The Good Wife - S07E14 - Monday

Por Roberta Brum

19 de fevereiro de 2016


SPOILERS ABAIXO

Reitero o que já disse em duas reviews anteriores: TGW entrou em loop eterno e por este motivo comemorei o anúncio de que esta sétima temporada será a última da série.

Especificamente do episódio da semana, este bem poderia ser intitulado como "O Bom Filho à Casa Torna". Ironicamente (ou não), voltamos à primeira temporada, com Alicia ocupando o 27º andar da firma, como associada da Lockhart, Agos & Lee.

Nesta repetição da série, o décimo quarto episódio da temporada nos apresenta quatro plots:

- a volta de Alicia à Lockhart, Agos, & Lee;
- uma nova investigação do FBI;
- o racismo da firma;
- um novo caso envolvendo a ChumHum, agora com a "perda" de um protótipo de Tablet.

A surpresa talvez tenha sido o retorno, não diria súbito afinal é algo que paira a série a tempos, de Alicia à Lockhart, Agos & Lee. Mas foi um tanto surpreendente porque mesmo havendo a oferta de Cary, Alicia estava inclinada a não aceitar e neste episódio é apresentado como fato dado.

Apesar disto, pode-se dizer que foi um episódio sólido, mas ao mesmo tempo com algumas contradições, principalmente de evolução de personagem. Primeiramente Marissa, que depois do Exército Israelense e assistente da Alicia, trabalha como atendente em um estabelecimento de sucos naturais. Não que não seja um emprego digno, mas conhecendo tanto Marissa quanto Eli, não é um fato exatamente crível. Mas valeu pela interação de ambos e as expressões de pai orgulhoso de Eli, ao saber que Marissa gravou conversas, obteve evidências no que parecia apenas um banal encontro. Em suma, os melhores momentos ainda pertencem aos Gold.

Outra contradição foi Diane, que fazendo a Dory, esqueceu todo e qualquer receio e rusga com Alicia, em especial as "traições" do início da temporada com o roubo de clientes, e recebeu Alicia calorosamente, com um belíssimo sorriso e discurso de boas-vindas. Entendo a necessidade de um clima de trabalho ameno, porém esta não é a Diane de temporadas passadas, defensora de seus ideias, ativista, politicamente engajada. Ela foi muito mansa, não emergiu nenhuma tensão como era esperado. A única ressalva feita foi sobre possível independência e resistência à supervisão de Alicia, devido ao seu tempo autônoma. Realmente, Alicia pegou o bonde andando e quis sentar na janela, já assumindo casos e tomando decisões sem consultar os sócios e pensando enquanto firma. Alguns podem ver como autonomia e proatividade, porém foram atitudes ambíguas. Ao mesmo tempo, ela lembra a Alicia engajada do início, que advogava pelos interesses individuais, defendendo o que acreditava e não o que era melhor para a firma.


O diálogo entre elas - o qual eu esperava um verdadeiro embate - foi fraco. E simples. Calmo demais. Civilizado demais. São duas gigantes que tinham um conflito não resolvido. Não esperava tapas e puxões de cabelo, mas um confronto inteligente e inflamado. Porém, nada disso foi visto. O que tivemos foi mais uma mostra da nova Alicia, sarcástica como nunca e uma Diane extremamente diplomática.

Encerrando estas contradições, temos Ruth, que retornou confrontando Eli sob a investigação do FBI e saiu alertando Alicia sobre ninguém menos que Peter Florrick, a pessoa que ela defendeu como uma leoa durante sua participação inteira, dizendo que ele pode "arrastá-la para baixo e destruir tudo o que ela fez e quer fazer". Como Eli mesmo disse, ela tinha razão e Peter tem um alvo nas costas. E o FBI será o primeiro a atirar. Porém este alerta destoa do que foi apresentado até então. Tudo bem que quando ela trabalhava para Peter, tinha um objetivo por trás da defesa e aparentemente tinha um carinho genuíno por Alicia, mas mesmo assim, Ruth colocá-lo como inimigo número 1 de Alicia, sugerindo inclusive um divórcio o mais rápido possível não serve para outro propósito além de apontar o elefante na sala. Mais um plot twice mal remendado.

Falemos então do elefante na sala: o casamento de Alicia. São casados, mas estão casados? São dois estados diferentes. Concebo o casamento deles como fachada, isto é óbvio, mantido apenas por questões de imagem. Como casamento aberto ainda não é algo aceito pelo grande público, Peter e Alicia permanecem "juntos" (no papel e na televisão ao menos) por motivos extremamente românticos: campanhas políticas, afinal nossa sociedade conservadora precisa de políticos bem casados (cis gêneros e heterossexuais), com uma família de comercial de margarina, porque do contrário, parecem incapazes de realizar qualquer feito e não transmitem confiança e segurança nenhuma. Mas um casal de fachada com certeza.

