Vikings - S04E01 - The Good Treason

Por Roberta Brum

19 de fevereiro de 2016


SPOILERS ABAIXO

Terminou a seca \o/
Voltaram as batalhas viscerais, mortes devastadoras, reviravoltas de soltar vários palavrões, a constante disputa pelo poder, aquele misticismo cativante  e personagens fantásticos.

A temporada passada desvendou parte (e indicou claramente o restante) da profecia: "não serão os vivos, mas os mortos que conquistarão Paris" e esta desenvolve o restante: "e a Princesa coroará o Urso, o que não trará nada de bom para você, Ragnar". A princesa Gisla casou com Rollo, firmando uma aliança que postula que Rollo defenderá Paris das invasões do irmão.

Assim, Vikings retoma de maneira definitiva a rivalidade entre os irmãos: Rollo e Ragnar. A dicotomia entre ambos sempre foi algo constante e bem trabalhado na série, porque não é idealizada e muito menos idílica. Fugindo do cliché do simples amor ou ódio entre irmãos, a relação entre Rollo e Ragnar é um dos pontos mais atraentes na série justamente por ser real: tem inveja, ciúme, confrontos, discussões, generosidade, amor, eles discutem, possuem pontos de vida diferentes, mas defendem e acreditam um no outro: é uma verdadeira relação de irmandade. Mas desta vez não tem volta. Rollo já havia se convertido ao cristianismo uma vez e se aliado ao inimigo de Ragnar - Jarl Borg na segunda temporada - porém o que ele fez desta vez foi horrível. E irreversível. 
"Ragnar é tudo que não posso ser" dizia Rollo, e agora ele consegue ser tão poderoso quanto o irmão ao custo de uma traição.

"The Good Treason" cumpriu sua função: retomou questões pendentes e apresentou novas e foi aquele episódio que faz 45 minutos parecerem 10. Ragnar inicia a temporada ainda doente, deitado inconsciente, delirando com os portões de Valhalla, Auslaug perguntando ao vidente* se uma mulher comandaria Kattegat depois da morte dele (e obtendo uma resposta positiva) e um intercalamento de imagens que pode ser resumida em duas palavras: traição e morte. Ou seja, incapaz e impotente.

Bjorn assume provisoriamente a posição do pai e uma das suas primeiras ações é ordenar a prisão de Floki pelo assassinato de Athelstan. Particularmente considero uma atitude justa e legal, primeiramente por ser um crime punível dentro das leis vikings, mas em em especial por demonstrar consideração ao nosso querido monge e sendo uma forma de legitimar a relação de Athelstan e Ragnar, valorizando-a, apesar de não aprovada. Não considerei uma traição. Nem quando Floki pede que Bjorn admita que tinha ressalvas quanto à confiança cega que Ragnar depositava no monge e a influência deste, afinal, Bjorn tinha ressalvas, mas ao mesmo tempo confiava no seu pai e também em Athelstan. Vejo este conflito entre crenças diferentes (mitologia nórdica e cristianismo) um dínamo na série, algo que não me canso de ver.


Ragnar, como era esperado, ao ser informado do fato, critica a atitude do filho. Sim, a prisão de Floki o deixa em uma posição difícil, mas não foi uma decisão leviana e insensata como ele fez parecer, pelo contrário. A relação entre pai e filho sempre será conturbada, não adianta. Assim, o plot de Bjorn novamente se volta à busca de aprovação do pai, que ainda o considera fraco e imaturo.

Sobre as traições do título do episódio, foram quatro - ou ao menos que podem ser lidas como tais - , envolvendo Bjorn, Kalf, Lagertha, Erlendur, Einar e a fatídica de Rollo. A imprevisibilidade constante é algo que o roteiro: não é possível prever nada. É reviravolta em cima de reviravolta. 
Todas as cenas do Erlendur me levavam a crer que em determinado momento ele mataria a Lagertha (tentaria, ao menos), principalmente quando ele pegou a besta. Inclusive durante houve a reviravolta de Kalf e Einar, quando Erlendur se retira da barreira, só pensava "é agora!". Mas ainda acredito numa possível tentativa de assassinato.

A própria "traição" do Kalf foi inesperada. A atitude dele em compartilhar a liderança e domínio com Lagertha (que foi uma surpresa) claramente traria discordâncias, assim, a atitude de Einar não foi exatamente inesperada. Porém, sendo Kalf extremamente racional, a pronta aceitação dele à reclamação de Einar foi algo duvidoso, sensação logo desfeita com a cena seguinte, na qual ele reúne todo o povo e democraticamente tenta resolver o impasse. Mesmo assim, cogitar a possibilidade de banimento da Lagertha não é algo que se faz, migue. Principalmente por ser palpável a admiração e respeito que ele tem por Lagertha. Então parte minha se recusava a acreditar que ele faria uma filhadaputagem dessa. Então, ele dando o comando de ataque foi um dos pontos altos do episódio, ponto este solidamente construído. Simplesmente amei o desfecho. Einar não deixará saudades.

