Mais Cinema - A Trilogia Do "Antes"

Por Ana Carolina Teles

21 de dezembro de 2015


 “Antes do amanhecer”, “Antes do pôr do sol” e “Antes da meia noite”: as belíssimos películas que compõem essa obra clínica do majestoso Richard Linklater

É uma façanha complexa conseguir retratar espontaneamente o exato momento em que duas pessoas se apaixonam, bem como, apreender a expectativa de seu espectador, este que, após poucos minutos, já afirma para si mesmo que é bem provável que não tenha visto nada igual nos últimos anos – ao menos, não em Hollywood. Mas, Linklater (Slacker 1991) alcança essa tal excelência já no primeiro filme da seqüência, e traz ao seu público uma aventura inesperada, que foge – e fugiu, em 1995, com a estreia de Antes do Amanhecer – totalmente do clichê inato que sempre é conduzido nos romances populares. 

Com a música de Fred Frith e roteiro pelo cineasta com a colaboração de Kim Krizan, este longa nos remete a algo que se mistura em nostalgia e ansiedade. Quando os jovens Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se encontraram em um trem com destino a Viena, não é necessário que se passe sequer dez minutos de diálogo inspirador para que Jesse convide a bela francesa – que voltava para casa, em Paris – a descer com o mesmo na estação da capital austríaca, com a proposta de terem uma noite inesquecível até o amanhecer – quando então se separariam.

É impreciso pontuar sobre amor à primeira vista sem temer o clichê inevitável, mas Linklater soube pesar a mão na hora certa e, trouxe aos espectadores uma realidade que há muito vem sendo esquecida: é possível se apaixonar por alguém não pelos seus atos, mas sim pelos seus ideais. Com planos longos e objetivos, temos uma fotografia surreal. Viena é exposta de maneira mágica, buscando traços diversos de coloração, a fim de mostrar a imaturidade e expectativa de nossos protagonistas, estes que, tão novos – com apenas 23 anos – vêem seu futuro de forma promissora e empolgante. Ali, entregues a própria inocência, o casal caminha pela cidade sem se preocupar com o dia seguinte, apenas focados em construir um momento incapaz de se perder no tempo, apesar dos pesares – diga-se de passagem, como vemos na evolução do terceiro filme da seqüência, Antes da Meia Noite, onde se denota o desgaste habitual que pousa sob um relacionamento de longo prazo .

O destaque do diretor e roteirista é principalmente realizado por este último: o roteiro. Repleto de diálogos marcantes, em todos os três filmes, Richard tenta nos levar a um universo onde as palavras são tão imponentes que são capazes de construir relações que se asseguram de forma atemporal. Não que as personalidades não mudem e que as prioridades não se voltem a outros objetivos, mas, de forma exata, se há algo imutável nesse relacionamento é a capacidade dos dois se amarem e se ferirem demasiadamente através de seus extensos diálogos.

      

Em Antes do Pôr do Sol, filmado 9 anos após o primeiro, em 2004, a magia do romance intocável já não é tão inebriante e percebe-se nos minutos iniciais. Ao fim da noite inédita que viveram na Áustria, dois jovens apaixonados se despedem na mesma estação e combinam de se encontrar ali mesmo após seis meses, não trocam telefones e nem os sobrenomes. Como sabemos, a vida dá errado, é um costume, ao qual já estamos todos, de certa forma, conformados. E não seria diferente com Jesse e Celine.


Neste segundo momento, ambos se encontram em Paris no lançamento de um livro do rapaz – agora já bem mais maduro – que, oportunamente, é sobre o encontro dos dois há quase uma década atrás. Agora, o cineasta dirige o longa em tempo real: são 90 minutos de uma conversa longa e saudosa, enquanto caminham pelas ruas históricas da cidade. O tempo restante que o moço ainda possui antes de decolar para outra cidade e continuar o lançamento de seu livro.

A química que os envolta ainda é inestimável, no entanto, após tanto tempo sem se falar, em certos específicos momentos, é possível notar uma leve timidez e constrangimento que rodeia os olhos daqueles – que neste momento – já se encontram adultos e estabelecidos em suas respectivas vidas. Embora, quando se trata de reciprocidade, a questão vai além, pois a cumplicidade que os envolvem é irremediável.

É ali em Paris que Celine descobre que Jesse já se encontrava casado – embora vivesse em um relacionamento infeliz – e, fruto deste, possuía um filho pequeno. Eles se perdem em diálogos e olhares nostálgicos raciocinando o que poderia ter acontecido se, de fato, tivessem voltado a se encontrar em Viena, seis meses após aquela noite impecável. No entanto, tudo isso é uma perda de tempo. Celine se justifica, afinal, sua avó teria falecido, portanto, não tivera a chance de voltar àquela estação. Por outro lado, o homem afirma que teria voltado e esperado pela moça, a partir daí, surge a famigerada dúvida. Jesse teria mesmo voltado? A mulher sempre o questionou, mesmo que em tom de brincadeira, sobre o fato, deixando essa questão no ar. Eu, como espectadora, acredito que ele voltou, afinal, só escreveu aquele livro com a intenção de que pudesse chamar a atenção da amada e, enfim, reencontrá-la.



