. Muito menos vulgarizado. Muito pelo contrário. Sexo é algo natural e belo, devendo ser tratado como tal. E Vikings cumpriu perfeitamente este pressuposto. Os closes nos rostos, nas expressões de prazer, o fato de que mesmo com uma trilha sobreposta, pelas expressões, você "ouvia" os sussurros e gemidos. Foi tudo magistralmente amarrado. Em especial, aquele corte dos pés se contorcendo foi simplesmente fenomenal.

Fora que o Clive Standen e Morgana Polanski tem uma química absurda e isto não atrapalha em nada. Definitivamente Gisla e Rollo são meus novos Daenerys e Drogo. E é digno de menção o quanto Gisla está deliciada com as habilidades do seu marido civilizado. Sua aprovação foi audível. Pra quê comer quando se tem um Rollo à disposição.


Mais um detalhe: como a posição de Rollo se consolida, alguns novos caminhos são visíveis: Rollo é leal à Paris, mas à quem em Paris? Ao seu sogro, o Imperador? Odo? Roland? Neste imbróglio que se desenrolará em traições, Rollo é simultaneamente aliado e inimigo.


No panorama geral do episódio, indignada seria pouco se tivesse rolado uma transa entre a Yidu e o Ragnar no mesmo episódio que Gisla e Rollo. Gisla e Rollo foi significativo, Ragnar seria apenas mais uma random fuck.



Mas continuemos. Mesmo ainda não apresentando grandes e épicas batalhas, Vikings ainda oferece boas sequências de ação. E cabe novamente à Bjorn o feito: depois de enfrentar um urso, desta vez tem-se um berserker.



Enquanto telespectadores, sempre queremos ser surpreendidos e isto pressupõe um combate à escolhas fáceis. A escrita deve ser a mais complexa e complicada possível, de modo que nos questionemos sempre: "como é que ele resolverá isso no próximo episódio?". E quando chega o próximo, é resolvido não apenas de maneira convincente, mas não linear. Queremos veracidade. E queremos surpresas. Adoramos o imprevisto. O inesperado. Queremos comoção. Um certo espanto.

Neste sentido, cabe a chegada de Bjorn a Hedeby. Ao mesmo tempo que surpreendeu, frustrou. Não vislumbrava Hedeby como destino, afinal acreditava sua quest não havia terminado, por a considerar "curta". Assim, a visita à Hedeby não era algo previsto, a menos que houvesse motivo. Eis onde a obviedade me cegou: na linha do arco, ele iria confrontar Kalf e Erlendur sobre o berserker, afinal, de algum modo ele teria feito a relação do anel e Horik. Ou seja, chegaria quebrando tudo. Mas não era. Isto me frustou por mais ou menos dois segundos, o suficiente para levar outro susto: ele foi reivindicar nada menos que a esposa de Erlendur. Na frente dele. A quest já teve seus efeitos em Bjorn. Na expressão dele (parabenizo Alexander Ludwig por isto), já percebo uma mudança, um amadurecimento, uma força e segurança que não estavam ali antes. 

Ainda sobre esta cena: o quão sensacional seria se Bjorn realmente tivesse descoberto e revelado que Kalf foi o mandante de seu assassinato? Na frente de Lagertha ainda por cima? Percebi a tensão de Kalf: sob aquela expressão plácida, surpresa e medo estamparam seu olhar. Direi apenas que espero ansiosamente por isso.


Ao mesmo tempo tempo é interessante que o arco desta quest pessoal não se alongou demais, ocupando toda a temporada. Foi pontual. O roteiro de Vikings sabe como poucos o timing de cada trama, conseguindo um equilíbrio fundamental para a fluidez da narrativa e desenvolvimento dos personagens. O modo como gerem o tempo é exemplar.

Dentre os pequenos detalhes do episódio, tem-se a posição entre Rollo e Bjorn: o civilizado e o bárbaro. O primeiro banhado, penteado, vestido em trajes elegantes, galante e fluente em francês. O segundo sujo, possuído por uma fúria cega, coberto de sangue, arrancando intestinos com as próprias mãos nuas. O contraste entre civilidade e barbarismo é uma constante nesta temporada. São estas "sutilezas" nos arcos que tornam Vikings uma série tão interessante e que engrandecem o roteiro. Neste paralelismo, a série problematiza. O que é realmente um bárbaro? O que é ser civilizado? Não seriam apenas os diferentes de mim? Com costumes distintos dos meus? Apenas por sermos distintos, eles são inferiores? Apenas para refletir, Kattegat e Hedeby são exemplos de sociedades muito bem estruturadas socialmente, com papéis e posições definidos, uma certa organização econômica e produtora, além de uma forte força militar. Isto as torna inferiores a Paris? Ou mesmo Wessex?



