Primeiras Impressões - The Bastard Executioner

Por Roberta Brum

21 de setembro de 2015

SPOILERS ABAIXO

Saem as motos e fuzis, entram cavalos, espadas e machados. Por ser a nova série de Kurt Sutter, as comparações com Sons of Anarchy são esperadas, mas além de rostos familiares (o próprio Sutter, Katey Seagal e Timothy V. Murphy ) e de uma breve comparação, fico apenas no protagonista: Wilkin Brattle.


Tanto SoA quanto TBX narram a história de um grupo de foras-da-lei (liderado por um homem que é assombrado por seu passado, mas cujo futuro reserva longa e sangrenta trajetória na busca para cumprir o seu destino). As motivações também se assemelham: vingança, paixões, ganância e disputas pelo poder. E que, em última análise, tudo se resume à família. 

Jax Teller e Brattle são parecidos: iniciam a narrativa com motivos nobres, lutando para conciliar suas ações e vidas com uma moralidade ideal, estão espiritualmente em conflito, são líderes, personagens densos e atormentados. Ambos são capazes de barbárie e são motivados e movidos por vingança. Mas, enquanto eles lutam com seus demônios, também mostram um lado mais suave quando se trata da família e não mostram nenhum problema em serem emotivos. Estes heróis destruídos tentam viver longe do derramamento de sangue por causa das famílias, mas não importa o quanto eles tentem, sempre acontece algo que os leva para o dark side. Fica claro que existirão momentos em que o guerreiro dentro dele irá superar qualquer sentimento de culpa ou conflito moral e irá guiá-lo em frente. Assim como Jax, que queria legitimar o SAMCRO, Brattle luta pelo que acredita ser o certo: contra um regime severo. Porém, assim como Jax, muitas vezes ele acaba por recorrer a meios violentos e sombrios para atingir seus objetivos. A principal diferença reside no ator: Lee Jones não tem a mesma presença, empatia ou força cênica que Charlie Hunnam.

A cena de abertura apresenta nosso protagonista, Wilkin Brattle, então soldado do Rei Eduardo I da Inglaterra, sendo derrotado e quase morto em uma batalha e recebendo a visão de um anjo que o conclama a mudar de vida. E é isto que ele faz. Esta cena na verdade é um pesadelo recorrente que atormenta Wilkin, agora um simples camponês de uma aldeia em Gales, casado e prestes a ter um filho. Mas esta paisagem idílica não dura por muito tempo e as engrenagens da trama começam a rodar a partir do assassinato de sua esposa e filho por alguém que já o havia traído.

A leitura que Sutter faz da época é bem interessante, principalmente o modo como caracteriza o medievo, que serve de pano de fundo para a série e torna a trama mais coerente. A idade medieval era teocêntrica, extremamente dogmática. A religião, no caso o cristianismo comandava a vida cultural da sociedade e era algo naturalizado, já intrínseco aos indivíduos: a Igreja comandava não apenas a fé, mas o comportamento, ditando inclusive posições sexuais e o papel da mulher. Tem-se também a disputa entre feudos, o próprio conflito entre senhores feudais (os barões) e os camponeses devido aos impostos abusivos; enfim é uma teia muito bem construída. Neste cenário teológico, as visões de Wilkin fazem todo o sentido, assim como o fato de ele segui-las. Outra cena esclarecedora foi a primeira do Barão Ventris, em que ele está copula (outro termo não cabe aqui) com Lady Love: casamentos eram acordos ou negociações que envolviam terras, riquezas e poder. Amor era uma emoção que não entrava na equação. O sexo era para reprodução, a mulher era inferior e submissa ao homem (seja marido, pai ou irmãos), em uma sociedade claramente patriarcal. E esta resumiu tudo isto em um diálogo duro, mas real.

