Conheça: Mr. Robot

Por Roberta Brum

15 de setembro de 2015

Inception + Matrix + V de Vingança + Clube da Luta. Foi a primeira impressão que tive sobre Mr. Robot.

Elliot é o nosso Neo: decidiu tomar a pílula vermelha e encarar a realidade. E intervir nela. A princípio ele é apenas um técnico de uma empresa de segurança cibernética que hackeia pessoas ao seu redor. Ele, no seu isolamento e solidão sociais, vê além das aparências, além da bruma de fantasia, das máscaras. A princípio ele é um hacker solitário. A princípio. Ele quer melhorar o mundo e acredita que através de pequenas ações: entregando um pedófilo de uma lanchonete perto da sua casa, evitando uma desilusão amorosa da sua psiquiatra ele fará isso. 

A primeira sacada em Mr. Robot é usar a linguagem em 1ª pessoa. E faz isso a partir de um personagem agridoce, que está longe do maniqueísmo comum dos dramas atuais: 

Malek Elliot não é simplesmente bom ou mau. A perspectiva dele mostra uma pessoa com problemas dissociativos (que são visíveis e fortes desde os primeiros momentos). Elliot odeia seu trabalho, odeia a sua vida, detesta pessoas, tem um problema com drogas, e vive insatisfeito e com raiva do mundo. E prefere se isolar e hackear a vida de pessoas e encontrar seus pontos fracos ao invés de viver a "vida real". 


Bipolaridade, transtorno dissociativo, esquizofrenia, não sei. Só sei que a composição do Elliot é ótima: ao mesmo tempo ele é paranoico e desequilibrado, mas ainda consegue ser simpático e intrigante. Temos aqui um incompreendido. Um herói nada convencional, uma espécie de justiceiro solitário tecnológico.

Porém, ao entrar em contato com uma equipe de hackers, ele encontra um objetivo de vida. Eles tem um ideal: deletar as dívidas de 70% da população, revolucionando o mundo. O mundo é duro, é feio e muito injusto. E a fsociety quer revolucionar isto. Acabando com hierarquias. Com desigualdades (pelo menos parte delas.). A fsociety é nosso anonymous.
Ao usar a perspectiva em 1ª pessoa, Mr. Robot quebra a quarta parede. Viramos a consciência de Elliot. Ou seu amigo imaginário. E ser o amigo imaginário do Elliot não é fácil. O cara é paranoico, nunca sabe se "it's real life or just fantasy". E o grande problema do mundo para ele são as grandes corporações, aqui agrupadas na figura da E Corporation. A EvilCorp. 

Nisto está uma puta sacada da série: EvilCorp não é o nome da empresa, é só como o Elliot chama a empresa. Ele mencionou no pilot não pode ouvir/ver o nome da empresa sem imediatamente associar com e ter EvilCorp na sua mente. Já que a série é vista a partir da perspectiva dele, é também como o público vê a empresa. Acho tão legal quanto a quarta parede com o Frank em House of Cards, que também não deixa de ser o que acontece em Mr. Robot, mas de uma maneira bem mais esquizofrênica.

A linguagem técnica da série é um caso à parte: nem sempre é fácil de explicar hacking e provavelmente não seria muito interessante, mas Sam Esmail faz em Mr. Robot um bom trabalho, usando jargões, mas que dentro do diálogo fica inteligível ao grande público. E também desmistifica um pouco sobre as façanhas dos hackers: não é tão fácil quanto o senso comum proclama. Elliot é talentoso sim, mas existe trabalho braçal nisso. Existe uma grande preparação em tudo: aproximação de locais, de pessoas, tudo. Longe de ser uma apologia ou endeusamento de hackers, Mr. Robot faz uma crítica tênue e ácida ao sistema vigente na sociedade: o neoliberalismo capitalista. É uma leitura diferente da sociedade.

Mr. Robot nos força a sair daquele simulacro, aquele estado confortável de alienação em que nos refugiamos. Tem um texto afiado, inteligente e ao questionar o status quo vigente, atinge um dos problemas na carne. Uma amiga usa a seguinte analogia para religião: "não acho que Deus brinca de The Sims com nós". Pois eu usarei a analogia para refletir sobre nossa realidade. Vivemos em uma realidade pré-fabricada criada e governada por grandes corporações? Somos todos pré-estabelecidos? Somos dirigidos? O sistema neoliberalista capitalista não brinca de The Sims com nós? Nossas vidas e ações não são controladas pelo sistema? Vivemos no Show de Truman? 

É uma trama sombria e pesada. Aqui não tem happy ending.


Por: Roberta Brum


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