A ajuda de Ethan e Julie no roteiro é, certamente, uma maneira de alcançar o intimismo e proximidade dos atores para com a história. Assim, sabemos que existe um pouco de cada ator em seus personagens, logo, a forma de construí-los se torna apropriadamente natural. A trilha sonora neste segundo longa é responsável pela querida Delpy, que compõe cerca de duas músicas e interpreta formidavelmente.

O cineasta acompanha os protagonistas com a câmera até a casa de Celine, abrindo os ângulos para aproveitar a belíssima paisagem e, sempre que possível, demonstrar através das lentes como o casal se encaixa em seus pequenos gestos, olhares e singularidades. Quando chegam finalmente, a moça apresenta seu aconchegante apartamento e, ali, Jesse sabe que é o fim da linha para sua resistência. Com uma doçura sem igual, os olhares se cruzam e um pequeno decisivo diálogo surge:

            – Você vai perder aquele vôo, – ela diz.
            – Eu sei, – ele sorri.

Neste ponto da história, quando Linklater resolve aprimorar a sua obra e criar um desfecho com glórias, temos um pulo de mais 9 anos, já é 2013 e sai do forno o sensível Antes da Meia Noite. A trilha sonora é de Graham Reynolds e os dois atores principais são responsáveis pelo roteiro ao lado do diretor, mais uma vez.

Podemos dizer que é o longa mais doloroso de toda a trilogia, é a realidade nua e crua, é a dor da rotina de dois seres humanos que se amam, porém já estão a beira dos quarenta e a inocência já não rodeia suas vidas.

Acompanhamos, de forma crucial, como aquele episódio na casa de Celine foi determinante para o futuro que se seguiu. Jesse perdeu o vôo, “Eu fodi a minha vida toda pela forma que você canta”, como ele mesmo diz quase ao fim do capítulo final. Eles se casaram, realizaram sonhos, tiveram duas gêmeas lindas e estão passando as férias na Grécia.

Sim, tudo foi bem articulado pelo maravilhoso diretor. Em meio aquelas ruínas, o casamento dos dois parece se dissolver exatamente igual e temos a certeza de que aquele vislumbre do que poderia ser a vida há 20 anos, já se dispersou dos olhos de Jesse. Este que vive uma crise existencial por estar sempre tão ausente na vida do filho de seu primeiro casamento e a partir daí, um atrito imenso com sua esposa se acarreta, o qual que se resume basicamente em um balanço da importância das prioridades do marido e as da esposa. Fato um pouco corriqueiro até, o próprio casal admite que com a correria da vida atual, as brigas e discussões são apenas mais um detalhe do dia e aqueles diálogos entusiásticos dos anos iniciais, assim como o tempo de sobra que tinham para os dois, se exauriram no momento em que decidiram ser pais.

       

Tudo é tão completamente justificável que parece ser óbvio, mas não, o filme nos direciona a um raciocínio diverso e complexo. É possível amar desesperadamente alguém, possuir tamanha lealdade e uma vida estável ao lado deste e ainda assim possuir um egoísmo velado e até cometer atos de infidelidade – como podemos deduzir em um momento infeliz da discussão – em algum tropeço pelo caminho? Talvez. Nunca podemos questionar a capacidade do ser humano em ser incoerente – ou apenas humano.

Uma vez, ao apresentar esse filme a uma pessoa querida, ouvi ela dizer: “Ué, eu sei que não é possível ser feliz vinte e quatro horas por dia, mas quando se tem alguém, é melhor tentar, né?”, talvez ela tenha razão, talvez não. O que sei e aprendi sobre esses dois é que a complexidade de um relacionamento, embora seja construído ao lado de sua alma gêmea, é imprevisível.

Podemos alegar que o cineasta tenha nos iludido, por ter nos demonstrado tamanha cumplicidade e companheirismo nos dois primeiros filmes (de forma surreal e inimaginável), para que no fim apenas ressalte que o cansaço da vida é inevitável e nos faz perder até da pessoa que mais amamos. Porém, eu vejo de outra forma, afinal, não há maior prova de amor que continuar tentando viver e morrer ao lado daquela pessoa única, mesmo em meio a trancos e barrancos, quando se quer e se sente o suficiente, é possível.



“Eu estou dando a você, toda a minha vida, está bem? Eu não tenho mais nada para dar.” Jesse a Celine; Antes da Meia Noite, 2013.

Esse texto foi escrito por: Ana Carolina Teles




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