Vikings - S04E03 - Mercy

Por Roberta Brum

5 de março de 2016

SPOILERS ABAIXO

Sobre este episódio:

- Bjorn vs. O Urso;
- Paralelismo entre Ragnar e Ecbert;
- Bjorn matando a porra de um urso com um machado e uma faca;
- O urso, cara, sério;
- Mitagem do Bjorn (Dicaprio, aprenda com o amigo Bjorn).

Vikings acompanha o passo (sem trocadilho) de seu grande protagonista: com Ragnar Lothbrok mancando, talvez para sempre, a série força-se a amenizar e suavizar, porém, neste episódio somos lembrados que isto não é um defeito. Em uma analogia,  Mercy é aquela pessoa que tem um grande compromisso no dia seguinte e dorme inquieta.

Mercy, em tradução livre significa, bondade ou compaixão. Emoções não muito relacionadas com os nórdicos, terra onde a violência, vingança e glória se sobrepõe a tudo e todos. A história deles é uma história de sangue e conquista, não de compaixão.

Esta temporada se desenrola em diversos lócus: Kattegat, Hedeby, Paris, Wessex e o interior. A principio, visualizo apenas vínculos entre Kattegat e Paris, com laços mais fracos com o interior e Hedeby. Wessex continua distante, paralelo, uma trama forçada que os roteiristas teimam em querer fazer acontecer.

Apesar da serenidade do episódio, sem grandes cenas de ação, Mercy para mim um episódio de revelações, onde toda as peças do quebra-cabeça se encaixaram (ou quase todas. Wessex ainda é um problema).

Em Kattegat, Floki (e eu também) é levado à loucura com um gotejamento incessante de água sobre sua cabeça, ao mesmo tempo que a devoção da Helga me espanta. Através de sua personagem, prova-se que uma "mulher forte" não precisa imperativamente abdicar das suas emoções, negar sua feminilidade, se vestir como guerreiro ou ser hábil com armas. Negar a força de Helga é descabível. Ela acabou de perder a filha, mas continua apoiando seu marido. Nada a derruba. Se caí, levanta. Ela está de pé, resiliente, inquebrável. Ela não é feita de porcelana. Ela é cerâmica.

Me intriga também a força de Athelstan. Mesmo morto, continua presente e influenciando dois dos personagens mais poderosos da série. Mesmo morto, ele intervém em momentos pontuais. Precisei que praticamente desenhassem, que jogassem na minha cara, mas finalmente percebi o paralelismo entre Ecbert e Ragnar e foi nesta aparição de Athelstan que tudo se tornou nítido. Foi esta a sequência causadora das minhas epifanias: a melhor cena do episódio, e talvez o melhor desta jovem quarta temporada. Refletindo o clima sereno do episódio, o encontro dos reis com Athelstan foi fascinante e sensível, o modo como as duas histórias convergiram foi muito  mais atraente do que todo e qualquer esquema de Ecbert. Mas além da belíssima cena envolvendo a visão de Athelstan, ambos estão estabilizados e confortáveis nos seus respectivos tronos. Tão confortáveis que suscitam desconfiança, como naquela calmaria que precede uma tempestade. Ambos tem um respeito, admiração e amor genuíno por Athelstan. Ambos estão em relações conturbadas com seus filhos, seus filhos estão imbricados em missões de provação. Ambos são estrategistas magníficos. Enfim, os paralelos são muitos. E é com Athelstan que a compaixão do título é posta em prática, cada rei do seu modo.


Falando em Ragnar, a cisma e tensão entre ele e Auslaug só se amplia, agora trazendo à tona o affair dela com Hobard. 

Continuando minha saga de revelações, finalmente compreendi a quest do Bjorn. E esta transcende a simples tensão relacional entre pai e filho. Aquele Ragnar ousado, hipnotizante, aquele guerreiro misterioso não existe mais. Como sabemos disso? Comecemos com a primeira cena desta temporada, quando lhe é negada a entrada pelos portões de Valhalla, que se fecham à sua frente. O rei que vemos está quebrado e cansado. Até imponente. E não só fisicamente. Este Ragnar não busca mais os grandes feitos, não possui a força e o poder, o próprio magnetismo e não chega nem perto de inspirar, quanto o Antigo Ragnar. Ele esta desvanecendo. Suas precauções, as hesitações, os devaneios, tudo esta impregnado, cada palavra, cada olhar, cada escolha, com insinuações de que sua mortalidade se aproxima do fim. 
Ele sabe disso. Sabe que precisa de um sucessor. E que este sucessor não está pronto. Bjorn e Ragnar sabem disso. Ambos sabem que Bjorn ainda não está pronto para assumir o lugar do pai. Eis onde toda a quest se justifica.

Em "Mercy", além do remake de O Regresso, na qual o Urso novamente sai perdendo, Alexander Ludwig faz da solitária peregrinação de Bjorn e sua brutal batalha com o urso que o perseguiu o episódio inteiro, um ponto de ruptura materializado simultaneamente em uma batalha interna e uma missão de provação. Ele se põe deliberadamente à prova. Não apenas para seu pai, mas para si. Ao enfrentar o inimigo mais temível que ele pode imaginar derrubar (fora a cauterização com uma lâmina de faca em brasa e um mergulho nas profundezas de um lago congelado), ele simplesmente desafia seu destino. Quando ele mata o urso (de forma rápida em luta brutal), quando cauteriza as feridas causadas pelo urso com uma faca, quando emerge de que a água inimaginavelmente fria, o grito dele representa não apenas dor. É orgulho. É triunfo. Um símbolo tão forte que inclusive Ragnar "ouviu" (ou melhor, sentiu) na distante Kattegat.

