The Bastard Executioner - S01E10 - Blood And Quiescence/Crau A Chwsg (Series Finale)

Por Roberta Brum

27 de novembro de 2015

SPOILERS ABAIXO

Demorei porque é complicado. Sinceramente porque não queria escrever. A sensação de encerramento me incomoda. Sim, a série não é daquelas que tu sais berrando "QUE SÉRIE DO CAR$#@*&.TU TEM QUE VER. SÉRIO CARA, ASSISTE", mas eu me afeiçoei a ela e principalmente a alguns personagens. Não esperava TBX com o ardor que espero os domingos de abril com Game of Thrones. Mas assistia com carinho. Me envolvia na trama. Uma espécie de perda se desenha porque não foi aquele final redondinho. Foi brusco. Inesperado. E a sensação de incompletude, de meio caminho andado, de que falta algo, persiste. Foi um final abortado, resumindo.



TBX foi cancelada de um modo nada ortodoxo: o próprio diretor fez as vezes de carrasco e desceu o machado. Mas entendo o Sutter: de 4 milhões para 1,9 milhões é uma queda substancial. E ele não quer escrever algo que ninguém assiste. Como ele mesmo resumiu "o público se pronunciou e a reação foi 'meh'".

Bom, se eu acho um porre escrever uma review nesta situação, que dirá ele que optou pelo game over. Mas voltando ao meu nanoproblem (que é um mimimizinho básico) de escrever review de série cancelada: é ruim, é chato pra caramba, é penoso. Não considero uma perda de tempo porque é uma forma de expiação. Assim, escrevo com um gosto amargo da boca. Escrever uma review sabendo que a série foi cancelada não é nada prazeroso. Principalmente quando a dita série estava em plena ascendente e a finale foi muito boa. Um tanto contrastante com o tom sombrio e pesado da série, com toques de happy ending.

A season/series finale foi um episódio resolutivo, digamos assim. Tudo ficou às claras: a identidade secreta de Brattle é revelada à todos àqueles que tenham alguma relevância à história. Marshall/Toran e Wilkin finalmente têm suas "vinganças", ou pelo menos um pequeno gosto delas. E amargo. Toran desafia Locke para um duelo de espadas que deve resultar na morte de algum deles. Porém, em um senso de honra um tanto quanto distorcido, Locke poupa a vida de Toran, dizendo que estão quites. Sinceramente, neste caso não há troca justa, e pelo que o Toran demonstrou até agora, ele preferia morrer à aceitar tal acordo. Cara, o Locke, como mesmo disse, mesmo sob ordens do comandante, é responsável pela espada, espada esta que assassinou mulher e filho do Toran. É inconcebível este repentino acordo. A sede irracional de vingança do Toran esgota-se em segundos. Me incomodou este fechamento, de modo que considero a trégua incongruente e muito conveniente, fora que não faz o estilo do Sutter.

Wilkin também fica com um gosto amargo, afinal de contas, ele não se vinga efetivamente. Wilkin apenas troca alguns socos com Leon, para exemplificar. Nem sangue eles perdem. Talvez a revelação da verdade tenha-os libertado de um fardo, mas o alívio não é total. Pelo contráraio. Wilkin, por exemplo, descobre que esteve enganado todo este tempo, não sendo o Leon o cruel assassino de sua esposa. Ou seja, é capaz de ele estar ainda mais perdido e sua sede de vingança aumentar, principalmente se suas suspeitas se voltarem ao Corbett, o que seria mais um engano, afinal, o centro das respostas e a "culpada" é a Annora. Esses "acertos" foram muito surreais. Mas enfim, continuemos, afinal eles serviram para algum propósito:

Como disse Corbett, status, hierarquias e rivalidades foram esquecidas naquele dia. Tudo convergiu em um único ponto: o resgate de Luca e do padre Ruskin. Não haviam subterfúgios ou falsos pretextos. Todos queriam ambos em segurança. Inclusive os rebeles galeses se juntam à empreitada, forjando uma frágil aliança e talvez dando início a um diálogo que trará uma possível paz nos tempos vindouros, que serão (seriam, não é) sombrios, em especial pela vendetta que a Igreja empregaria. Aqui um elemento se consolida claramente: os Cavaleiros da Rosula são postos enquanto inimigo comum número um, sendo os grandes vilões do momento.