Nesta premiere, reafirmo uma opinião: a maternalidade de Auslaug e o instinto protetor é algo que me encanta. Em dois momentos específicos tais sentimentos são explícitos: quando Bjorn renega a filha e quando este se despede de Ragnar de um modo frio - por parte do pai.  Isto de certa forma opõe Auslaug e Ragnar e indica fraquezas dele: ele não é um bom pai. Dentro da sociedade patriarcal viking está contextualizado, afinal homens e mulheres detinham funções específicas. Entretanto isto não tira a força da personagem. Alyssa Sutherland transmite de uma forma tão poderosa e forte todo o  porte, a segurança, a independência de rainha. Em ambos os casos apenas com o olhar. Confesso que cheguei a cogitar uma possível traição por parte de Auslaug. Ela "acelerando", digamos assim, a morte de Ragnar. Ainda cogito. E não sei se condeno.

Outro ponto a salutar neste episódio - e além de alegrar, até emocionar - é ver Ivar crescido, saudável tendo uma infância normal, brincando com seus irmãos: o tataravó da cadeira de rodas é de uma engenhosidade ímpar. A sensibilidade do roteiro emerge nestes pequenos detalhes. Ou quando Auslaug conversa com seus filhos e fala que até Ivar seria um guerreiro. Neste tocante, Auslaug sempre terá isso a seu favor (e Ragnar contra). A tensão e conflitos entre Auslaug e Ragnar aumentaram, o que me pensar que Ragnar volta-se apenas à invadir e conquistar, à sua glória. O dia-a-dia, a rotina de seu povo não o interessam. Além disso, quem investe na relação é sempre a mulher. Tanto com Lagertha nas temporadas passadas como com Auslaug, Ragnar parece desinteressado e sempre aberto a novas aventuras.

E chegamos ao ápice: Rollo. A traição infame. Ele apenas aparece lá pela metade do episódio, mas rouba a cena. Ele entra em cena ao casar com Gisla. O fato do casamento à época não ser por amor, sendo meramente uma forma de firmar alianças, ascender socialmente e potencializar riquezas sejam elas ouro ou territórios não torna assistir uma noiva sendo obrigada - às lágrimas - a se casar, mais fácil. Ela entrou, mentira, foi levada à força ao quarto nupcial, literalmente carregada. Ao mesmo tempo, a noite de núpcias (se é que se pode chamar disso), foi inesperada. O roteiro amenizou e suavizou toda a situação com um toque cômico. Apesar de toda questão do abuso, a quebra de expectativa foi uma boa estratégia. Eu ri. E bastante. Rollo, um viking, agiria como o monstro e selvagem que Gisla o considera, sendo brutal e simplesmente a estupraria. Era o esperado. Mas não foi isso o que aconteceu. Uma pequena observação: o fato de ele não fazer isto não é motivo de comemoração e elogios, afinal, ele não fez nada além da obrigação. O fato de ele não tentar forçá-la ou mesmo seduzi-la foi uma saída interessante. Entretanto, a força da cena reside no diálogo (mesmo e principalmente pela barreira linguística), as atuações e o inusitado da situação, fatores que tornaram a cena engraçada. Primeiramente, Gisla levar uma faca para a cama; segundo, ela pensar que uma faca deteria Rollo (ele simplesmente ri da tentativa dela); terceiro, ele deixar a faca com ela, virar as costas e deitar como se nada tivesse acontecido; quarto, enquanto ela o ameaçava com a faca (o que por si só é engraçado, era óbvio que ela não mataria ele, ela não mata nem uma mosca), ele simplesmente reclamava que a faca fazia cócegas; quarto, ela indignada que ele dormiu. Sem dúvidas esta cena foi um dos pontos altos do episódio. Mais uma observação, o casamento não foi consumado, sendo passível a anulação.

Shippar Rollo e Gisla é complexo para mim. Uma parte de mim condena porque o que está acontecendo ali é abuso, visto que ela claramente está sendo obrigada ao casamento (apesar da atração por Rollo que ela combate). Esta parte não concebe romantizar um "relacionamento" assim. E a outra simplesmente considera que os dois têm uma química absurda e combinam perfeitamente. Estas duas partes estão conflitantes... É a mesma coisa que sinto ao shippar Daenerys e Drogo. Anyway, this ship has sailed e shippo e muito Gisla e Rollo. 

E o que falar da Lagertha? Rainha. Guerreira, feroz, protetora, uma verdadeira líder. E graças à estas qualidades ela se vê como a razão de um conflito em Hedeby, já que ela e Kalf dividem o poder. Mesmo não sendo casados e não havendo hierarquia entre eles, ambos são Earl do povo. Respeito o Kalf, o modo como ele foi construído, mas não simpatizo com ele. Mesmo com este certo vanguardismo na noção de igualdade de gênero que ele tem, todo o discurso empoderando Lagertha, toda a faceta amigável, sensata e calma dele não me trazem confiança. Neste ponto, Kalf me lembra o Ragnar. 


