Vikings - S04E02 - Kill the Queen

Por Roberta Brum

27 de fevereiro de 2016

SPOILERS ABAIXO

Tudo se resume a poder. Poder ilimitado. Nunca é suficiente. Um sempre quer ascender mais. Esta semana Vikings nos trouxe perseguições, batalhas sangrentas e a saga de um ermitão. Kill the Queen não foi um episódio tão sólido quanto a premiere, parecendo um tanto incongruente, com recortes aleatórios. Neste episódio acompanhamos Bjorn, Ragnar, Rollo e Ecbert - todos no mesmo capítulo e com questões extremamente distintas uma da outra.

Apesar dos dois massacres do episódio anterior, a primeira batalha em todo o sentido da palavra aconteceu neste episódio. E veio de um lugar que não imaginava: estamos novamente em Wessex, ou melhor, em Mércia, onde o príncipe Aethelwulf parte em uma missão de resgate resgatando a rainha Kwenthrith e seu filho de uma torre, onde ela se encontra presa, mantida por seus rebeldes. Mesmo apresentando boas sequências, não houve a mesma brutalidade ou visceralidade das batalhas que envolvem os vikings. Nem a engenhosidade ou estratégia nórdica. Ou a força e poder. Não há como comparar Athewolf com Ragnar, Rollo ou mesmo Bjorn em suas batalhas individuais. E não teve a icônica shieldwall - nem a Lagertha, diga-se de passagem - o que tornou a cena em si broxante. 

Também questiono a presença de Juliet, esposa de Aethelwulf (aquela que se envolveu com Athelstan). Ela realmente acrescenta algo? Já sabemos que Ecbert um filho-da-mãe desagradável e extremamente manipulador, não poupando o próprio filho. E essa obsessão mascarada de adoração e interesse genuíno, que não é nada além de assustadora*? O que ela realmente gostaria de fazer, que traria prazer? Trazendo inclusive um professor, que por sinal é o clone do Athelstan (não deve ser coincidência, não é amigos?). O bem-estar e felicidade dela não é o que ele quer. Mas ao mesmo tempo, aprecio a retórica dele, é absolutamente impecável. O discurso sobre liberdade? Exatamente o que ela gostaria de ouvir. O modo como o roteiro desenvolve suas falas, como cada palavra é trabalhada é algo que me prende. Ecbert incorpora, é um amalgama de todas as características que fazem de uma pessoa um grande líder. Independente de considerá-las defeitos ou qualidades.

Enfim, este plot não exatamente me importa, mas me intriga. A distinção entre estes dois termos? Importância requer envolvimento. A curiosidade não. E ela é mais forte, justamente por ser irracional. Não tem motivo em querer saber. Você simplesmente quer. Fora que eu tenho aquela mania chata e incômoda de sempre querer saber os porquês. Todos. Todos mesmos. E Vikings não dá ponto sem nó. Deve haver um porquê da Juliet surgir, do seu interesse em pintura, do monge ser clone do Athelstan. Só não consigo conceber o quê. As associações até então são abstratas. 

Assim, foi um tanto surpreendente este foco em Wessex. Além do fato de considerar este arco encerrado, afinal, as alianças/disputas/acordos/traições entre os anglo-saxônicos e nórdicos foi o destaque até metade da temporada passada e mesmo com a traição de Ecbert, teve sim um ponto final, o tempo investido na parte anglo-saxônica ocupou mais de metade do episódio. E sinceramente não entendo o porquê disto. No episódio em si não houve participação nórdica, algo que acredito que se estenderá durante toda a temporada. Não há nenhum envolvimento nórdicos. Ragnar não voltará a invadir a Inglaterra, seja Wessex, Mércia ou Nortumbria, por mais que descubra a traição do Rei Ecbert. O foco dele é Paris. Rollo, por sua vez, não pensa em invasões e sim na defesa contra invasões. Assim, a princípio, esta trama é paralela ao resto. E minha suposição no foco em seis personagens talvez tenha sido precipitada.
Athelstan pode ter morrido, mas continua central nesta quarta temporada. A relação entre Floki e Ragnar sempre foi singular. E permeada de tensões desde o surgimento de Athelstan. Existe ciúme e inveja? Claro. Mas transcende. A questão da crença e tolerância é âmago de toda a relação. Mas esta nova situação tornou tudo um quanto mais excêntrico: Ragnar está obcecado com a confissão e admissão de Floki. E a negação de Floki tornou Ragnar frustrado o suficiente para bater em Aslaug (como se ela precisasse de mais um motivo para destroná-lo). Não sei a direção que este arco tomará, e se ela realmente planeja uma rebelião (se aliando a Lagertha parece improvável, talvez o próprio Rollo?), mas não está fora do campo de possibilidades. E eu gostaria de ver isso.

Outro ponto em Ragnar é este início distinto dele: tendo ele uma alma aventureira, desbravadora e conquistadora, mesmo na sua coalescência, é estranho vê-lo preso a um lugar (até porque não tenho noção de tempo em Vikings: se passou um dia, um mês, um ano), sem nem ao menos planejar invasões.

