The Bastard Executioner - S01E03 - Effigy/Ddelw

Por Roberta Brum

26 de setembro de 2015

SPOILERS ABAIXO

Sabe aquele episódio que tu não sabes se foi bom ou ruim? Pois foi este. Razoável, no máximo. Principalmente nos primeiros 15 minutos foram diálogos sem tanta fluência, forçados, que soaram falsos, deixando o episódio um tanto quanto truncado. Quanto ao macro: teve muita mentira e o início da vingança.

Wilkin Brattle, de quem eu esperava um belo arco narrativo, repleto de twists, me pareceu tão banal neste terceiro episódio. Me desencantei um pouco. A trama central e até o próprio Brattle, parecem simplistas e fracos em relações a outros arcos e personagens. Neste episódio em especial as tramas paralelas se sobrepuseram à trama principal, não só em tempo de tela, mas também em profundidade e coerência, principalmente a trama de Lady Love e da Annora.

A começar, não consigo conceber esta farsa da esposa do Gawain Maddox (o verdadeiro e já falecido); no episódio passado a imediata aceitação tinha lógica: ela viu a oportunidade de uma nova vida, uma vida sem violência e abuso. No público a ilusão tem todo o sentido, mas no privado... tentei compreender, juro. Pelo lado econômico, político, religioso, moral, tudo (se alguém tiver alguma ideia alternativa, por favor, me elucide); o que talvez dê alguma veracidade é o aspecto social, pelo fato de ela ser mulher em um lugar novo precisar de sustento e segurança, mas mesmo assim, no privado tal farsa não precisaria se manter. Magicamente para ela e o filho, Maddox apenas mudou de rosto. E me nego a aceitar algo relativo à magia. Posso estar fazendo uma leitura bem errada e daqui alguns episódios morder a língua lindamente, mas não é nem um pouco crível.
Já do mote principal da série, a vendetta. O plano de vingança é óbvio e banal: identificar quem participou do ataque à aldeia e matá-los. Brattle já identificou um e quer se vingar imediatamente, mas Marshall o impede pois precisam identificar os outros. Nada de demais aí.

Quanto às tramas paralelas - mas que acabam se entrelaçando na principal - destaco Lady Love e Annora. Annora é uma personagem que está sendo desconstruída aos poucos e cada fato revelado deixa mais perguntas que respostas. Não queria ser maniqueísta, mas em todo caso, não dá para saber se é boa ou se é má. Na verdade, ainda não dá para saber quem é ela, as motivações, os objetivos, nada. Levanto inclusive a hipótese de ela ser mãe do Brattle, em especial pela história de ele ter sido abandonado em um convento e treinado pelo próprio Ludwig. E todas aquelas cobras? Ela é a personagem mais rica em elementos da série, mas o sotaque ainda incomoda. Mas foi dona de uma das melhores sequências do episódio: aquela em que ela retira a cobra da boca do Ash e a mata é sensacional. E nojenta. Falando em cobras, em compensação, o que essa cena teve de maravilhosa, a do Brattle teve de ridículo: parecia mais uma cena de Boa vs. Python do que uma série medieval.

Fora que abriu mais um leque de mistérios:o simbolismo do V, de desmembrar pernas e braços, cortar e levar pés e mãos, trocar as posições: braços nas pernas e pernas nos braços. O mais intrigante no episódio, por mais absurdo, nonsense e até fora de contexto que possa parecer, foi este ritual macabro. Deve haver um simbolismo intrínseco e um porquê ali e todo o caráter místico me intrigou. Em especial pela época: em uma sociedade extremamente dogmática, na qual a religião dita a vida, há uma dialética sugestiva entre o sagrado e profano aqui.

Lady Love também se destacou neste episódio. O episódio foi dela. Dentre tantos personagens dúbios, com falhas claras de caráter, Lady Love à princípio é a única com valores morais claros - a criada também parece ser. Mas demonstrando mais uma vez a dualidade e ambiguidade sempre presente no texto de Sutter, mesmo com toda a diplomacia e sensatez, condenou à morte a prisioneira. Adorei o empoderamento e autonomia dela. She runs that motha! Ela é extremamente atenta a tudo, coerente, pragmática. Fora os cortes que ela deu no Corbett. Delícia. Ela só tem cara de submissa e frágil, mas sabe bem o que quer e na real sabe muito bem ler a realidade. Bem na vibe "te escuto, mas vou fazer o que eu bem entender". O que diga-se de passagem, não era comum à época. É bem provável que o rei ordene que ela case novamente com outro nobre o mais rápido possível (Corbett talvez?). Lady Love teve as melhores sequências e falas (ela chamando a criada de mãe rendeu boas risadas).

O contexto da rebelião que serve como o cenário onde se passa a série cria uma constante tensão e mais um conflito para Brattle e sua dupla identidade. E aí a rede de intrigas e mentiras se aprofunda. Este plot me empolga mais que o da vingança. Não cumprir a sentença foi ao mesmo tempo um desafio e uma rebelião, uma atitude de autonomia, se negando a ser fantoche; esta tensão entre Corbett e Brattle tende a ser maximizada, porque os dois estão presos à mentira: se vir à tona, ambos sofrerão consequências. O Brattle pode se ferrar de todos os lados: ele e a falsa família; a aliança com o Lobo se descoberta; pode sofrer retaliação por ter traído o movimento revolucionário; se alguém descobre seu passado tanto como soldado britânico como líder rebelde; a própria vingança. Acompanharemos um longo e sombrio caminho.

Corbett demonstra uma astúcia, sendo o mais prestativo possível, mas por baixo desse discurso macio, tem todo um jogo de interesses no qual ele claramente tenta manipular Lady Love. A princípio pensei que ele pretendia casar com Lady Love, agora estou em dúvida. Mas ele se sente sim ameaçado pela proximidade entre ela e o Brattle, e até uma possível influência dele sobre ela. Isso que ele não sabe da visão que ela teve, que indica possível relacionamento entre Brattle e Lady Love. Temos aqui um triângulo não amoroso, mas sim de interesses e poder.

A religião mais uma vez se faz presente no aparentemente aleatório entre Berber e Annora: a questão moura, o que traz mais um conflito à série. Os mouros (muçulmanos ou islâmicos) naquela época eram perseguidos por cristãos, que queriam uma homogeneização da religião. E Annora mais uma vez surpreende, citando o Corão e me confundindo ainda mais. As referências à vida passada são constantes , o que só me diz uma coisa: é claro que todos um passado não muito admirável ali.

Confesso que estou adorando o lado visceral de TBX: teve tripa de novo, membros decepados, ovelhas estripadas, cobras sendo retiradas de gargantas, mas sem gourmetização de Hannibal. TBX é selvagem!

Apenas uma curiosidade. O objeto que Brattle manuseia para arrancar a verdade da menina (não o arrancador de unha, o outro) é um dos piores instrumentos de tortura utilizados pela Santa Inquisição, a pera. A pera era o instrumento favorito a ser usado contra adúlteras e homossexuais. Esse aparelho era inserido no ânus ou na vagina (ou boca, se ele fosse um mentiroso) da vítima e através daquele engenho na ponta, ele se abria. dilacerando o interior do inquirido. Não levava à morte, mas era com ele que se começavam as inquisições. 

Idade Média era louca né?


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