Mais Cinema: "A Revolução em Dagenham" (2010) de Nigel Cole

Por Ana Carolina Teles

1 de fevereiro de 2016



Um tocante filme sobre uma das inúmeras lutas feministas executado formidavelmente para todo tipo de público

O que dizer de um filme leve, com um belo tom cômico, que trata de um assunto extremamente sério e relevante? É isso que notamos ao assistir o deleitoso Revolução em Dagenham, - Made in Dagenham, em seu título original – que trata sobre um capítulo importante da luta feminista que começou a ganhar força já na Revolução Francesa, no séc. XVIII. Aqui, o diretor nos prende, por meio de uma narrativa empolgante, a essa história que, ao mesmo tempo que é incrível e corajosa, também é triste e penosa.

Com um empenho primoroso de Sally Hawkins na pele de Rita, vemos neste filme, a fábrica Ford, com sede na terra da Rainha, na qual se empregava mais de 40 mil britânicos nos anos 60, porém apenas 187 eram mulheres: as costureiras.

De início, principalmente se a espectadora é mulher e busca cada vez mais seu lugar no mundo como eu, o filme causa muita revolta. É inaceitável saber que nossas antepassadas sofreram e tiveram que lutar tanto para almejar algo tão pequeno e tão óbvio, e o que mais pesa nesse momento, é perceber que ainda sofremos da mesma forma, mas lutamos motivadas com a esperança de que nossas filhas não precisem passar por nada similar em suas gerações.

Com o desenrolar da trama, conhecemos uma costureira determinada e convicta de sua luta: Rita O’Grady é uma espécie de presa que tenta sobreviver à selvageria de seu predador, que aqui, obviamente, além do homem ser o grande opressor, vemos algo que vai além da luta de gêneros: o dinheiro. Logo quando as costureiras se cansam de receber salários pífios que jamais convinham com suas habilidades profissionais, começa a se notar o desespero de seus superiores, os grandes chefões da ilustre fábrica de carros. Inconformados com o pedido de salário justo por parte das trabalhadoras, tentam, de todas as formas possíveis, aniquilar essa “rebeldia” pela raiz, mas isso acaba por se tornar impossível, pois quando uma grande massa se revolta, é difícil de conter.


Deste modo, após não suportarem mais as desigualdades vividas, as costureiras resolvem declarar greve, e a fábrica, pouco a pouco, para. É uma evidência concreta que o longa deixa para que todos percebam o tamanho da injustiça ali presenciada por aquelas mulheres, o que, de uma maneira ou de outra, deveria acabar. Rita é bravamente impulsiva e não abandona seus ideais. Ressalta-se que, a princípio, o seu marido parece ser uma exceção e que iria apóia-la de todas as maneiras, porém em um dos pontos altos do filme, quando assistimos a uma séria discussão dos dois, percebe-se que ele, como o resto dos homens daquela época, achavam que respeitar a mulher, tratá-la com carinho, cuidar de casa e de seus filhos, os tornavam “santos” (vale lembrar que hoje, em pleno séc. XXI, infelizmente ainda vemos situações semelhantes na realidade), o que Rita faz questão de berrar a sete ventos: “Você acha que é um santo? É assim que deveria ser, Eddie!”, momento que particularmente me tocou de forma intensa. Afinal, por que caralhos ela tinha que EXPLICAR isso ao seu marido? Não deveria ser ÓBVIO? É, parece que não.

Importante comentar a relevância de Rosamund Pike, atriz que sempre pontual e prática, interpreta Lisa Hopkins, mulher de Peter Hopkins, um dos diretores da fábrica. É uma mãe dedicada, uma mulher inteligente, extremamente capaz, porém, como ela mesma fez questão de dizer: “Sou formada em uma das melhores universidades do mundo, mas meu marido me trata como uma burra”, outro momento tocante. Não se deve esquecer que após o diálogo com Rita, esta se sentiu com mais força para continuar lutando pelos seus próprios direitos, que é sempre bom dizer: “Direitos não são privilégios!”. E, a belíssima Miranda Richardson, que vive Bárbara Castle, a ministra do emprego na época em questão, uma mulher forte, que manda e desmanda em seu gabinete, teve primordial participação quando abraçou de vez a luta das operárias e peitou um dos representantes norte-americano da grande empresa, determinando que de imediato o salário das mulheres se assemelhariam a 92% ao dos homens, e que, a longo prazo, seria criado leis trabalhista igualitárias e eficácias no País (o que ocorreu não só na Inglaterra, como em outros países que seguiram o exemplo).


Por fim, este, sem dúvida, é um filme pra você mostrar para aquele seu amigo sem noção ou amiga desinformada, que sempre proferem frases horripilantes como: “Feminismo? Pra quê?”. Com um tom tranquilo, até um pouco demasiado em alguns momentos, te leva a imergir em uma história necessária e dolorosa, aquelas que ainda se deve contar às suas filhas, netas e bisnetas. Se o objetivo de Nigel Cole era agregar conhecimento histórico sem dar tanta dor de cabeça ou até mesmo tédio, conseguiu com êxito.




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