Para mim, outro ponto alto do episódio: Harald. Em poucos minutos o personagem me conquistou. Harald promete e muito. Ele é imponente, inteligente e provocador. E apenas disse com todas as palavras que quer destronar Ragnar. Ele tem algo que nem Horik e nem Jarl Borg tinham. Em Harald, Ragnar finalmente encontra seu par. A rivalidade surgida instantaneamente incendiará ainda mais esse Ragnar que está emergindo. Um que flerta e se sente atraído como nunca pela mortalidade, um tanto quanto enfraquecido não apenas fisicamente e que dá indícios que tenha encontrado um novo foco. Primordial neste encontro foi Auslaug: nos olhos dela não vi realmente uma defesa, mas sim provocação. Veria ela em Harald um aliado?


Conversamos sobre Paris, Kattegat, Hedeby. Falta Wessex. Em Wessex há um distúrbio na força, ou melhor, na tríade anglo-saxônica. Aello, o machista e misógino do episódio questiona a posição - problemática - de rainha de Kwenthrith (e basicamente sua capacidade de governar), deixando entrever uma revolta interna que inclui assassinatos - dela e do príncipe. And I really don't care or could care less.



Antes de finalizar, gostaria de destacar duas frases que me chamaram a atenção neste episódio: uma de Juliet, respondendo às acusações e ameaças de seu pai, o Rei Aello: "Você não me possui, pai, nenhum homem possui. Embora sobrecarregada por toda parte, eu sou livre". Isto é extremamente importante. A réplica significa uma não submissão; ao não se submeter, ela rompe com o estereótipo da mulher submissa, impotente e subserviente. As conquistas dela são inegáveis e formidáveis, mas são restritas. É uma pseudo-ruptura, ela vive uma ilusão. Ela não é livre. É ingenuidade dela pensar assim. Ela ainda é dependente e presa ao sistema que a gerou e ainda não tem noção deste panorama geral. O livre dela, noutras palavras é se conformar com esta pseudo-liberdade e pseudo-direito a escolha.



E a outra de Lagertha: "Temos só uma vida, Torvi. Então, vá e a viva". Esta frase é tão pontual pois penso que Lagertha falou isto para ela mesma. Esta frase justifica toda decisão que ela tomou: o divórcio de Ragnar, a saída de Kattegat, o segundo casamento, o assassinato do marido e tomada do poder, enfim. Foi o que ela fez. Além disso, o fato de ela se oferecer para criar o filho de Torvi mostra seu tridimensionalismo (e este é um texto que DEVE e será elaborado). Ela castra um inimigo ao mesmo tempo que se dispõe a criar o filho de outra. O arquétipo da mulher guerreira e forte não se aplica a Lagertha. Ela transcende. Desta forma, mesmo com uma aparição mísera e um arco pouco trabalhado e simplista até então, Lagertha não perde sua essência e ainda rende bons momentos.


Resumindo e finalizando - finalmente - Yol foi um episódio completo, consistente, bem dirigido e bem escrito.

OBS.:

1 - Preciso aprofundar-me na questão do papel da mulher na cultura viking, se ela detinha esta autonomia e independência que a série deixa transparecer.

2 - Me localizei "temporalmente": passaram-se meses entre o terceiro e o quarto episódio, de modo que Vikings situa-se aproximadamente entre os anos de 830 a.C. e 829 a.C.

3 - Sobre Floki: não sei nem por onde começar a pensar, que dirá o quê.

4 - Coisa mais linda ver o Rollo respondendo em franco/francês para o bispo depois que este tentou dar uma zuada nele. Uma jogada na parede não teria me dado tanta satisfação quanto.

5 - A questão linguística em Vikings é um rebosteio só. Todos os povos falam inglês, sejam os anglo-saxônicos, vikings e francês, mas quando interagem entre si, ninguém fala a mesma língua. Compreendo que é uma necessidade do roteiro e uma praticidade, estando implícito a questão de serem povos diferentes, e também é  nítido a questão da barreira linguística. Mas essa confusão de todos falam e ninguém fala destoa e é tosca. Por que não delimitar as diferenças entre os povos com as línguas, e sistematizar como GoT fez com Alto Valiriano e Dothraki? Poderia ser um dialeto simples, mas que traria veracidade à trama. Sei que se trata de questões externas, orçamentárias, de cronograma, recursos, enfim, e cuja existência na verdade basicamente não atrapalha a narrativa e muito menos sua compreensão, mas como sou chata, me incomodou e acredito que enriqueceria ainda mais a trama.

Esse texto foi escrito por: Roberta Brum

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