Bjorn não é aquele enigma carismático como seu pai é, mas ele não deve ser. Ele não deve ser uma cópia fiel de seu pai. Seu nome, "Bjorn Ironside", dado por seu pai graças suas proezas em batalha, já justifica. Ele é aço: firme, duro, inflexível. Bjorn não titubeia, age conforme deve ser sem  nenhum embaraço, como visto na sua decisão de detenção Floki - ação que aos seus olhos de seu pai era apenas uma imitação de sua determinação - desafiando inclusive sua sua madrasta, a rainha. Mas, ao contrário do que olhar ilegível de Ragnar, tem olhos doces e suaves em contraposição à sua força física imponente. Ele é sensível, justo, fiel aos seus princípios, determinado e compassivo.

Mas o urso foi apenas a primeira de suas batalhas, seu arco neste episódio tendo outro desdobramento: um berserker enviado por Kalf e Elendur.

Falando em Kalf, em Hedeby, Lagertha e ele estão usufruindo do seu acordo de friends with benefits. No universo paralelo de Hedeby, estão num espaço-tempo em que não existem inimigos ou preocupações. Uma espécie de idílio. Mal sabe ela que literalmente está dormindo com o inimigo, que mira agora não nela, mas no seu filho (saber ela sabe, mas enfim). Mas Kalf obviamente complexificou tudo. O que era para ser algo como sexo sem amarras, ele pretende tornar compromisso. Por mais tesão e respeito que ela sinta por ele, não a vejo considerando algo mais sério do que eles partilham, até porque ela já se casou duas vezes e enquanto na primeira houveram traições e na segunda abusos físicos e psicológicos, não acredito que ela queira uma terceira tentativa, por mais que agora seja tratada como "igual". Com a declaração de Kalf, tenho certeza que ela "levantou seus escudos", o olhar um tanto desiludido e a falta de fala foram respostas eloquentes. Receber um "eu te amo", "sempre te desejei", "quero ter filhos com você", foi uma sensação agridoce, em especial porque as palavras de Kalf ecoam as de Ragnar de temporadas passadas. Ainda assim, mesmo que Lagertha não descubra sobre o berserker, ela não deixará a traição de Kalf sem retorno.


Em Paris, acompanhamos o desencaixe extremamente desconfortável em que Rollo se encontra. Dizer que ele se encontrou em Paris é uma falácia. Primeiramente, por mais que ele procure se adaptar aos costumes francos, não há uma devolutiva condizente.  Ele é temido, não respeitado. Temido por ser diferente, por ser o bárbaro. Ele é tratado como o estranho. E este verniz de civilizado começa a desiludir e enfurecer Rollo. E se Rollo é acusado de ser um bárbaro, ele agirá como tal. Ele ainda realiza mais uma tentativa, ao procurar aprender a língua, mas novamente ele se impacienta, exalta e se encoleriza (que o diga o padre que foi abraçar a parede). A situação dele é simplesmente exasperante. À tudo isto acresce-se o fator Gisla, que o aflige ainda mais, e está cada vez pior, agora com humilhações e acusações públicas (ela inclusive pediu o divórcio). Me pergunto se Rollo não está fadado à solidão e incompreensão, se não está relegado ao limbo de ser ninguém.

Entretanto, a invasão de Ragnar a Paris é eminente. Nisto, fica claro que os parisienses necessitam mais de Rollo do que Rollo necessita deles. Mas não afirmo se ele tem noção do quão fundamental ele é.


Por fim, teve mais sexo neste episódio do que nos dois episódios anteriores junto: Lagertha e Kalf, Juliet e Ecbert, Aethelwulf e Kwenthrith. E foi nesta quarta temporada que notei que Vikings não se apóia no sexo ou na nudez. São cenas curtíssimas, que mostram pouco mais que costas ou pernas desnudas. São meros detalhes, não desnecessários porque não são apelativos nem espetacularizados. São apenas evocativos, não incomodam, parece que nem estão ali.

E o que leio de Aethelwulf e Kwenthrith? Mais conspirações e disputas pelo poder, desta vez em uma aliança contra Ecbert. Laços familiares parecem não importar muito.


Vikings, conhecido por sua dose confiável de adrenalina, desacelera em um em episódio preparatório. Mesmo tendo uma atípica overdose de personagens (todos apareceram ao menos em uma cena, mesmo sem fala, algo que particularmente não me atrai), Mercy foi uma partida de xadrez, onde os jogadores estrategicamente posicionam suas peças para o xeque-mate.

OBS.: 

1 - Tive um episódio de amnésia hard, ou perdi o episódio que a Kwenthrith engravidou do Ragnar, porque não lembro de nada relacionado. Se alguém puder me iluminar, agradeço.

2 - Façamos as apresentações: berserker, para quem não conhece, são figuras míticas que aparecem em algumas crônicas nórdicas, como a saga Völsunga, como guerreiros de Odin. Mas comumente, são conhecidos como guerreiros que lutam com uma fúria praticamente incontrolável, lutam em transe, com forças e rapidez inigualáveis. São verdadeiros demônios.

3 - Numa próxima review comentarei a questão da linguagem, principalmente em Paris, com o francês, o inglês, e os grunhidos. Por mais que seja necessário, é algo incomodativo e até ridículo.

4 - Já comentei sobre retórica de Ecbert e a cada episódio fico mais pasma: como ele manipula e distorce as palavras, os sentidos seletivamente omitidos, as ações deliberadas. 

Esse texto foi escrito por: Roberta Brum
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