Alertando Alicia, Ruth traz à tona algumas questões: por que ela simplesmente não se divorcia? E algo que me inquieta sempre: como ninguém descobriu este acordo deles? Eles já não moram juntos, seus filhos já possuem maturidade suficiente para aceitar uma separação (filhos estes que não entram mais na equação do relacionamento na direção que a narrativa da série segue), cada um têm sua vida (não que isto seja errado, visto que o fato de duas pessoas serem um casal não anula a individualidade de cada uma), e não há nada que os una, pelo contrário, a reação de Alicia à revelação de Eli sobre Will e o "interesse" dela por Jason Crouse (extremamente forçado, me desculpem, não há química nenhuma ali) só demonstram como a relação de Alicia e Peter está desgastada, monótona e desinteressante. Nem conflitos tem mais ali. Cada um faz o que quer, sem pressão nenhuma.

Quanto ao caso, este volta-se ao novo tablet da ChumHum, ainda não lançado, que caí nas mãos do chefe do departamento de TI da firma, David Howell que nestes tempos líquidos, instantâneos e exibicionistas, obviamente publica uma foto no Twitter (e o Instagram, meu povo?), recebe ofertas de sites especializados e é acusado por Neil Gross de roubo. É atual e pertinente, apesar da fala babaca de Neil Gross (e que reflete o pensamento do segmento) de que os Golias são as vítimas, os novos Davis, ou seja, a tecnologia não é criada em garagens como antigamente e sim em grandes corporações, que são alvo de todas as críticas possíveis, apesar do ~louvável~ trabalho que realizam. Em suma, ele quer ser endeusado. 



Nesta parte jurídica, coube à Lucca as alternativas e soluções criativas, sendo ela a salvadora e o dínamo do caso, apesar de Alicia ser a defensora principal - que estava perdendo, diga-se de passagem. Alicia parece estar perdendo a força. Vejo um dualismo geracional entre ambas: Alicia, a retrógrada e Lucca, a moderna. Apesar do sarcasmo e acidez, Alicia não tem a sagacidade, timing e criatividade de Lucca. Mas gostei bastante da posição que Alicia assumiu perante Diane de não apenas defender Lucca, mas também de se colocar como mentora dela. Lucca realmente é um prodígio e uma excelente advogada, fora que Cush Jumbo fornece uma empatia sensacional à personagem. Já Cary e Diane apenas opinaram se o caso deveria ou não ser aceito, mas devido à situação, acabaram sendo obrigados a assumir. E confesso que sinto falta de acompanhar as investigações de Khalinda, que agora se resumem a Jason Crous entregar documentos aos advogados.

Cary não foi bem aproveitado, fazendo somente as vezes de maître e apresentando uma pessoa à outra, além de alocá-las, seja em salas ou casos.

Entretanto o que mais me incomodou foi a constante (e extremamente necessária) necessidade enfatizada em apresentar Monica e Lucca. Nós entendemos, vocês são racistas. Querem que as duas mulheres negras do escritório trabalhem juntas, porque isto é primordial e imprescindível para mostrar como vocês não são preconceituosos. Foi constrangedor assistir à estas cenas.

Dos detalhes, manteve a tradição de TGW: todo juiz tem sua peculiaridade e neste caso foi uma invasão de formigas. Mas não foi nada engraçado. Saudades de Charles Abernathy.

Achei a marca da tequila simbólica: "El Audaz", ou "O Ousado", ou ainda "O Corajoso". Se tem uma coisa que gosto na Ruth é o fato de ela gostar de bebidas fortes e com minha pequena queda por tequila, gostei ainda mais dela nesse episódio pelo bom gosto. Neste sentido, ousado ou corajoso pode significar esta nova fase da Alicia e também, sendo forte, algo que ela precise no futuro. Não a tequila em si apenas, mas força e coragem.

O título do episódio também é simbólico, tendo a meu ver, duas chaves de leitura: a primeira no sentido de início e o segundo, enquanto segunda-feira, conhecido pelo senso comum como o pior dia da semana, ou o dia favorito de Murphy, onde nada dá certo. Isto significa ao mesmo tempo, para Alicia, o encerramento de um ciclo e um recomeço (literal neste caso) e também como um erro, algo que não deu certo. Neste simbolismo, Monday representa o encerramento de um ciclo, e TGW literalmente fecha o círculo, voltando aonde começou: Alicia como associada de uma grande firma e Peter sendo investigado. Só falta eclodir um escândalo. 

Temos então o início do fim!

OBS.: Todo mundo nessa série se apaixona pela irresistível Lucca, não é?

Esse texto foi escrito por: Roberta Brum
Comentário(s)
0 Comentário(s)