Sobre a fuga, captura e posterior punição de Floki: por um breve momento, em especial pela maneira como a cena foi feita, os cortes intercalados entre Helga e Ragnar,  supus que a punição seria ou em Helga ou Agrboda, no sentido que ele torturaria uma delas enquanto Floki assistia. Fora que Ragnar é imprevisível, sendo ao mesmo tempo gentil e brutal. Mas Ragnar foi bem mais engenhoso: em uma posição que remete diretamente à religião e ao falso deus que ele tanto despreza, Floki é torturado lentamente com água.

Já no outro continente, intrigas também permeiam Paris. Therese, a concubina BDSM de Odo, na verdade, é espiã de Roland. Enquanto o primeiro planeja contra o Imperador, o segundo planeja contra os dois. O que sei é que de algum modo sobrará para o Rollo. Estes dois homens são os comandantes em Paris, mas ainda não decidi se veem Rollo como uma ameaça ou como aliado, ou uma combinação dos depois, conforme o momento. E como Rollo os vê. Pode ser ingenuidade minha - ou dele -, mas aparentemente, Rollo por sua vez, cumpre sua parte: ele, juntamente a Odo e Roland, criam estratégias para melhorar a defesa da cidade contra um ataque viking.

O corte de cabelo e as roupas de Rollo simbolizam um adestramento e uma ruptura. Rollo agora é civilizado. Não mais um viking selvagem. Rollo é um Duque, o sexto título mais alto na escala nobiliárquica (atrás apenas de Imperador, Rei, Príncipe, Infante, Arquiduque e Grão-duque, mas acima de Condes, como Odo)Quase tão poderoso quanto seu irmão. Mas a que custo? Traindo seu povo, sua crença, preso em um casamento miserável, cercado por pessoas desconhecidas e em quem ele não pode confiar e tendo um alvo em suas costas, afinal, apesar de suas tentativas, ele ainda não (e provavelmente não será) aceito.

O que mais me incomoda é este casamento miserável, até porque shippo estes dois infelizes (ainda acredito que Gisla sente uma atração extremamente indesejada por Rollo). Nem ele nem Gisla devem ser julgados por suas respectivas ações, por mais escrotas e desumanas que sejam. Nenhum deles está neste casamento de boa vontade. Assim, quando ele se submete aos costumes francos em uma tentativa, não de agradá-la, mas de ter uma convivência mais amena, e ela simplesmente ri da cara dele, humilhando-o, inferiorizando-o, não deixa de ser um mecanismo de defesa e um elemento de revolta. Rollo está tentando? Está. Mas Gisla continua sendo vítima de um patriarcado. Assim como Rollo. Ele também não deixa de ser vítima. Por causa de uma sociedade que vê no casamento formas de aliança? Sim. Mas também por ganância, cobiça e inveja. Ele é vítima das próprias ações. Além do mais, nenhum dos dois possuem exatamente um amplo arsenal de escolhas. Ela menos ainda por ser mulher. Rollo mesmo sendo estrangeiro/inimigo/bárbaro/selvagem/ocaralhoaquatro, apenas por ser homem, é superior a Gisla. Não apenas superior, mas dono. Gisla é sua propriedade. Por isto, um estupro seria indesculpável e irreversível. Estupro é estupro. Ponto. Por mais que seja contextualizado à época.
De modo geral, Kill the Queen não manteve o ritmo nem a força do episódio anterior. Foi um tanto confuso e atípico ver tantos arcos distintos no mesmo episódio, especialmente por - a princípio - não apresentarem um ponto de convergência e por isto parecem desconexos. Porém, Vikings é uma série que não desperdiça tempo. Então por mais banal que a cena de Bjorn pescando e comendo peixe tenha sido, na sua cruzada em busca de provação (e aprovação), há um motivo atrelado.

OBS.: 

1- Vikings destaca-se entre tantas produções ditas históricas, não digo verossimilhança, mas sua concretude. Não há romantização, demonização ou idealização. Os fatos são apresentados como são. A cultura viking para mim é apaixonante, em especial pelo desconhecimento. Na escola e na academia estuda-se cultura egípcia, e principalmente e densamente, a greco-romana.  À cultura nórdica, o esquecimento. Ou esta é relegada à simples vala comum de povos bárbaros invasores por nossa historiografia eurocêntrica. Por isso, sempre quis saber mais sobre. E Vikings emerge como possibilidade. Agora mais ainda, para conferir a veracidade das punições, das leis, dos papéis de gênero. Por exemplo, os filhos de Ragnar (crianças) estavam na armada que perseguiu Floki, sendo que foi um deles quem o encontrou. Esta inserção precoce na vida adulta realmente acontecia? Eram só os do gênero masculino? Eram práticas similares às dos espartanos (viu só? Minha referência é clássica). O fato da série fazer-me questionar situações banais como esta só faz com que me envolva ainda mais.

2 - Não me escapou o fato do resgate de Kwenthrith ter uma "aura" à la Disney (sem a mágica nem a música) nessa coisa toda de  príncipe resgatando a princesa (no caso, rainha) na torre. Foi uma coisa semiótica, digamos assim. E provavelmente seja eu vendo coisa onde não tem, mas ri um pouco.

Esse texto foi escrito por: Roberta Brum
Comentário(s)
0 Comentário(s)