Mais Cinema - "Carol" de Todd Haynes e a Corrida Para Melhor Atriz de 2016

Por Ana Carolina Teles

27 de janeiro de 2016

O aclamado romance do, sempre criterioso, Todd Haynes que vem surpreendendo seus espectadores e sua imensa crítica 

Assim que acabei de assistir, pela primeira vez, Carol, meus olhos marejados e estagnados à tela, já sabiam que eu acabara de ver uma tremenda obra prima. O que Todd Haynes alcançou aqui, com a participação essencial de Carter Burwell e Edward Lachman, é algo que há tempos não se via nas grandes telas, não com esse grandioso toque sensível e exuberante.

A história se passa em uma Nova Iorque dos anos 1950, a cidade que nunca dorme é palco para um romance saboroso de se acompanhar. Quando Cate Blanchett surge em cena, a sua elegância é notável, de cara já se percebe: Carol. O nome da mulher madura, que vive um processo de divórcio com um homem inconformado e ainda, a briga pela custódia de sua filha pequena, é o que faz com que Therese perca as estribeiras, sendo inevitável fugir dessa paixão incessante.

A naturalidade com que o romance se desenrola, sendo pouco necessário palavras para preencher os momentos que o casal protagoniza, é incomparável. Os olhares coniventes, os toques suaves e a posição de uma perante a outra em cada cena são detalhes importantíssimos para se sacar o amor que brota quase instantaneamente.

A atuação impecável das duas mulheres nos serve de inspiração, pois, quando há tamanha cumplicidade compartilhada em cena, fica bem mais fácil encarar o roteiro como a própria realidade, e é isso que essa dupla nos apresenta: um romance honesto, sem mordaças; a pura sensação de que não escolhemos a quem oferecemos nosso amor, sentimento este que, tantas vezes, dói como navalha na carne.
O drama, os desentendimentos, ou seja, a parte sofrida do relacionamento, é mostrada de uma maneira nada cansativa, muito pelo contrário, você sorri e chora ao mesmo tempo. Fica impossível não torcer pelo casal quando se percebe o quão solitárias ambas se encontram quando estão afastadas de suas presenças, mesmo no meio de inúmeras outras pessoas. 

Haynes (Longe do Paraíso e Não Estou Lá) soube conduzir de uma maneira pragmática, mas também, tranquila, o rendimento dessa belíssima história, tal qual é baseada no livro de Patrícia Highsmith: “The Price Of Salt”. Com a direção de fotografia responsável por Lachmann, o qual não hesitou em nos deixar extasiados explorando os seus cenários de forma simplista, porém, encantadora.

O ponto forte do filme, principalmente para quem admira um boa trilha sonora, é a composição de Carter Burwell, obviamente que todo o processo de montagem do longa faz grande diferença, inclusive saber encaixar cada diálogo de forma exata em cada cena, cada troca de olhares. Existe uma cena em específico, quando as duas estão andando de carro, Therese no banco de carona; ali, os poucos diálogos que elas trocam são submersos pelos toques serenos da harmonia, a lente enfoca os olhos desconcertados da menina, a fim de evidenciar o deslumbramento da mesma em relação à Carol. É de uma beleza sem igual como é realizado o ajustamento de todos aspectos técnicos do filme.
Não fugindo das projeções, tendo em vista as preferidas dos prêmios Globo de Ouro e SAG Awards, Cate enfrenta na briga pelo Oscar de melhor atriz principal, as seguintes: Brie Larson, (Room); Saoirse Ronan (Brooklyn); Charlotter Rampling (45 anos); Jennifer Lawrence (Joy - O nome do sucesso). A campanha e torcida da crítica deste ano fica para Brie Larson, pela sua incrível performance em Room, de Lenny Abrahamson, filme, este, que trata sobre abuso continuado seguido de um sequestro que se prolonga por sete anos, não só da personagem de Brie, como de seu filho, fruto da relação doentia com o seu sequestrador e molestador. 

Rooney Mara, por sua vez, entra na disputa por melhor Atriz Coadjuvante (um grande erro, na minha humilde opinião), e suas concorrentes são: Jennifer Jason Leigh (Os 8 odiados); Rachel McAdams (Spotlight); Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa); Kate Winslet (Steve Jobs).

A disputa esse ano para a busca de melhor atriz (principal) será bem acirrada, são trabalhos minuciosos e prontos para estarem no topo, sem nenhuma exceção. Evidentemente, a minha torcida é para Carol, seja por Mara ou Blanchett, ambas em atuações brilhantes. É pouco provável que a Academia presenteie Cate pela segunda vez -como principal-, em 2016, haja vista que ela tenha sido a escolhida por Blue Jasmine (2013), de Woody Allen, em 2014, e, como sabemos da fama desses velhos jurados de premiar e exaltar as revelações do ano, ao menos de vez em quando, a chance já diminui. Mas também, não se pode menosprezar a capacidade dessa premiação em nos surpreender, mesmo que tal fato não ocorra com muita frequência. De qualquer maneira, seja qual for a escolhida para receber a estatueta de ouro, na categoria de atriz principal ou coadjuvante, deverá ser reconhecida e aclamada, pois, são belos longas com atuações pontuais e significativas.
Comentário(s)
0 Comentário(s)