Ainda neste sentido é importante ressaltar: se não houvessem razões suficientes para amar Vikings, temos igualdade de gênero! Kalf rompe com o patriarcado, ao assumir a mesma posição de poder e liderança que Lagertha. Não apenas no retorno à Hedeby, mas principalmente no "espetáculo" criado para Einar. A sequência toda, a troca de olhares e aprovação entre os dois foi fabulosa. A cena em si foi bem feita, em especial a tomada do rosto da Lagertha com sangue foi magnífica. Se tornou icônica para mim. Toda a força e poder estavam estampados lá.

Mesmo com esta amistosidade, acredito que Lagertha cumprirá sua palavra, se vingará e acabará por matar Kalf. A relação deles é incomum e justamente por isso, uma das minhas curiosidades e interesses na série: ele a traiu ao tomar o posto de Earl dela, ela é ciente disso, já se confrontaram, meio que são friends with benefits, um confia no outro, ele delegou poder à ela (teoricamente ela detém tanto poder quanto ele), mas ela ainda não o perdoou pela traição, e por isto cedo ou tarde acabará o matando, ele sabe disso e ambos aceitam a situação. Por mais paradoxal que pareça, acredito na situação, e além, amo tudo isso. 

Voltemos à Rollo. O que mais me inquieta neste verdadeiro massacre é que este o deixa enfraquecido e desprotegido. Não era do interesse dele ficar desguarnecido. Ao matar seu povo, ele mata seus defensores, mesmo os que não concordavam com sua conversão ao catolicismo e sua ascensão à nobre. Ele troca uma possível rebelião pelo isolamento. Os franceses podem simplesmente matá-lo. Não há ninguém para defendê-lo. Seria uma prova de lealdade aos parisienses? Acho improvável. O que ele quis com esta ação foge da minha mente. Ao mesmo tempo, ele troca uma possibilidade por uma certeza: a traição é imperdoável aos vikings. Se a lealdade viking já era de Ragnar, com isto nem se cogita uma lealdade à Rollo, que provavelmente se tornará um general franco. Mesmo com o poderio armamentista franco, seja em armas mais avançadas (a besta ganhou guerras) e números de homens, os vikings ainda são mais poderosos. Ao mesmo tempo, é uma incógnita como esta traição chegará a Ragnar.

Suponho que não seja uma opinião popular, entretanto, mesmo assim prefiro o Rollo ao Ragnar. Sou fangirl dele. Ambos são guerreiros excepcionais, destemidos e ousados, mas Ragnar é cérebro e Rollo coração. Um pensa, o outro age. Rollo é explosivo, intempestivo, passional, e Ragnar é racional, flexível e razoável.

Deste modo, assistir a frieza e impassividade de Rollo enquanto seu povo era massacrado - inclusive crianças - graças à uma emboscada tramada por ele não foi fácil.  Não teremos o Rei Horik, Jarl Borg, Rei Ecbert e Imperador Charles da França como adversários. Será a definitiva batalha entre Rollo e Ragnar.

Outro ponto interessante em Vikings é o foco: nesta temporada, a princípio, são narrativas focadas em seis personagens principais (Lagertha, Auslaug, Gisla, Rollo, Ragnar e Karl). Haverá tempo de tela para todos e boas histórias.

Apenas um detalhe me incomodou: o novo interesse romântico de Ragnar, a escrava francesa comprada por Auslaug. Completamente desnecessário.

O que mais me interessou neste episódio, porém, foi o "uma mulher comandará Kattegat". Auslaug teria condições de tal feito, porém se realmente se concretizar, deverá ser a Lagertha. Apesar de ser muito fã da violência do Lagertha (assistir ela castrando Einar enquanto o olhava nos olhos foi orgástico), ela está longe do arquétipo bidimensional da "mulher forte": aquela mulher guerreira que não precisa de homem nenhum e zomba de coisas tradicionalmente femininas, como emoções. Ela daria própria vida - e de outras pessoas - por seus filhos. Ela é maternal e amorosa de um modo que personagens femininas são muitas vezes criticadas por ser. Quando ela se tornou Earl na temporada passada, mostrou aptidão para assuntos políticos, reforçada pela real preocupação com seu povo. Sua inteligência estava a serviço de estratégias que tornem a vida melhor. Ela não se apenas com riqueza e glória. Ela tem muita de empatia emocional, e nenhum dos outros personagens que nunca pensariam nela como "fraca" por causa disso. Estas características, especialmente a questão maternal e a justiça, estão presentes em Auslaug também. Ambas são exemplos de personagens femininas complexas e bem escritas.

Migues, sério, como é que tu não vai amar uma história dessas? 

Sem dúvida, Vikings voltou com tudo e uma temporada promissora.

Esse texto foi escrito por: Roberta Brum


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