Brattle incorpora claramente arquétipo do anti-herói de Carl Jung: possui falhas e atitudes questionáveis, que nem sempre se enquadram dentro da moralidade. Ele não é completamente honesto quanto ao seu passado (ele omite sua trajetória como soldado inglês), mas ao mesmo tempo tem uma posição de liderança, sendo aquele em que todos confiam. Está disposto a se sacrificar para defender sua aldeia, atacando os soldados do barão para evitar que a aldeia seja ainda mais explorada através de impostos, sendo uma espécie de Robin Hood. Não usa a espada, mas sim um bastão de madeira. É carinhoso e amoroso com sua família, mas também é violento, impulsivo e até egoísta. E finalmente, assume a identidade de outro homem. Não são exatamente atitudes de um homem admirável. Ainda não o classifico como fascinante, mas Wilkin/Maddox é no mínimo interessante.

Um dos pontos altos do roteiro é o passado de Brattle enquanto soldado servindo Ventris e Milus e como isto refletiu no presente: foi tudo bem amarrado e culminou em um conflito que intriga pelos desdobramentos possíveis: a verdadeira intenção de Milus, o interesse e motivações de Annora, a guerra pela independência galesa, Brattle sendo algo que ele jurou abandonar, enfim, uma gama de acontecimentos com potenciais.

TBX teve um início moroso, com subplots aparentemente irrelevantes, que tem mais um caráter de conveniência à trama do algo realmente enriquecedor, como o Mutton e sua ovelha, a tensão entre Milus e seu irmão, Gwain Maddox e seu tormento, o próprio padre, enfim, eram várias coisas que não levavam a lugar nenhum. Mas vendo os 90 minutos, percebe-se que aquela parte de apresentação é importante ao oferecer uma visão panorâmica de tudo que levou ao conflito central, na transformação de Brattle em carrasco. A crítica da EW afirma que Brattle é mais um daqueles personagens clichés que odeiam o seu trabalho e vivem em constante conflito por causa disso. Esta é uma caracterização muito simplista. E fraca. E deturpada. Ele não simplesmente odeia o trabalho. Ele é o que as circunstâncias fizeram dele: foi traído em batalha, teve um visão divina, viu sua vida novamente ser destruída e se adaptou a cada nova situação, mesmo não sendo a ideal (na verdade estando longe disto). Ele abandonou a vida militar, assumiu o papel de camponês e agora o executor do título por necessidade. Já a Variety afirma que TBX não traz nada de novo. Mas particularmente acho que não há nada inteiramente inédito desde as tragédias gregas. As tramas envolvem basicamente disputas pelo poder, traições, ganância, relações de amor e ódio. O que muda são as maneiras de contá-las.

Quanto a uma das principais expectativas da série: a violência e consequentemente a brutalidade. Foi perturbador: temos um corvo comendo intestinos, uma grávida sendo morta e seu bebê retirado da barriga, algo que pode ser visto ou como tortura ou como uma experiência , braços e cabeças sendo decepados, enfim, tivemos nossa cota de violência, mas ainda não foi tão sanguinário quanto esperava.
É uma série repleta de mentiras, vinganças, traições, disputas incessantes pelo poder, onde ninguém é o que parece, violência e bastante realismo. Aquela abertura é sensacional, o contraste dos tons de cinza com o vermelho criam um efeito poderoso e os elementos mostrados: o rosário, a coroa de espinho, a estátua da santa juntamente com instrumentos de tortura dão um tom sombrio e polêmico, ao mesmo tempo que sintetizam muito bem a realidade da Idade Média. Os efeitos especiais da FX não são tão bons como os da HBO ou da Starz e infelizmente deram um tom cômico e de paródia a cenas que deveriam ser sérias. Haverá comparações com Game of Thrones, mas ainda assemelho a trama mais à Spartacus, mas isto é material para um único post.


Dentre os personagens que merecem destaque estão Lady Love, o Milus é uma espécie de Iago; Annora, uma conselheira misteriosa, sábia mas também suspeita; uma Yoda às avessas. O sotaque dela, beirando a paródia me incomodou. E o Ludwig, que ganhou toda uma importância ao se revelar ser ele o assassino da esposa de Brattle.

A trama de Bastard Executioner têm seu início real no momento que Wilkin chega em Ventrishire. Onde a escrita de Sutter e tudo converge no plot principal, do protagonista, que literalmente assume uma nova identidade e se torna o executor do título. Acompanhar a jornada de declínio às trevas e redenção de Brattle é algo a se esperar. Tem tudo para prender a atenção. A minha já tem.

Por: Roberta Brum

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