Apesar do cliché, afinal, toda produção do período delega a vilania à Igreja e seus agentes, é compreensível esta caracterização. Século XIV, estamos às portas da Reforma Protestante, um movimento questionador e crítico a respeito das práticas eclesiásticas. Sim, tivemos Reformas e Contra-Reformas, a Inquisição Medieval e Moderna, a censura católica, mas é importante ressaltar que apesar do cinema e a televisão (e a literatura também) consolidarem esta representação negativa (e ter suas matizes de verossimilhança) no imaginário das pessoas, este é apenas um aspecto da Igreja. Reflete significativamente bem o período, principalmente a postura eclesiástica corrupta, gananciosa, intervindo politicamente e economicamente, mas isto representa apenas um aspecto.

Apesar de considerar o episódio bom, de um avanço significativo na narrativa, como já apontei, alguns aspectos me incomodaram. Além da rapidez que a vingança irracional e obsessiva se torna aceitação e convivência pacífica, a reação da Annora à morte do Dark Mute foi um tanto quanto distinta do que imaginei. E não no bom sentido. Entendo que a Annora se relaciona de modo distinto com a corporeidade, mas ela responde inocuamente à morte do Dark Mute. Aceita e esquece tudo muito rapidamente.


A dupla dinâmica da série: Corbett e Love conversam sobre a falsa gravidez, e sinalizam a única saída possível, que já tinha citado em alguma review anterior: o aborto. É lógico e plausível. No medievo, gravidez era tanto um imperativo, quanto era temida: imperativa por ser necessária à continuidade da linhagem das famílias, em especial pela manutenção do poder e controle de terras; temida pela alta taxa de mortalidade. O parto era um perigo, tanto para a mãe quanto para a criança, assim como abortos eram comuns, visto que não havia tecnologia nenhuma para auxiliar no parto. Era basicamente uma parteira, e caso o bebê estivesse com o cordão enrolado ao redor do pescoço, estivesse virado, dentre outras situações, não havia muito o que fazer, em especial pelos princípios católicos, que restringiam as ações inclusive da parteira.

Neste sentido, visando a continuidade da soberania de Love sobre Ventrishire, Corbett insiste na alternativa viável e óbvia: o casamento de Love com Pryce. Seguindo o comportamento e o pressuposto patriarcal da época, a mulher era posse do homem, sua importância se resumia à parir, cuidar dos filhos e casa. A Love, com sua autonomia e independência era uma exceção. Sendo moedas de troca e o casamento um negócio, um modo de forjar alianças, viuvez era algo extremamente temporário. E Love sabe que não pode escapar desta realidade, principalmente sem herdeiro. Um herdeiro lhe daria mais tempo, mas não seria uma fuga total.

Faço minhas as palavras de Love: mesmo as táticas de Corbet seram "agressivas, secretas, e muitas vezes ilícitas, gosto do seu jeito. Simplesmente não tem como não gostar. Juntamente à Love, ele foi o melhor da série. Um dos personagens tridimensionais que fazem jus ao termo.

As partes divertidas, bobinhas, mas que deram um up e leveza ao episódio: shippei a Isabel, que é uma personagem secundária carismática, que acaba se destacando, mesmo dentro da banalidade de seus atos, tanto com o francês bobinho, quanto ela com o Corbett. Estes dois e a "vara ungida" foram ótimos.

No mais:

- Sumir com a Crazy Jessamy foi solução rápida e fácil;
- Meu Mouro muso se mostra uma pessoa extremamente sensata e sábia (fora que pode-se fazer um paralelo da situação dele com a questão dos migrantes sírios);
- Love e Wilkin se conheceram biblicamente;
- Dark Mute é um mártir mesmo: morreu para salvar o resto do bando. E fez de sua morte algo icônico;
- Luca de assassino do arquidiácono foi um tanto quanto inesperado.

Um dos pontos altos de TBX realmente foi esta verossimilhança com o período histórico, se detendo em pequenos detalhes, indo muito além do visível e nominável, como as vestimentas, expressões ou marcos citados em diálogos.

E assim se encerra TBX: os "bonzinhos" fizeram coisas boas e se deram bem. Sem atitudes e atos repreensíveis ou condenatórios. Bem maniqueísta. Algo bem contrário ao Sutter. 

Deste modo, encerro meu texto e também meu breve relacionamento com TBX, que termina de forma satisfatória dentro do que é possível. Mas não ficarei órfã muito tempo: começarei The Last Kingdom. E à quem interessar, nas próximas semanas assumirei The Good Wife.

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