Literatura Em Foco: Atos Impuros - A vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença

Por Roberta Brum

22 de março de 2016


Tinha uma queda pela microhistória com a obra “O Retorno de Martin Guerre”. Mas foi com “Atos Impuros” que me apaixonei. Foi um livro que li em menos de dois dias e após a leitura, estava em êxtase ao ponto de escrever textão no Facebook, tweetar sobre, publicar no Tumblr, fora que indiquei para professores, colegas, amigos, parentes, o povo todo.

"Atos Impuros" é fruto da pesquisa da historiadora norte-americana Judith C. Brown, publicado em 1987 e como já mencionado, enquadra-se na microshitória. Mas então, o que é microhistória? A microhistória é uma matriz historiográfica que pressupõe a mudança de escala. É uma maneira de se aproximar de uma certa realidade social. Ela põe em cena os anônimos da história, aqueles que são deliberadamente ignorados e excluídos, relegados à vala comum do termo “povo” ou “sociedade” ou “revolta”. É elaborar um panorama gigantesco a partir de algo paradoxalmente pequeno. Com ela e sua escala apreende-se situações e acontecimentos que teriam passados despercebidos em uma escala macro.

Outro exemplos da microhistória? O exorcista de “Herança Imaterial” de Giovanni Levi; ou os infanticídios em “Dar a Alma”, de Adriano Prosperi e “História de Pierina”, de Yonissa Marmitt. Assim, apesar de ser uma obra teórica, fruto da microhistória, Atos Impuros mais parece uma obra ficcional, mais uma obra magistral da literatura, escrita por historiadores de ofício e amparada por uma prática historiográfica. É um intrigante diálogo entre religião e sexualidade feminina, sempre imbricados e sempre controversos e contrários.

"Atos Impuros" é um livro cujo título já fascina pelo paradoxismo, especialmente pela proximidade e complemento de três termos: "freira", "lésbica", "Renascença". “Freira lésbica” é uma sentença carregada de significado. Uma afirmação forte, poderosa e polêmica. 

E se o título já é fascinante, a história não deixa por menos. A história é peculiar, insólita, trágica. E belíssima. Reconstrói a vida de Benedetta Carlini, filha única de uma família de classe média italiana, crescida na região da Pescia. Benedetta é uma moça que entrou na ordem das irmãs teatinas e ascendeu na hierarquia do convento de Madre de Deus, chegado a ser abadessa na jovem idade de 30 anos. Era caracterizada como educada, temente a Deus, piedosa, obediente. Ou seja, vivia conforme o estereótipo do ideal não apenas de freira, mas de também de mulher. Vivia conforme seus votos de pobreza, castidade e obediência. Porém, esta banalidade não dura para sempre. Benedetta começa a ter episódios de possessão e visões de anjos e Deus, além de sinais de estigmatismo. Como estes episódios tornaram-se constantes e cada vez mais intensos, ela era assistida por outra freira, Bartolomea Crivelli. E eis o início do imbróglio.

Primeiramente Benedetta foi alvo de investigações por seu caráter místico, devido aos seus “encontros com Cristo”, à estas supostas visões perturbadoras e demoníacas, além das chagas de Cristo. Entretanto, houve outra investigação. Existia uma outra versão da história. Uma história que envolvia autoritarismo e um amor “antinatural” de Benedetta não por seu Deus, mas sim por uma mulher. Uma história sobre um relacionamento afetivo/sexual lésbico dentro das paredes de um convento. Não deixa de ser irônico: a escolhida do Deus medieval amando outra mulher, em pleno processo de Contra-Reforma.

A originalidade e ineditismo - além da polêmica - reside justamente no lesbianismo. No fato do lesbianismo não ser uma questão muito relatada na história da Idade Média. As informações são raras. Transcende o fato de ser aceito ou excluído, ele simplesmente não era reconhecido. Noutras palavras, não existia. Apesar de conscientes da existência, esta era ignorada. A homoafetividade masculina, apesar de ser tratada como desvio, pecado e doença, cuja punição em alguns casos era a morte na fogueira, era reconhecida. A feminina não. Não era admitido que uma mulher se sentisse atraída sexualmente por outra mulher, já que não “havia nada numa mulher que pudesse despertar o desejo de outra mulher”. E o livro se desenrola tendo por pano de fundo a sexualidade feminina, em como esta era vista e influenciada pela dogmática e intolerante Igreja Católica, destacando a hipocrisia, rigidez e ignorância da Igreja nesta questão.

Brown trata do assunto com uma sutileza e delicadeza, sem julgamentos em momento algum, em uma narrativa cuja leitura é fluída. A autora contextualiza a sociedade e o leitor no tempo-espaço, de modo que a ambientação e caracterização da autora é tão bem elaborada, detalhada, conseguindo um equilíbrio descritivo que não torna a leitura arrastada, que você se sente transportado para a Itália do século XVI. Já estruturalmente, a obra contém centenas de notas de rodapé, e ao final de cada capítulo a autora apresenta cada documento que possibilitou a análise do modo como foi feita, sejam cartas, diários, anotações, enfim. É tudo “baseado em fatos reais”, mas transcende a simplicidade de uma biografia.

"Atos Impuros" desvenda Benedetta. É a história de uma mulher presa entre seus votos e sua crença e seu desejo, constantemente deslocada, atormentada e perturbada por sentir o que não deveria sentir. Desejo este considerado antinatural, animalesco, diabólico. Se sentia culpada por ser quem era e agir conforme seu ser, criando talvez, uma outra persona para minimizar esta culpa. Benedetta foi uma mulher incrível, a frente do seu tempo, que vai contra o silêncio e enclausuramento dos desejos, e transgride códigos culturais ao amar uma mulher. 

É um primoroso trabalhoso historiográfico, com total embasamento histórico a partir de fontes primárias, em especial de um processo eclesiástico datado dos idos de 1600, encontrado no Arquivo do Estado de Florença. Fruto de um intenso trabalho de pesquisa, a obra mais parece literatura, em uma narrativa intimista, real e sensível que nos prende do começo ao fim. 

Em um contexto onde a sexualidade feminina é um tema um tanto quanto negligenciado e posto em segundo plano, além de não dispor de uma imensa bibliografia, a obra já se justifica. Mas indo além, Atos Impuros transcende: merece a leitura por ser simplesmente maravilhoso.

Esse texto foi escrito por: Roberta Brum
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