Cinema em Foco: Batman vs Superman - A Origem da Justiça

Por Jaqueline Buss

27 de março de 2016



Primeiramente gostaria de deixar o leitor ciente do fato de que o texto a seguir não adentra a zona de spoilers, até porque, se você viu o material promocional lançado em vídeo, essa barreira já foi violada. A presente postagem não incluirá o trailer no final justamente por esse motivo, o pouparei dessa síntese dos eventos principais. No corte final do filme percebe-se o encaixe de cenas complementares à essa história desvelada em poucos minutos. O vilão está lá, a motivação está lá, a incrível introdução da Mulher Maravilha está lá e o grande embate final no último ato do filme também está lá. Rude.

Não pense, por outro lado, que o filme nada tem a oferecer além disso. Há cenas memoráveis e um desempenho espetacular de alguns personagens, como o Bruce Wayne/Batman de Ben Affleck. Deixando os atores anteriores parecendo versões LEGO carismáticas do personagem, o Batman do diretor Zack Snyder é amargurado, opressor, feroz e desacreditado. Nolan estabeleceu com Bale uma versão louvável, porém inicial. Após 20 anos enfrentando Gotham nas suas piores cores, o Morcego pode ser, agora, referenciado aos traços de Frank Miller, à brutalidade dos games recentes e à total quebra dos códigos estabelecidos anteriormente no cinema. Em síntese, Bruce está literalmente de saco cheio da podridão do mundo e pegará pesado com ele.

Complementando o peso que as últimas décadas impõem à Wayne estão os constantes sonhos que o atormentam. Revisitamos o maior dos traumas de Bruce, a perda dos pais, mas principalmente, a ameaça potencial que um alienígena super-poderoso oferece. Ao contrário de Tony Stark, em Homem de Ferro 3, que ao se deparar com situações estressantes perde o sono e o controle, Bruce parte para a ação. Se há 1% de chance de Superman ser uma ameaça maior que seu benefício para esse mundo, ele está determinado a subjugá-lo. É seu mundo, sua cidade, sua humanidade. 
Espero ter deixado claro até aqui o quanto apreciei o tão temido Batman de Ben Affleck, pois no saldo final ele superou qualquer expectativa. Hora de falar de Superman. Clark Kent parece ter se encaixado no mundo, estabelecendo toda sua existência no eixo de Lois Lane, o que é compreensível. O Kryptoniano, assim como o Morcego, está sombrio, o que pode ser detectado por sua expressão impiedosa e o brilho vermelho constante em seus olhos. O embate de gladiadores é eletrizante, as cenas de ação são bem construídas, porém a evolução até elas é confusa. Por mais que a personalidade de ambos escancare em tela, a montagem da obra, que oferece cortes esdrúxulos entre cenas sem conexão, me deixou pensativa quando as luzes do cinema se acenderam... Será que Snyder não renegou para a versão estendida perspectivas cruciais para a construção da trama?

Partindo para os secundários, Lois Lane é o maior erro, em minha humilde opinião. A personagem forte que luta por seus ideais no filme solo do Homem de Aço é reduzida aqui à donzela em perigo, ao ponto fraco do herói em cena; nem kryptonita o deixa tão vulnerável. A única oportunidade de Lane destacar-se como relevante e mostrar a que veio lhe é tomada quando coloca-se numa situação de estresse na qual necessariamente precisa ser salva. Em primeiro momento, após uma visualização do filme, não fui capaz de perceber uma única cena em que o teste de Bechdel fique orgulhoso. A clássica donzela em perigo há muito tempo entala na garganta de um público sedento por representatividade. 2015 nos encheu os olhos com Furiosa, 2016 não pode nos fornecer essa versão de Lois Lane.

Confesso ao leitor que Gal Gadot demorou a me convencer. Foi preciso uma afirmação de pé firme que Batman vs Superman (2016) foi realmente capaz de elucidar-me. Diana Prince é forte em todos os sentidos possíveis e entra em cena segurando a atenção de todos, claramente mostrando-se capaz de facilmente subjugar os protagonistas que aparecem no título do filme. A primeira aparição da Mulher Maravilha, uniformizada e pronta para o combate, é o que me tirou do estágio levemente letárgico que uma sessão de pré-estreia à meia-noite pode eventualmente acarretar. A trilha sobe e ganha ferocidade, o olhar fixo da heroína expressa poder e confiança. Maravilhosa em todos os sentidos possíveis, queremos ser Gal Gadot, queremos ser a Mulher Maravilha.
O subtítulo “Origem da Justiça”, do original “Dawn of Justice” é nitidamente uma referência à introdução da Liga da Justiça ao universo cinematográfico da DC. Antes da estreia do filme, o estúdio confirmou a aparição de Flash, Ciborgue e Aquaman. Não espere a sutileza das cenas pós-créditos ou as referências singelas aos novos personagens, sua inserção é escancarada e de certa forma absurda. Os segundos dedicados à Ciborgue contam sua origem. Flash tem a cena mais interessante. Aquaman, apesar do visual incrível, tem algo de errado (talvez seja o absurdo fato de estar inegavelmente PRENDENDO A RESPIRAÇÃO NA ÁGUA). A motivação é duvidosa e a introdução é estranha. Tire suas próprias conclusões.

Por fim e definitivamente NÃO menos importante, falemos de Lex Luthor. A interpretação de Jesse Eisenberg convence e o papel de Lex é primordial à trama. Vários elementos e movimentos de roteiro dependem de sua intervenção, inclusive no embate final com a criação do “Diabo” que matará “Deus”, uma vez que o homem não o fez. Ostentando uma mente psicótica que transborda em cena, por olhares, palavras e principalmente frases feitas exageradas, é um dos pontos positivos mais destacados do filme.
Em síntese, é um bom filme. Coloco aqui “bom” como resultado de uma montagem confusa, introdução duvidosa da já em processo de filmagem “Liga da Justiça” em contraponto aos excelentes desenvolvimentos de personagens e cenas de ação. Como prometido, não haverá trailer no final da postagem, vá ao cinema com a benção da ignorância se ainda a detém, tenho certeza de que seu veredito se tornará consideravelmente melhor. E sim... Superman sangra (de leve, duas gotinhas, sutilmente).
Obs: Para suprir a ausência do trailer, fiquem com uma imagem da poderosíssima Mulher Maravilha na companhia de Rainha Hipólita, General Antíope e Menalippe, divulgada recentemente pela Warner em relação ao filme solo da personagem. 


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